Matosinhos à tarde. Sol que era um consolo. O casal descia a rua, a minha, em direcção ao mar, puxado pela trela do pequeno cocker. Eis senão quando, porventura desarranjado pelo strogonoff de vitela e leite-creme do almoço, o aflito canídeo arriou as calças e cagou ali mesmo em pleno passeio, com evidente alívio pessoal e grande satisfação dos babados papás. Acabada a obra, a madama, higiene e civismo acima de tudo, foi à carteira e retirou um lenço de papel de um branco imaculado, abriu-o, ao lenço casto, e voltou a dobrá-lo, liturgicamente, agora apenas em dois, baixou-se, quase que me pareceu que se benzia, e... limpou o cu ao cão. Depois amarrotou o papel e lançou-o para junto do saralhoto. No meio do passeio. Do meu. E lá seguiram os três para o mar e para o sol, dois deles puxados pela trela.
A autarquia agradece. Faz colecção. No brasão de Lisboa figuram corvos, no de Matosinhos deveriam desenhar saralhotos.
(Texto escrito e publicado mais ou menos assim, com este mesmo título, no dia 30 de Outubro de 2011. Há bocado vi outra vez e portanto. Matosinhos, para além das muitas outras coisas muito boas, é isto: não há passeios que cheguem para tanta merda de cão. E não é só Matosinhos, embora Matosinhos abuse. E a culpa não é do cão.)
terça-feira, 3 de maio de 2016
Era um homem muito antigo 5
Era um homem muito antigo e vivia agarrado a coisas que já não se usam. Vejam lá que ainda andava de relógio só para saber as horas...
Frei Agostinho da Cruz 3
Da oração
Doce quietação de quem vos ama,
Em serviços, Senhor, que tanto quanto
Amado sois, tão longe o fim de tanto,
Subindo mais, e mais, mais se derrama:
Ardendo por arder em viva chama
De amor do vosso amor, a voz levanto;
Sinto, suspiro, choro, colho, e planto
Ao som doutra suave que me chama.
Onde se vai, Senhor, quem vos ofende?
Donde levais, Deus meu, a quem vos segue?
Onde fugir se pode uma de duas?
Morto por quem o mata que pretende,
Ou que extremos de amor há que nos negue
Quem culpas nossas chama ofensas suas?
Frei Agostinho da Cruz
(Frei Agostinho da Cruz nasceu no dia 3 de Maio de 1540. Morreu em 1619.)
Doce quietação de quem vos ama,
Em serviços, Senhor, que tanto quanto
Amado sois, tão longe o fim de tanto,
Subindo mais, e mais, mais se derrama:
Ardendo por arder em viva chama
De amor do vosso amor, a voz levanto;
Sinto, suspiro, choro, colho, e planto
Ao som doutra suave que me chama.
Onde se vai, Senhor, quem vos ofende?
Donde levais, Deus meu, a quem vos segue?
Onde fugir se pode uma de duas?
Morto por quem o mata que pretende,
Ou que extremos de amor há que nos negue
Quem culpas nossas chama ofensas suas?
Frei Agostinho da Cruz
(Frei Agostinho da Cruz nasceu no dia 3 de Maio de 1540. Morreu em 1619.)
segunda-feira, 2 de maio de 2016
O homem de ferro e mais oito
O problema do homem de ferro era o sexo. Não ia lá sem lubrificação.
O homem-aranha
O homem-aranha morreu. Vítima de uma teia de interesses, é o que consta.
O homem-sanduíche
O homem-sanduíche chegou a casa mais uma vez sem dinheiro. E finalmente deu-se de comer aos filhos esqueléticos e esfomeados.
O homem-bala
Cabisbaixo e de mala na mão, o homem-bala apresentou-se logo de manhãzinha na rulote da gerência. Ia-se embora, para casa. Tinha descoberto durante a noite que era objector de consciência.
