sexta-feira, 20 de abril de 2018

Rosa Lobato de Faria 6

Conheço esse sentimento 

Conheço esse sentimento
que é como a cerejeira
quando está carregada de frutos:
excessivo peso para os ramos da alma.


Conheço esse sentimento
que é o da orla da praia
lambida pela espuma da maré:
quando o mar se retira
as conchas são pequenas saudades
que doem no coração da areia.


Conheço esse sentimento
que é o dos cabelos do salgueiro
revoltos pelas mãos ágeis da tempestade:
na hora quieta do amanhecer
pendem-lhe tristemente os braços
vazios do amado corpo do vento.


Conheço esse sentimento
que passa nos teus olhos e nos meus
quando de mãos dadas
ouvimos o Requiem de Mozart
ou visitamos a nave de Alcobaça.


Pedro e Inês
a praia e a maré
o salgueiro e o vento
a verdade e o sonho
o amor e a morte
o pó das cerejeiras
tu.
e eu.

"Dispersos", Rosa Lobato de Faria

(Rosa Lobato de Faria nasceu no dia 20 de Abril de 1932. Morreu em 2010.)

Mariscando 5

Foto Hernâni Von Doellinger

Augusto dos Anjos 5

Versos de amor

Parece muito doce aquela cana.
Descasco-a, provo-a, chupo-a... ilusão treda!
O amor, poeta, é como a cana azeda,
A toda a boca que o não prova engana.

Quis saber que era o amor, por experiência,
E hoje que, enfim, conheço o seu conteúdo,
Pudera eu ter, eu que idolatro o estudo,
Todas as ciências menos esta ciência!

Certo, este o amor não é que, em ânsias, amo
Mas certo, o egoísta amor este é que acinte
Amas, oposto a mim. Por conseguinte
Chamas amor aquilo que eu não chamo.

Oposto ideal ao meu ideal conservas.
Diverso é, pois, o ponto outro de vista
Consoante o qual, observo o amor, do egoísta
Modo de ver, consoante o qual, o observas.

Porque o amor, tal como eu o estou amando,
É espírito, é éter, é substância fluida,
É assim como o ar que a gente pega e cuida,
Cuida, entretanto, não o estar pegando!

É a transubstanciação de instintos rudes,
Imponderabilíssima e impalpável,
Que anda acima da carne miserável
Como anda a garça acima dos açudes!

Para reproduzir tal sentimento
Daqui por diante, atenta a orelha cauta,
Como Marsias - o inventor da flauta -
Vou inventar também outro instrumento!

Mas de tal arte e espécie tal fazê-lo
Ambiciono, que o idioma em que te eu falo
Possam todas as línguas decliná-lo
Possam todos os homens compreendê-lo!

Para que, enfim, chegando à última calma
Meu podre coração roto não role,
Integralmente desfibrado e mole,
Como um saco vazio dentro d’alma!

"Eu e Outras Poesias", Augusto dos Anjos

(Augusto dos Anjos nasceu no dia 20 de Abril de 1884. Morreu em 1914.)

Vida de cão 330

Foto Hernâni Von Doellinger

Nunes Claro 2

Colaborou comigo a Primavera,
Em tudo quanto há tempos te escrevia,
E são da rosa, do lilás, da hera,
Muitos dos versos que te dei um dia.


No meio de uma rima mais severa,
Mais intensa, ou mais cheia de harmonia,
Eu, quantas vezes, me fiquei à espera,
A ver como é que o Sol a acabaria?


As imagens mais altas e formosas
São dele, e são dos lírios mais das rosas,
Da luz da hora toda, em que te vi;


De modo que este amor lindo e distante
Foi o Sol, que te amou por um instante,

O mês de Maio que gostou de ti.

Nunes Claro 

(Nunes Claro nasceu no dia 20 de Abril de 1878. Morreu em 1949.)  

Gaivotando

Foto Hernâni Von Doellinger