| Foto Hernâni Von Doellinger |
quarta-feira, 26 de abril de 2017
Caetano da Costa Alegre
Visão
Vi-te passar, longe de mim, distante,
Vi-te passar, longe de mim, distante,
como uma estátua de ébano ambulante.
Ias de luto, doce, tutinegra,
e o teu aspecto pesaroso e triste
prendeu minha alma, sedutora negra.
Depois, cativa de invisível laço,
(o teu encanto, a que ninguém resiste)
foi-te seguindo o pequenino passo
até que o vulto gracioso e lindo
desapareceu, longe de mim, distante,
como uma estátua de ébano ambulante.
Caetano da Costa Alegre
(Caetano da Costa Alegre nasceu no dia 26 de Abril de 1864. Morreu em 1890.)
Ias de luto, doce, tutinegra,
e o teu aspecto pesaroso e triste
prendeu minha alma, sedutora negra.
Depois, cativa de invisível laço,
(o teu encanto, a que ninguém resiste)
foi-te seguindo o pequenino passo
até que o vulto gracioso e lindo
desapareceu, longe de mim, distante,
como uma estátua de ébano ambulante.
Caetano da Costa Alegre
(Caetano da Costa Alegre nasceu no dia 26 de Abril de 1864. Morreu em 1890.)
terça-feira, 25 de abril de 2017
Feridas de guerra 8
![]() |
| Foto do arquivo pessoal do ex |
Manuel Teixeira, 42 anos, suicidou-se. João Silva, 41 anos, aguarda julgamento por homicídio. José Rodrigues, 45 anos, faz terapia de grupo. António Pereira, 51 anos, vive obcecado pelas "injustiças" e já pensou matar ou matar-se - convive desde 1963 com psiquiatras e tranquilizantes. Manuel, João, José e António têm em comum a Guerra Colonial e o medo dos seus medos. São casos à mostra dos cerca de 140 mil ex-combatentes portugueses atingidos pelo stress de guerra, essa doença camuflada numa espécie de clandestinidade.
Seis tentativas de suicído: a sétima foi fatal. A ideia do suicídio passou a ser natural, e era com naturalidade que Manuel falava de matar-se. Tentou cinco vezes com sobredoses de comprimidos e uma com "remédio" de escaravelho, antes da definitiva. Seguiam-se, cíclicas, as desintoxicações no Hospital de São João e os internamentos no Conde Ferreira.
Tão grave era a situação que, caso singular, deu-lhe direito a pensão por incapacidade - o que, nos últimos quatro anos, viria a agravar a confusão no espírito de Manuel Teixeira. A cisma agora eram os sessenta e sete contos e setencentos escudos com que a Nação de desobrigava mensalmente pelo mal que lhe fizera. Manuel achava que a tença era "um roubo ao Estado". Aflito, temia pela chegada da GNR para o levar preso "por receber uma reforma que de certeza não era para ele"...
A 2 de Maio de 1990 terminou com tudo. Ingeriu o conteúdo de uma embalagem de "remédio" de escaravelho, lançou fora o recipiente e deitou-se calmente, como tantas vezes tinha avisado, à espera da morte. Que veio. No guarda-fatos o ex-combatente escondia mais quatro embalagens de veneno, pelo sim e pelo não...
Outras vezes a violência chama-se homicído. Poderá ser o caso de João Silva, ex-comando de 41 anos, que em Campanhã, Porto, na madrugada de 8 de Setembro de 1991, resolveu a tiro de pistola o seu diferendo com a vida, matando, num acerto de contas, um indivíduo de 42 anos.
João entregou-se à Polícia e confessou o crime. Está na cadeia de Custóias, aguardando julgamento. Diz quem o conhece que também ele deixou muito mais na guerra do que a perna que lá perdeu e que lhe garante o direito a pensão. E afirmam os estudiosos que os feridos na alma, convivas naturais de armas, sangue e morte, guardam causas para reacções extremas fora do entendimento comum.
(Continua)
P.S. - Escrevi em 1992 este exclusivo para a revista Grande Reportagem, então dirigida por Miguel Sousa Tavares. Foi, se não me engano, o primeiro trabalho jornalístico publicado em Portugal sobre o nosso stress de guerra. Vejo no DN que finalmente o País parece querer fazer alguma coisa...
Os nomes dos ex-combatentes são, aqui no Tarrenego!, fictícios.
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João Cardoso de Meneses e Sousa
A uns olhos
O que no azul fulgura
Cruzeiro sideral,
A luz, que pouco dura,
Da estrela matinal,
Os raios, com que esplende
O disco áureo do sol,
Se d'alva após, acende
Na esfera o seu farol.
O brilho, que irradia
Nas amplidões do céu,
Quer nele impere o dia,
Quer abra a noite o véu,
Quanto, a luzir, cintila,
Imerge na penumbra,
Se vibras da pupila
Clarão, que nos deslumbra.
Tu da mulher primeira
Herdaste a luz divina,
Que virginal, inteira,
Conservas na retina.
João Cardoso de Meneses e Sousa
(João Cardoso de Meneses e Sousa nasceu no dia 25 de Abril de 1827. Morreu em 1915.)
O que no azul fulgura
Cruzeiro sideral,
A luz, que pouco dura,
Da estrela matinal,
Os raios, com que esplende
O disco áureo do sol,
Se d'alva após, acende
Na esfera o seu farol.
O brilho, que irradia
Nas amplidões do céu,
Quer nele impere o dia,
Quer abra a noite o véu,
Quanto, a luzir, cintila,
Imerge na penumbra,
Se vibras da pupila
Clarão, que nos deslumbra.
Tu da mulher primeira
Herdaste a luz divina,
Que virginal, inteira,
Conservas na retina.
João Cardoso de Meneses e Sousa
(João Cardoso de Meneses e Sousa nasceu no dia 25 de Abril de 1827. Morreu em 1915.)
Paulo Vanzolini
Quem me viu e quem me vê
Quem me viu e quem me vê
há de dizê certamente
que hoje me vê diferente.
Se essa vida é mesmo um circo,
paiaço dela sô eu.
Destino se riu de mim,
me deu muler que eu não quero,
muler que eu quero num deu.
Uma, coitada, me adora.
Se eu passo e num ligo, chora.
Sempre eu passo, nunca eu ligo.
A outra, veja você,
destino brinco comigo,
nem finge que não me vê,
si ri pra mim tudo dia,
não sorriso de bondade,
nem de amor nem de amizade,
de maldade e de ironia.
Quem me viu e quem me vê
hoje me vê deferente.
Onde eu to tem tempo quente,
tem tiro, tem punhalada,
tem sangue, tem entrevero.
Diz que eu não sô bom de gênio,
dissesse que é desespero.
Quem conhece um pouco a vida
Vê meu destino traçado:
vô acabá de madrugada
espichado numa carçada,
morrendo de morte matada.
E nesse dia de sangue
essa muler que eu não gosto,
me vendo morto se mata.
E essa que gosto, essa ingrata,
não há de chorar por mim,
só há de dizer assim,
com seu jeito de princesa:
- Era nego muito salafra,
morrendo até foi limpeza...
Paulo Vanzolini
(Paulo Vanzolini nasceu no dia 25 de Abril de 1924. Morreu em 2013.)
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