segunda-feira, 14 de abril de 2014

Soeiro Pereira Gomes

Fecharam os telhais. Com os prenúncios de Outono, as primeiras chuvas encheram de frémitos o lodaçal negro dos esteiros, e o vento agreste abriu buracos nos trapos dos garotos, num arrepio de águas e de corpos. Também sobre os fornos e engenhos perpassou lufada desoladora, que não deixava o fumo erguer-se para o alto. Que indústria como aquela queria vento, é certo; mas sol também. Vento para enxugar e sol para calcinar - sentenciavam os mestres. Mas o sol andava baixo: não calcinava o tijolo, nem as carnes juvenis da malta.
Menos por isso que pela fraqueza das vendas, os patrões não quiseram arriscar mais dinheiro nas fornadas. - Ano mau... Todos os anos se dizia o mesmo. Desde que apareceu a telha francesa, e o bloco de cimento levou tudo de mal a pior.
- Indústria pobre, Sr. Castro - chorava-se Zé Vicente ao pagar a renda do terreno. - Indústria pobre...

E era. Desde os garotos maltrapilhos aos valadores que vinham de muito longe - sete horas de comboio, a sonhar jornas impossíveis. Por isso, agora, o dia 7 de Setembro passava despercebido, sem festa. Dantes, era sagrado. Recebia-se a féria, pagava-se os fiados de três meses e festejava-se a despedida. Os moços queimavam o resto das energias na ornamentação do telhal; arranjavam instrumental de latas e cegarregas; desfilavam em cortejo. E, enquanto o caniço verde dos esteiros ondulava no alto dos fornos, as canas secas dos foguetes subiam ao céu. Patrões e mestres sorriam, seguros da conciliação; moços e valadores cantavam, ansiosos de melhor vida.
Bons tempos, aqueles! Os mestres ainda berravam, como dantes: - Eh, gente! Vamos ligeiro, que esta fornada é o resto. - Mas a cadência dos passos não se alterava, porque o pessoal já sabia que ia pagar o descanso com sete meses de privações.
Assim ficaram as eiras desertas. Apenas no Telhal Grande havia ainda algumas dezenas de tijolos que o mestre mandara pôr em fio, por causa do tempo ruim. E, mesmo esses, depressa iriam engrossar as arrumas, bem cobertas de telha, e mais volumosas que quaisquer duas moradias da malta dos telhais.

Ali se guardava o suor de um Verão de fadigas. Vento e sol; fadigas e suor - era o que os telhais queriam.

"Esteiros", Soeiro Pereira Gomes

(Soeiro Pereira Gomes nasceu no dia 14 de Abril de 1909. Morreu em 1949.)

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