sexta-feira, 18 de março de 2016

Davides contra Golias

                                                                                                                Foto Hernâni Von Doellinger

Fectivamente escuto as conversas

- Vamos lá ver: quando você diz ralmente, o que é que realmente quer dizer?
- Ralmente.
- Quê?
- Quero dizer ralmente, o que é que havia de ser? Ralmente...
- Se bem percebo: quando diz ralmente, quer dizer realmente?
- Zatamente.
- Portanto: quando diz zatamente, quer dizer exactamente?
- Tomaticamente.
- Já sei: e quando diz tomaticamente, quer dizer automaticamente, não é?
- Fectivamente.

Caminho 73

                                                                                                          Foto Hernâni Von Doellinger

Augusto Abelaira 3

A tua boa acção diária... E respondo ao Justino Soares que se vá embora descansado, que estou quase a acabar a crónica sobre política internacional (uns pozinhos do Monde, outros do Nouvel Observateur, deste, daquele), mas puxando a coisa bem mais para a esquerda, por descargo de consciência, aliás inútil, dado que a censura se encarregará de tosquiar esse "para a esquerda", um "para a esquerda" difícil, de resto: o conflito sino-soviético, como poderíamos imaginar possível, há vinte anos, um conflito assim entre irmãos - mas que mundo é este em que somos obrigados a julgar as coisas nas bases postas pelos outros e não por nós, a aceitar dilemas que talvez sejam simplesmente problemas mal postos? Pois, que não se preocupe, eu trato da necrologia. "Pá - tinha-me ele dito -, combinei um encontro com uma gaja bestial e já estou atrasado..." Sim, a minha boa acção diária para que no exame de consciência, que aliás não farei logo à noite (falta-me o tempo!), possa sentir-me de bem comigo próprio, possa dizer-me que não sou um puro egoísta - muito antes pelo contrário, sou capaz de sacrifícios (quais?) pelos outros: adio, neste caso, por quinze minutos (e quinze minutos, a brincar a brincar, são um nonagésimo sexto do dia), a minha saída deste antro detestado - mas como aproveitaria eu esses quinze minutos se não tenho como tu, Justino Soares, uma gaja bestial à minha espera (que nem estará à tua espera, pois acabará certamente por chegar ainda mais atrasada do que tu)? E, ao mesmo tempo que nas paredes brancas das casas do outro lado da rua a luz do Sol me obriga a desviar os olhos da janela, pergunto-me se tu, mulher que vais chegar atrasada, saberás que ele te trata por gaja, pergunto-me como te falará ele, como falarás tu - se nesse encontro não porão vocês um pouco de sonho, de palavras grandiloquentemente romanescas, a ilusão de que estão a viver um momento único, jamais vivido sobre a Terra, inesquecível, um momento que irá prolongar-se por muitos anos, que fará do mundo, de todas as coisas, uma doçura verde de erva molhada (sim, uma doçura verde de erva molhada) ou se terão somente a lúcida consciência de colherem da vida o resíduo mais imediato e provisório - resíduo sem memória futura, tão identificado com o presente que até já passou.

"O Arquimortes", Augusto Abelaira

(Augusto Abelaira nasceu no dia 18 de Março de 1926. Morreu em 2003.)

Passei o dia ouvindo o que o mar dizia

                                                                                                                                    Foto Hernâni Von Doellinger

Ronaldo Cunha Lima

Poema do desencontro

Era segunda, imaginei domingo.
Era de noite, imaginei manhã.
Chovia muito e eu imaginava sol.
As pessoas se comprimiam e eu não via nada.
Havia multidão, eu me sentia só.

Você não estava, mas eu a fiz presente.
Você chegava sem saber se estava.
Você falou sem saber o que disse
e disse coisas sem dizer palavras...

Você estava perto sem saber se estava.
E até me beijou sem se sentir beijada
Era segunda, mas imaginei domingo.

Chegou o sol e se fez manhã,
chegou o dia e se fez domingo.
Houve palavras, mas não eram suas.
Houve presença, mas sem ser você.
Houve multidão e agitação profunda...

Então era manhã, mas eu quis a noite.
Fazia sol e eu queria chuva.
Era domingo e desejei segunda.


Ronaldo Cunha Lima

(Ronaldo Cunha Lima nasceu no dia 18 de Março de 1936. Morreu em 2012.)

Vida de cão 136

                                                                                                                Foto Hernâni Von Doellinger