sábado, 4 de maio de 2019

Vange Leonel 3

Noite preta

Luzes da cidade
Meus olhos não aguentam mais
Luzes artificiais
E cadê a noite preta?
Eu saio da cidade
Procuro só a escuridão
A purificação na calada da noite
Da noite preta

 
Calada noite preta, noite preta
Calada noite preta, noite preta
Calada noite preta!

 
Fecho os meus olhos
A caverna e o coração
Perdidos entre um sim e um não
Na calada da noite preta
Deus, Deus, Deus
Aonde eu vim parar
À noite preta vou me entregar


Vange Leonel 

(Vange Leonel nasceu no dia 4 de Maio de 1963. Morreu em 2014.)

Verde que te quero verde

Foto Hernâni Von Doellinger

Reuniões extraordinárias

Foram reuniões verdadeiramente extraordinárias. Maravilhosas. Tremendas. Iglantónicas...

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Os apaixonantes, da tuba ao toque de caixa

Foto Hernâni Von Doellinger

Encostados ao coreto, de mão em concha na orelha, seguem a música com gestos semibreves de deleite e aprovação, procurando com um sorriso de conhecedor e olhos piscos a cumplicidade do povo todo ali à roda. E pedem chiu!, semiconfusos e comovidos até às lágrimas, à espera dos ribombos do grand finale, para então se desfazerem em aplausos. Eles estão a ouvir a melhor banda do mundo, a sua banda, e pouco importa que, na verdade, até nem tenham bom ouvido. Não precisam dos ouvidos sequer. Eles ouvem a música com o coração. Eles são os apaixonantes.
Regra geral, são homens, reformados e musicalmente analfabetos. Mas também são sábios, quando conseguem reduzir a sublime arte que tanto os apaixona à sua simplicidade essencial. "Perceber de música é gostar do que se ouve", dizem. Eles, sim, são os verdadeiros filarmónicos, fazendo jus à explicação da origem grega da palavra: phílos = amigo + harmonikós = de harmonia. Exactamente: eles são os amigos da música.
Eles vão ouvir os ensaios, da parte de fora, por respeito. Trazem na carteira o calendário dos concertos. Seguem a banda para todo o lado, se possível de boleia na camioneta que transporta o material e os músicos. É verdade, como eles apreciam a proximidade e o convívio com os seus artistas! Oferecem mais um copo a troco de dois dedos de paleio, discutindo clarinetes e bombardinos, marchas e fantasias, com demonstrativos e desafinados terululi-fá-dó-mi-rol-fé-poropopó-trró-pum! pelo meio. Pedem "mais peso", querem "peças pesadas" para afogar sem misericórdia a banda do outro coreto no emocionante despique que apenas intervala. Entusiasmados, metem na conversa o Tchaikovsky e o Giménez, num tu cá, tu lá mais próprio de quem evoca uma famosa dupla de defesas centrais. Se eles sabem do que falam? Talvez não. E isso interessa?
Na terra onde eu nasci há duas bandas de música. E dois grupos rivais de apaixonantes. Qualquer observador independente dirá que, objectivamente, uma banda é melhor do que a outra. Mas isso aqui também não interessa para nada. Para os apaixonantes, a qualidade absoluta é um valor irrelevante. A nossa banda é que é sempre a melhor. O ouvido dos apaixonantes, para além de geralmente duro, é um ouvido selectivo, faccioso: surdo às fífias da casa e inventor de desafinações na concorrência. "Estão fraquinhos este ano"...
Portugal deve ser o único país do mundo que tem apaixonantes. E os apaixonantes são uma raça em vias de extinção. Alguns dos poucos sobreviventes podem ainda ser vistos numa festa ou romaria perto de si, em grupos de dois ou três, encostados ao coreto, de mão em concha na orelha. Se por caso os vir, respeite-os, mime-os, ajude à preservação da espécie.
Porque os apaixonantes e as bandas de música são como aqueles casais antigos, em que um não vive sem o outro. Ela morre e ele vai logo atrás. Ele morre e ela vai logo atrás. No dia em que desaparecer o último apaixonante, as filarmónicas também não ficam cá por muito mais tempo...

P.S. - Texto escrito e publicado originalmente no dia 2 de Setembro de 2011, sob o título "Os apaixonantes". A correlação de forças entre as duas bandas fafenses já não será, porventura, a que era, mas isso não importa para aqui. Passa-se é que hoje, por ser a primeira sexta-feira de Maio, é Dia Internacional da Tuba. E portanto fon, fon, fon!

Ou... oupa!

Foto Hernâni Von Doellinger

Microcontos & outras miudezas 138

A Carmo e o Trindade
Caíram a Carmo e o Trindade. Outra vez. Até faziam um casal pândego, mas o vinho punha-os sem conserto...

Quem dá o pão...
Amadeu, amatirou. Pois é: quem dá o pão, também dá a criação.

Sexto sentido
Ele tinha um sexto sentido extremamente apurado. Mas não sabia.

Sétima arte
Fitas & Morais, Ld.ª, há 35 anos no ramo da distribuição cinematográfica. Exactamente.

E assim sucessivamente
A primeira vez, o segundo galarza, o terceiro homem, o quarto poder, a quinta dimensão, o sexto sentido, o sétimo céu, a oitava maravilha, a nona sinfonia, o décimo mandamento, o décimo primeiro alien, o décimo segundo jogador, o décimo terceiro mês, a décima quarta temporada, a décima quinta edição, o décimo sexto colosso, o décimo sétimo andar, a décima oitava emenda, o décimo nono arcano, o vigésimo da lotaria, o vigésimo primeiro batalhão, o vigésimo segundo aminoácido, o vigésimo terceiro álbum, a vigésima quarta hora, e assim sucessivamente. 

Motoristas de matérias perigosas, há-os
Condutores de autocarros das viagens de finalistas a Espanha e das claques de futebol em Portugal aderem à greve dos motoristas de matérias perigosas e exigem do Governo o reconhecimento da categoria profissional e salários mais dignos, pelo menos compatíveis com a responsabilidade que lhes cai em cima e o risco de vida que correm sobretudo aos fins-de-semana e antes que cheguem as eleições.

Última hora: Os condutores de tractores agrícolas ponderam entrar na luta.

O senão do Aristeu
- Ó mor, já posso chamar-te Arismeu?...

Vida de cão 438

Foto Hernâni Von Doellinger