quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Viva o rei

de copas, dos copos, das fardas, das limas, do jet-set, das ferramentas, dos queijos, da sardinha assada, das assistências, das meias, do churrasco, das cópias, das bolas de berlim, da montanha, do kuduro, dos frangos, das bifanas, dos livros, do ioió, dos gnomos, dos leitões, do crime, dos sofás, dos filmes, do cachorro quente, do gado, da noite, dos candeeiros, do caracol, da sucata! E viva a república dos bananas!

terça-feira, 4 de outubro de 2011

A flauta das Caldas

As Caldas da Rainha estão em polvorosa com o escândalo do tocador de flauta e seu cão dorminhoco. A polícia já tomou conta do caso e a imprensa local também. A opinião pública divide-se, a Câmara Municipal prepara legislação de emergência e até a troika pode ser chamada a dizer como é que é. Eu só sei como é que foi:
Há três anos que o flautista que dorme num carro e o cão que passa a vida a dormir ganharam poiso na Rua das Montras das Caldas da Rainha. São já figuras típicas da cidade, segundo li. Mas há coisa de um mês, parece que devido à queixa de um comerciante, o homem foi abordado pela PSP, que, no final de todas as diligências tidas por convenientes, o mandou ir à Câmara tirar licença "para estar na via pública a tocar flauta, uma vez que o seu cão tinha as vacinas em dia e pedir dinheiro na rua não exige licença", como muito bem explica o Jornal das Caldas.
E o tocador de flauta lá foi. Só que a autarquia diz que a actividade de pifarista ao ar livre não está regulamentada (logo nas Caldas!) e que, consequentemente, não passa licença nenhuma. Ora cá está a aclamada e nunca desmentida problemática do vazio legal, que dá sempre muito jeito ter à mão.
“Não havendo enquadramento legal para esta situação, a Câmara entende não atribuir qualquer licença, todavia, é nosso entendimento que deverá existir um regulamento de animação de rua, à semelhança do que se passa noutras cidades, e estamos actualmente a estudar essa situação”, justificou o gabinete de imprensa autárquico, citado ainda pelo Jornal das Caldas.
Aqui, porém, como diria Chico Buarque, "a notícia carece de exactidão".
Com efeito, de acordo com a Gazeta das Caldas, outra fonte consultada pelo Tarrenego!, o flautista terá sido informado, na Câmara, de que "provavelmente terá de pagar dois euros por dias para actuar na rua (valor de um metro quadrado)". Será a taxa pela ocupação do espaço que é de todos, até do flautista? Talvez. Mas é mais do que isso, pelo menos tal como o percebeu o músico e o transmitiu ao jornal: "Eu posso tocar flauta, mas para poder receber dinheiro das pessoas tenho que ter a licença". Malabaristas, não? Seja como for, o artista até quer pagar a licença que não há, pelo menos para deixar de ser incomodado, mas entretanto não sabe para que lado se virar.
Ora bem, o que eu digo é: passem lá a licença ao homem, ou então não passem. Cobrem-lhe os dois euros por dia, ou então não cobrem. Mas resolvam-se, deixem-no viver em paz! Tivesse ele poderes parecidos aos do flautista de Hamelin, não para ratos mas para falos, e ainda me queria rir. De certeza que comerciantes, polícia e Câmara das Caldas lhe falariam mais fininho.

Cirúrgico

Mal terminou o curso de medicina, o experiente defesa esquerdo começou logo a fazer faltas cirúrgicas.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Apetecia-me bater-lhes