O homem-estátua
Porto, Setembro de 2015. Ao fim de 35 anos de inabalável serviço na ex-libríssima Avenida dos Aliados, o homem-estátua chamou o fiscal da Câmara num pst! muito bem disfarçado. "Ó colega, isto aqui já não dá nada. Vou-me embora, provavelmente para Moçambique e levo um guarda-sol. Lembras-te do Relvas? Sabias que sempre que os portugueses emigram têm uma visão universalista que lhes traz sucesso?", disse o homem-estátua ao fiscal camarário, por entre dentes e sem perder a pose. Era efectivamente um homem-estátua muito profissional e filósofo. "Além disso, estou farto de que me caguem em cima", acrescentou, descendo finalmente do banco de cozinha e arrumando os tarecos em dois sacos plásticos do Pingo Doce do tempo em que os sacos plásticos eram de borla. "As pombas?", perguntou o fiscal da Câmara, que era um bocado lento. "Os pombos, Pedro e o Paulo", respondeu o homem-estátua.
O homem-crocodilo
Despedido pela Lacoste, o homem-crocodilo fez-se à vida e foi com a mulher vender nas feiras. Mas bastante contrafeito.
O homem-tocha
O homem-tocha mudou de residência. Chamam-lhe agora homem-mealhada.
O homem-máquina
O homem-máquina gripou. Foi ao centro de saúde. Mandaram-no para a oficina. Obviamente.
O homem-rã
O homem-rã apareceu à tona em câmara lenta e saiu do lago com toda a calma, perante o evidente embaraço do casal de cisnes que porteira o condomínio. Vestia um blusão de cabedal que dizia nas costas batalhão de sapadores bombeiros, bsb, passou por um bando de turistas japoneses acabadíssimos de descarregar, sorriu para os flashes e continuou naquele andar cómico até ao bar do parque da cidade. Entrou no bar, saltou para cima de um banco, depois saltou para cima do balcão e mandou vir, com uma nota de cinco na mãozinha verde: - Coach!, coach!
O homem-aranha
O homem-aranha morreu. Vítima de uma teia de interesses, é o que consta.
O homem-sanduíche
O homem-sanduíche chegou a casa mais uma vez sem dinheiro. E finalmente deu-se de comer aos filhos esqueléticos e esfomeados.
O homem-bala
Cabisbaixo e de mala na mão, o homem-bala apresentou-se logo de manhãzinha na rulote da gerência. Ia-se embora, para casa. Tinha descoberto durante a noite que era objector de consciência.
O homem-estátua
Porto, Setembro de 2015. Ao fim de 35 anos de inabalável serviço na ex-libríssima Avenida dos Aliados, o homem-estátua chamou o fiscal da Câmara num pst! muito bem disfarçado. "Ó colega, isto aqui já não dá nada. Vou-me embora, provavelmente para Moçambique e levo um guarda-sol. Lembras-te do Relvas? Sabias que sempre que os portugueses emigram têm uma visão universalista que lhes traz sucesso?", disse o homem-estátua ao fiscal camarário, por entre dentes e sem perder a pose. Era efectivamente um homem-estátua muito profissional e filósofo. "Além disso, estou farto de que me caguem em cima", acrescentou, descendo finalmente do banco de cozinha e arrumando os tarecos em dois sacos plásticos do Pingo Doce do tempo em que os sacos plásticos eram de borla. "As pombas?", perguntou o fiscal da Câmara, que era um bocado lento. "Os pombos, Pedro e o Paulo", respondeu o homem-estátua.
O homem-crocodilo
Despedido pela Lacoste, o homem-crocodilo fez-se à vida e foi com a mulher vender nas feiras. Mas bastante contrafeito.
O homem-tocha
O homem-tocha mudou de residência. Chamam-lhe agora homem-mealhada.
O homem-máquina
O homem-máquina gripou. Foi ao centro de saúde. Mandaram-no para a oficina. Obviamente.
O homem-rã
O homem-rã apareceu à tona em câmara lenta e saiu do lago com toda a calma, perante o evidente embaraço do casal de cisnes que porteira o condomínio. Vestia um blusão de cabedal que dizia nas costas batalhão de sapadores bombeiros, bsb, passou por um bando de turistas japoneses acabadíssimos de descarregar, sorriu para os flashes e continuou naquele andar cómico até ao bar do parque da cidade. Entrou no bar, saltou para cima de um banco, depois saltou para cima do balcão e mandou vir, com uma nota de cinco na mãozinha verde: - Coach!, coach!
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