| Foto Hernâni Von Doellinger |
sexta-feira, 18 de março de 2016
Fectivamente escuto as conversas
- Vamos lá ver: quando você diz ralmente, o que é que realmente quer dizer?
- Ralmente.
- Quê?
- Quero dizer ralmente, o que é que havia de ser? Ralmente...
- Se bem percebo: quando diz ralmente, quer dizer realmente?
- Zatamente.
- Portanto: quando diz zatamente, quer dizer exactamente?
- Tomaticamente.
- Já sei: e quando diz tomaticamente, quer dizer automaticamente, não é?
- Fectivamente.
- Ralmente.
- Quê?
- Quero dizer ralmente, o que é que havia de ser? Ralmente...
- Se bem percebo: quando diz ralmente, quer dizer realmente?
- Zatamente.
- Portanto: quando diz zatamente, quer dizer exactamente?
- Tomaticamente.
- Já sei: e quando diz tomaticamente, quer dizer automaticamente, não é?
- Fectivamente.
Augusto Abelaira 3
A tua boa acção diária... E respondo ao Justino Soares que se vá embora descansado, que estou quase a acabar a crónica sobre política internacional (uns pozinhos do Monde, outros do Nouvel Observateur, deste, daquele), mas puxando a coisa bem mais para a esquerda, por descargo de consciência, aliás inútil, dado que a censura se encarregará de tosquiar esse "para a esquerda", um "para a esquerda" difícil, de resto: o conflito sino-soviético, como poderíamos imaginar possível, há vinte anos, um conflito assim entre irmãos - mas que mundo é este em que somos obrigados a julgar as coisas nas bases postas pelos outros e não por nós, a aceitar dilemas que talvez sejam simplesmente problemas mal postos? Pois, que não se preocupe, eu trato da necrologia. "Pá - tinha-me ele dito -, combinei um encontro com uma gaja bestial e já estou atrasado..." Sim, a minha boa acção diária para que no exame de consciência, que aliás não farei logo à noite (falta-me o tempo!), possa sentir-me de bem comigo próprio, possa dizer-me que não sou um puro egoísta - muito antes pelo contrário, sou capaz de sacrifícios (quais?) pelos outros: adio, neste caso, por quinze minutos (e quinze minutos, a brincar a brincar, são um nonagésimo sexto do dia), a minha saída deste antro detestado - mas como aproveitaria eu esses quinze minutos se não tenho como tu, Justino Soares, uma gaja bestial à minha espera (que nem estará à tua espera, pois acabará certamente por chegar ainda mais atrasada do que tu)? E, ao mesmo tempo que nas paredes brancas das casas do outro lado da rua a luz do Sol me obriga a desviar os olhos da janela, pergunto-me se tu, mulher que vais chegar atrasada, saberás que ele te trata por gaja, pergunto-me como te falará ele, como falarás tu - se nesse encontro não porão vocês um pouco de sonho, de palavras grandiloquentemente romanescas, a ilusão de que estão a viver um momento único, jamais vivido sobre a Terra, inesquecível, um momento que irá prolongar-se por muitos anos, que fará do mundo, de todas as coisas, uma doçura verde de erva molhada (sim, uma doçura verde de erva molhada) ou se terão somente a lúcida consciência de colherem da vida o resíduo mais imediato e provisório - resíduo sem memória futura, tão identificado com o presente que até já passou.
"O Arquimortes", Augusto Abelaira
(Augusto Abelaira nasceu no dia 18 de Março de 1926. Morreu em 2003.)
Ronaldo Cunha Lima
Poema do desencontro
Era segunda, imaginei domingo.
Era de noite, imaginei manhã.
Chovia muito e eu imaginava sol.
As pessoas se comprimiam e eu não via nada.
Havia multidão, eu me sentia só.
Você não estava, mas eu a fiz presente.
Você chegava sem saber se estava.
Você falou sem saber o que disse
e disse coisas sem dizer palavras...
Você estava perto sem saber se estava.
E até me beijou sem se sentir beijada
Era segunda, mas imaginei domingo.
Chegou o sol e se fez manhã,
chegou o dia e se fez domingo.
Houve palavras, mas não eram suas.
Houve presença, mas sem ser você.
Houve multidão e agitação profunda...
Então era manhã, mas eu quis a noite.
Fazia sol e eu queria chuva.
Era domingo e desejei segunda.
Ronaldo Cunha Lima
(Ronaldo Cunha Lima nasceu no dia 18 de Março de 1936. Morreu em 2012.)
Era segunda, imaginei domingo.
Era de noite, imaginei manhã.
Chovia muito e eu imaginava sol.
As pessoas se comprimiam e eu não via nada.
Havia multidão, eu me sentia só.
Você não estava, mas eu a fiz presente.
Você chegava sem saber se estava.
Você falou sem saber o que disse
e disse coisas sem dizer palavras...
Você estava perto sem saber se estava.
E até me beijou sem se sentir beijada
Era segunda, mas imaginei domingo.
Chegou o sol e se fez manhã,
chegou o dia e se fez domingo.
Houve palavras, mas não eram suas.
Houve presença, mas sem ser você.
Houve multidão e agitação profunda...
Então era manhã, mas eu quis a noite.
Fazia sol e eu queria chuva.
Era domingo e desejei segunda.
Ronaldo Cunha Lima
(Ronaldo Cunha Lima nasceu no dia 18 de Março de 1936. Morreu em 2012.)
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