domingo, 10 de janeiro de 2016

José Américo de Almeida 3

À vista do bueiro fumegante que sujava o céu estivo, a matula espetral detinha-se esperançosa. E ficava a espiar a casa do engenho como uma grande essa armada no negrume do teto velho.Alguns faziam menção de subir. Mas logo desandavam, aos tombos, na mobilidade incerta.
De quando em quando, um magote vingava o socalco. Chegavam mastigando em seco, para enganar a fome, nas mais grotescas atitudes da miséria.
Dobravam-se os joelhos, não como pedinchões. Genufletiam moídos de fadiga.
Não se carpiam, como se estivessem realizando um destino irremediável. Nem, sequer, lavavam com lágrimas as caras poentas.
Escorraçados, retrocediam, arquejantes, sem uma queixa.
E, desengonçando-se, de déu em déu, numa marcha esquecida, o rebotalho errante ia atulhar as feiras, malignar as cidades.
Dagoberto despercebia-se do desfile macabro. A seca infundia-lhe um sentimento contrastante.
Era uma inquietação serôdia, como a brasa remanescente que procura acender o cinzeiro.
Num período de vida em que o homem realiza o que sonhou, ele voltava a sonhar. Amor - pólvora que se acaba com a primeira explosão, Amor que sabe a frutos apodrecidos. Era como o caminheiro que, fatigado da jornada, estuga o passo para chegar antes de anoitecer.
Beirava uma idade em que o instinto sexual instigado se difunde por todos os sentidos e é mais imaginação que materialidade, como a saudade do que se não gozou. Crise das uniões retardatárias.
Havia coisa de 18 anos, inveterava-se na viuvez desconfortada, por uma jura indiscreta:
- Mas eu não encontro outra mulher assim...
E gabava-lhe com minúcias de formas os caracteres da beleza e as prendas ocultas:
- Mulherão! mulherão!
Os dias do campo decorriam-lhe recreativos. Mas, à noite, quando as portas se cerravam, cerrava-se-lhe o coração.

"A Bagaceira", José Américo de Almeida

(José Américo de Almeida nasceu no dia 10 de Janeiro de 1887. Morreu em 1980.)

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