Deixei passar umas horas, para não dizerem que reagi a quente. Pensei bem no assunto, pesei os prós e os contras, medi os assim assins e os vice versas. Estou calmo e consciente das dramáticas consequências que este meu texto pode vir a provocar a nível nacional e internacional, mas há alturas na vida de um homem em que um homem tem que ser homem, venha quem vier, doa a quem doer e chova o que chover. As polémicas a mim não me assustam, antes pelo contrário. E eu vi. Eu estava lá e vi, com estes dois que hão-se ser cremados. Vi um jovem casal a comer bacalhau assado na brasa com batatas fritas. Batatas fritas, estão a perceber? Batatas fritas! Perante tão dantesco espectáculo, tenho ou não tenho direito à minha dose de indignação? Pois é claro que tenho, muito obrigado.
Fui aí a um sítio que faz o melhor bacalhau assado de Portugal e, portanto, do mundo. É servido com batata cozida (é claro), coberto com cebola e azeitonas e generosamente regado com um azeite e alho tão extraordinário que só apetece dar banho ao pão. Para cumprir todos os meus cânones, falta-lhe o ovo cozido, é certo, mas esta é uma falha que eu relevo com todo o gosto.
Na mesa ao lado, o jovem casal também estava no bacalhau. Acompanhado por cerveja, uma a dividir pelos dois, logo no berço do alvarinho e do trajadura. Eu ia perdendo o apetite! Mas o pior ainda estava para vir. E veio: uma travessa de batatas fritas, porque as cozidas não lhes serviam - ficaram todas - ou então nunca tal tinham visto.
Ainda pensei desculpá-los. "Está bem, são espanhóis (não consegui sequer considerá-los galegos, era doloroso de mais para mim), estes tipos não percebem nada disto". Mas não desculpei. E é preciso que se note que eu sou pela livre escolha. Para mim, cada um come do que gosta. Mas há comportamentos que, por escandalosos, devem ser guardados para o recato do lar. Eu próprio já comi bacalhau assado com feijoada à transmontana, mas foi em casa de amigos. Nunca por nunca o faria em público. Haja decoro! Para além do mais, gastronomicamente falando, a feijoada com o bacalhau na brasa é uma extravagância, enquanto que a batata frita não passa de uma indigência.
Apetecia-me bater-lhes. E ia bater-lhes, mas

reparei que um cliente, três ou quatro mesas à minha frente, estava a sentir-se indisposto, com a mulher já a pé, amparando-o e implorando auxílio com os olhos. Esqueci o resto. Vi ali a oportunidade por que esperei toda a minha vida. Pousei os talheres, cheio de classe, e preparava-me para levantar-me, ainda com mais classe, quando um atrevido se me antecipou pela direita e se dirigiu à senhora, de forma calma e discreta, dizendo exactamente o que eu ia dizer:
- Desculpe, eu sou médico. Então o que é que se passa? Posso ajudar?
Usurpador de merda! Apetecia-me bater-lhe. Aquela frase era minha. Minha! Aos anos que a ando a treinar. Eu diria aquilo muito melhor. A única vantagem do gajo é que era médico.

domingo, 2 de outubro de 2011

sábado, 1 de outubro de 2011

O buraco

Afinal são só 6.328 milhões de euros. E estava eu preocupado! Pode ainda ser mais, é verdade, mas, se for, não será muito mais, a não ser que seja. O vagaroso ministro das Finanças, Vítor Gaspar, anunciou ontem que a dívida da Madeira conta com mais 465 milhões de euros do que o Governo regional tinha admitido na sua última "confissão", vale, no seu total, 123 por cento do PIB da região e corresponde a 927 por cento das receitas fiscais e a 600 por cento da receita efectiva em 2010. Muito gostava eu de saber como é que alguém consegue gastar seis vezes o que recebe sem ir bater com os costados no xelindró. Dava-me jeito!
O Alberto João é que tem razão. Rima e é verdade. Andavam os "vigaristas" continentais - na oportuna expressão do presidente da república das bananas da Madeira - a dizer que aquilo era um buraco sem fundo, e afinal não é. São só 6.328 milhões de euros.
Umas horas antes (para que se perceba, em tempo de eleições regionais, que o cu não tem nada a ver com as calças), o secretário de Estado do Orçamento, Luís Morais Sarmento, já tinha avisado que o "desvio" verificado no défice do primeiro semestre deste ano vai obrigar o Governo da República a sufocar-nos com mais medidas de austeridade ainda antes do Natal.
Também está bem. O que interessa é que o buraco da Madeira é só de 6.328 milhões de euros. Esta noite vou dormir mais descansado. E vou pôr o despertador para me acordar às 7h30 do dia 1 de Outubro de 2021.

Manifesto

Depois de ter dado o corpo ao manifesto, Asdrúbal arrependeu-se e pediu-o de volta. Já foi tarde. Quem dá e volta a tirar ao inferno vai parar.