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segunda-feira, 17 de agosto de 2020

António Botto 7

Se duvidas que teu corpo
Possa estremecer comigo -
E sentir
O mesmo amplexo carnal,
- desnuda-o inteiramente,
Deixa-o cair nos meus braços,
E não me fales,
Não digas seja o que for,
Porque o silêncio das almas
Dá mais liberdade
às coisas do amor.

Se o que vês no meu olhar
Ainda é pouco
Para te dar a certeza
Deste desejo sentido,
Pede-me a vida,
Leva-me tudo que eu tenha -
Se tanto for necessário
Para ser compreendido.


António Botto 

(António Botto nasceu no dia 17 de Agosto de 1897. Morreu em 1959.)

sábado, 17 de agosto de 2019

António Botto 6

Nunca te foram ao cu
Nem nas perninhas, aposto!
Mas um homem como tu,
Lavadinho, todo nu, gosto!

Sem ter pentelho nenhum
com certeza, não desgosto,
Até gosto!
Mas... gosto mais de fedelhos.

Vou-lhes ao cu
Dou-lhes conselhos,
Enfim... gosto!


António Botto 

(António Botto nasceu no dia 17 de Agosto de 1897. Morreu em 1959.)

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

António Botto 5

Não. Beijemo-nos, apenas,
Nesta agonia da tarde.


Guarda
Para um momento melhor
Teu viril corpo trigueiro.


O meu desejo não arde;
E a convivência contigo
Modificou-me - sou outro...


A névoa da noite cai.

Já mal distingo a cor fulva
Dos teus cabelos - És lindo!


A morte,
devia ser
Uma vaga fantasia!


Dá-me o teu braço: - não ponhas
Esse desmaio na voz.


Sim, beijemo-nos apenas,
Que mais precisamos nós?


"Canções", António Botto 

(António Botto nasceu no dia 17 de Agosto de 1897. Morreu em 1959.)

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

António Botto 4

[Anda, vem]

Anda, vem..., porque te negas,
Carne morena, toda perfume?
Porque te calas,
Porque esmoreces,
Boca vermelha - rosa de lume?

Se a luz do dia
Te cobre de pejo,
Esperemos a noite presos num beijo.

Dá-me o infinito gozo
De contigo adormecer
Devagarinho, sentindo
O aroma e o calor
Da tua carne, meu amor!

E ouve, mancebo alado:
Entrega-te, sê contente!
- Nem todo o prazer
Tem vileza ou tem pecado!

Anda, vem!... Dá-me o teu corpo
Em troca dos meus desejos...
Tenho saudades da vida!
Tenho sede dos teus beijos!


"Canções", António Botto

(António Botto nasceu no dia 17 de Agosto de 1897. Morreu em 1959.)

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

António Botto 3

Ouve, meu anjo 

Ouve, meu anjo:
Se eu beijasse a tua pele?
Se eu beijasse a tua boca
Onde a saliva é mel?

Tentou, severo, afastar-se
Num sorriso desdenhoso;
Mas aí!,
A carne do assasssino
É como a do virtuoso.

Numa atitude elegante,
Misterioso, gentil,
Deu-me o seu corpo doirado
Que eu beijei quase febril.

Na vidraça da janela,
A chuva, leve, tinia...

Ele apertou-me cerrando
Os olhos para sonhar -
E eu lentamente morria
Como um perfume no ar!


"Canções", António Botto

(António Botto nasceu no dia 17 de Agosto de 1897. Morreu em 1959.)

sexta-feira, 18 de março de 2016

Passei o dia ouvindo o que o mar dizia

                                                                                                                                    Foto Hernâni Von Doellinger

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

António Botto 2

Se me deixares, eu digo
O contrário a toda a gente;
E, neste mundo de enganos,
Fala verdade quem mente.
Tu dizes que a minha boca
Já não acorda desejos,
Já não aquece outra boca,
Já não merece os teus beijos;
Mas, tem cuidado comigo,
Não procures ser ausente:
- Se me deixares, eu digo
O contrário a toda a gente.


"Canções", António Botto

(António Botto nasceu no dia 17 de Agosto de 1897. Morreu em 1959.)

domingo, 17 de agosto de 2014

António Botto

Venham ver a maravilha
Do seu corpo juvenil!

 
O sol encharca-o de luz,
E o mar, de rojos, tem rasgos
De luxúria provocante.

 
Avanço. Procuro olhá-lo
Mais de perto... A luz é tanta
Que tudo em volta cintila
Num clarão largo e difuso...

 
Anda nu - saltando e rindo,
E sobre a areia da praia
Parece um astro fulgindo.

 
Procuro olhá-lo; - e os seus olhos,
Amedrontados, recusam
Fixar os meus... - Entristeço...

 
Mas nesse lugar fugidio -
Pude ver a eternidade
Do beijo que eu não mereço...


"Canções", António Botto

(António Botto nasceu no dia 17 de Agosto de 1897. Morreu em 1959.)