sexta-feira, 3 de maio de 2019
Reuniões ordinárias
O pior das reuniões ordinárias são os palavrões, a maledicência, a má-criação...
quinta-feira, 2 de maio de 2019
Fui a Fafe e perdi a mondinense
Há muitas maneiras de o dizer, deste e do outro lado do mar: beber,
alcoolizar-se, emborrachar-se, embriagar-se, inebriar-se, tachar, tomar,
encharcar, chumbar-se, avinhar-se, enfrascar-se, ficar de pileque,
alto, grosso, mamado, tomar um porre, praticar desporto líquido, molhar os pés,
ficar como um escalo, como uma nabo, como um cacho, como um avião, ficar
doente, indisposto, apanhar uma ramada, uma piela, uma perua, uma
bebedeira, uma carraspana, uma borracheira, uma cardina, um pifo, uma tosga, uma
touca. Mas: perder a mondinense, suponho que só em Fafe se dirá. Ou
dizia. Perder a mondinense.
A Mondinense disputava então com a João Carlos Soares o negócio do transporte rodoviário colectivo de passageiros entre Porto e Fafe e vice-versa. Eu era passageiro. Os asmáticos autocarros da Mondinense, que, se não me engano, faziam a viagem pela serra da Agrela, via Santo Tirso, numa espécie de breve apresentação turística à Rota da Prostituição de Baixa Montanha, tinham escritório numa obscura garagem à beira do desabamento e tresandando explosivamente a mijo, vomitado, fumo e gasóleo, ali para os lados do portuense Jardim de São Lázaro. A Mondinense era isso. E a João Carlos Soares é Arriva.
A explicação da expressão nossa? Quer-se dizer: bebia-se e perdia-se a memória e esqueciam-se as horas. Esqueciam-se as horas e bebia-se e perdia-se a memória. Perdia-se a memória e esqueciam-se as horas e bebia-se. E assim se perdia a mondinense.
P.S. - O textinho acima escrevi-o e publiquei-o no dia 10 de Fevereiro de 2019. Acontece que entretanto fui a Fafe. Fui a Fafe dar um beijo à minha mãe, e perdi a mondinense. Perdi-a de felicidade, com os meus, que é o melhor que se pode ter. E ainda por cima, digo-o em legítima defesa, há anos que abandonei a modalidade e por isso não vou aos treinos. Fui a Fafe. E é raro agora ir a Fafe ou sequer à rua, por causa de vários porcausas. Estava tão feliz, que fiquei contente - no belo eufemismo familiar que usamos para o assunto em apreço. Perdi a mondinense mas cheguei a casa são e salvo. O meu querido filho, coitadinho, que, não desfazendo, é como se fosse meu filho, levou-me e trouxe-me na prise, com a bonomia e a paciência dos bons, dos puros. Foi exactamente há uma semana, estou a recuperar muito bem e, mais mês menos mês, agarrem-me pronto para outra...
A Mondinense disputava então com a João Carlos Soares o negócio do transporte rodoviário colectivo de passageiros entre Porto e Fafe e vice-versa. Eu era passageiro. Os asmáticos autocarros da Mondinense, que, se não me engano, faziam a viagem pela serra da Agrela, via Santo Tirso, numa espécie de breve apresentação turística à Rota da Prostituição de Baixa Montanha, tinham escritório numa obscura garagem à beira do desabamento e tresandando explosivamente a mijo, vomitado, fumo e gasóleo, ali para os lados do portuense Jardim de São Lázaro. A Mondinense era isso. E a João Carlos Soares é Arriva.
A explicação da expressão nossa? Quer-se dizer: bebia-se e perdia-se a memória e esqueciam-se as horas. Esqueciam-se as horas e bebia-se e perdia-se a memória. Perdia-se a memória e esqueciam-se as horas e bebia-se. E assim se perdia a mondinense.
P.S. - O textinho acima escrevi-o e publiquei-o no dia 10 de Fevereiro de 2019. Acontece que entretanto fui a Fafe. Fui a Fafe dar um beijo à minha mãe, e perdi a mondinense. Perdi-a de felicidade, com os meus, que é o melhor que se pode ter. E ainda por cima, digo-o em legítima defesa, há anos que abandonei a modalidade e por isso não vou aos treinos. Fui a Fafe. E é raro agora ir a Fafe ou sequer à rua, por causa de vários porcausas. Estava tão feliz, que fiquei contente - no belo eufemismo familiar que usamos para o assunto em apreço. Perdi a mondinense mas cheguei a casa são e salvo. O meu querido filho, coitadinho, que, não desfazendo, é como se fosse meu filho, levou-me e trouxe-me na prise, com a bonomia e a paciência dos bons, dos puros. Foi exactamente há uma semana, estou a recuperar muito bem e, mais mês menos mês, agarrem-me pronto para outra...
Dúvida razoável
O meu telemóvel, que é esperto, diz-me que está a chover. A minha janela, que é burra como uma porta, diz-me que não. Em quem devo acreditar?
Daniel Lima 3
Ao nasceres, tinhas o prefigurado rosto
que hoje terias se houvesses sido tu mesmo
no tempo singular de tua vida.
Mas viveste o relógio, não teu tempo
e agora vê teu rosto:
o que dele te resta é a desfigurada
sombra do primeiro rosto
que não soubeste ter,
nem mereceste.
"Poemas", Daniel Lima
(Daniel Lima nasceu no dia 2 de Maio de 1916. Morreu em 2012.)
que hoje terias se houvesses sido tu mesmo
no tempo singular de tua vida.
Mas viveste o relógio, não teu tempo
e agora vê teu rosto:
o que dele te resta é a desfigurada
sombra do primeiro rosto
que não soubeste ter,
nem mereceste.
"Poemas", Daniel Lima
(Daniel Lima nasceu no dia 2 de Maio de 1916. Morreu em 2012.)
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