| Foto Hernâni Von Doellinger |
terça-feira, 25 de abril de 2017
José Ángel Valente 3
Cántiga do eterno inretorno
Quero ficar asín, solo, no lonxe
sen ninguén, sen nadie,
paxaro que no ar infindo voa,
no baleiro do ar
cara ó hourizonte onde xamais se chega,
e nunca xa poder - ficar asín
voltar á orixe para sempre borrada.
"Cántigas de Alén", José Ángel Valente
(José Ángel Valente nasceu no dia 25 de Abril de 1919. Morreu em 2000.)
Quero ficar asín, solo, no lonxe
sen ninguén, sen nadie,
paxaro que no ar infindo voa,
no baleiro do ar
cara ó hourizonte onde xamais se chega,
e nunca xa poder - ficar asín
voltar á orixe para sempre borrada.
"Cántigas de Alén", José Ángel Valente
(José Ángel Valente nasceu no dia 25 de Abril de 1919. Morreu em 2000.)
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Evaristo Martelo Paumán
A Rosalía
Cando recordo teus cantares doces
cal son dos pinos na serea tarde,
aqueles que escoitamos desde o berce
cal cariñosa voz de fada amante,
aqueles, que dempois prenderon lume
nos peitos dos varóns, donde hoxe arden
volcáns de amor pola esquencida terra
que farán preto ver coma un xigante
erguida en alto dos seus riscos feros,
a esas xentes sin fe, sin cor, sin sangue,
que menten despreciar rexionalismos
porque de medo entúpense cobardes;
¡Miserables sin peito e sin cabeza,
que nin para ternos da estribeira valen!
¡Cal sinto, Rosalía, que morreses
sin ver o noso día, o que anunciache!
Se a velo eu chego, xuro que te levo
unha rosa, aunque vaia tinta en sangue.
"Landras e Bayas", Evaristo Martelo Paumán
(Evaristo Martelo Paumán nasceu no dia 25 de Abril de 1853. Morreu em 1928.)
Cando recordo teus cantares doces
cal son dos pinos na serea tarde,
aqueles que escoitamos desde o berce
cal cariñosa voz de fada amante,
aqueles, que dempois prenderon lume
nos peitos dos varóns, donde hoxe arden
volcáns de amor pola esquencida terra
que farán preto ver coma un xigante
erguida en alto dos seus riscos feros,
a esas xentes sin fe, sin cor, sin sangue,
que menten despreciar rexionalismos
porque de medo entúpense cobardes;
¡Miserables sin peito e sin cabeza,
que nin para ternos da estribeira valen!
¡Cal sinto, Rosalía, que morreses
sin ver o noso día, o que anunciache!
Se a velo eu chego, xuro que te levo
unha rosa, aunque vaia tinta en sangue.
"Landras e Bayas", Evaristo Martelo Paumán
(Evaristo Martelo Paumán nasceu no dia 25 de Abril de 1853. Morreu em 1928.)
segunda-feira, 24 de abril de 2017
Vidro temperado, mas com parcimónia...
O vidro temperado é aproximadamente quatro vezes mais duro do que o vidro normal, tem maior resistência térmica e estilhaça-se em pequenos fragmentos quando é partido. Por outro lado, é uma das principais causas da hipertensão arterial...
Feridas de guerra 7
| Foto do arquivo pessoal do ex |
Manuel Teixeira, 42 anos, suicidou-se. João Silva, 41 anos, aguarda julgamento por homicídio. José Rodrigues, 45 anos, faz terapia de grupo. António Pereira, 51 anos, vive obcecado pelas "injustiças" e já pensou matar ou matar-se - convive desde 1963 com psiquiatras e tranquilizantes. Manuel, João, José e António têm em comum a Guerra Colonial e o medo dos seus medos. São casos à mostra dos cerca de 140 mil ex-combatentes portugueses atingidos pelo stress de guerra, essa doença camuflada numa espécie de clandestinidade.
"Já não sou um homem". Manuel Teixeira tinha 42 anos quando resolveu terminar com a vida, "partindo para um caminho feliz". Fora uma criança normal, se bem que "um pouco aérea", fez a quarta classe e sonhou ser futebolista - conta a irmã, Edite. A juventude encontrou-o porém agricultor, cuidando capazmente dos terrenos dos pais, na zona ribeirinha do Freixo, resto do velho Porto rural.
Inspecções chegadas, tudo tentou a família para livrá-lo da tropa, mas nada resultou. O mancebo acabou incorporado, Espinho e Santa Margarida foram breves passagens para vinte e oito meses de Moçambique. E, mal lá chegou, o prenúncio de fatalidade: camaradas de armas conseguiram resgatá-lo, nos segundos derradeiros, ao aperto de um cinto que o pendurava ao tecto da caserna...
A irmã não consegue precisar no tempo esta primeira tentativa de suicídio conhecida, se antes ou depois de um acontecimento que viria a determinar o desenlace da história: uma "brincadeira" infeliz entre militares, que acabou com Manuel agredido a pontapé nos testículos.
A gravidade da lesão obrigou a uma intervenção cirúrgica, em Moçambique, e tudo parecia ter voltado à normalidade. Manuel cumpriu até ao último dia marcado a comissão ultramarina e só depois voltou para a sua margem do Douro. Mas já nada era como dantes. O homem que "tinha ido inteiro para a guerra" não regressara, conta-me um tio do ex-combatente. A impotência sexual, provavelmente provocada pela agressão imbecil, vinha marcar irremediavelmente a existência deste jovem.
"Já não sou um homem", costumava lastimar-se Manuel, que - recorda a irmã - "perdeu o gosto de viver" e tornou-se agressivo, violento, "um bichinho autêntico".
(Continua)
P.S. - Escrevi em 1992 este exclusivo para a revista Grande Reportagem, então dirigida por Miguel Sousa Tavares. Foi, se não me engano, o primeiro trabalho jornalístico publicado em Portugal sobre o nosso stress de guerra. Vejo no DN que finalmente o País parece querer fazer alguma coisa...
Os nomes dos ex-combatentes são, aqui no Tarrenego!, fictícios.
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