O seu nome é muito próprio dela
O seu nome é gracioso e muito próprio dela:
Respira um vago tom de música inocente;
E lembra a placidez de um lago transparente;
Recorda a emanação tranquila duma estrela.
Lembra um título bom, que logo nos revela
A ideia do poema. E todo o mundo sente
Não sei que afinidade entre o seu ar dolente,
a sua morbidezza, e o próprio nome dela.
E chego acreditar - ingenuamente o digo -
Que havia um nome em branco, e Deus pensa consigo
Em traduzi-lo enfim numa expressão qualquer:
De forma que a mulher suave e graciosa
Faz parte deste nome um tanto cor-de-rosa,
E este nome gentil faz parte da mulher.
Guilherme de Azevedo
(Guilherme de Azevedo nasceu no dia 30 de Novembro de 1839. Morreu em 1882.)
domingo, 30 de novembro de 2014
sábado, 29 de novembro de 2014
"Terra", a estreia de Daniel Bastos na poesia
Daniel Bastos apresenta na próxima sexta-feira, dia 5 de Dezembro, o seu mais recente livro, "Terra", uma primeira incursão no campo da poesia. A obra, em edição bilingue (português e francês) e com tradução de Paulo Teixeira, conta com ilustrações originais de Orlando Pompeu. Sessão a partir das 21h30, no auditório da Biblioteca Municipal de Fafe. Mais informação, aqui.
sexta-feira, 28 de novembro de 2014
Antero de Figueiredo
Vindo do Porto, atravesso o Baixo-Douro - que é um Minho de
campos menos retalhados, de
verdura menos fofa, de cor menos uniforme, de claridade menos crua. A luz,
mais grave, valoriza os vários azuis
dos montes com suas escarpas e quebradas; os verdes delicados das árvores de qualidade; os verdes fortes das
copas dos pinheiros, penetradas de
sombras; as massas escuras dos seus
troncos violáceos; os castanhos vermelhos das telhas velhas sobre brancuras
de fachadas entre terrenos amarelentos
e céus azulinos; e os tostados quentes dos taludes de saibro. A fisionomia da
paisagem acentua-se. Há carácter. Os
outeiros começam a transformar-se em
montes; os vales alargam-se e afundam-se; os horizontes distanciam-se.
Serras ao longe.
Estamos em fins de Abril. A Primavera, andada de um mês, ilumina o ar com as copas lilases e brancas das cerejeiras e das macieiras; com as hastes finas, direitas ao céu, das ameixoeiras, borbulhadas de rebentos de flores alvas - árvores beirando campos verdecidos de trigo serôdio, ou lameiros geados pelas toalhas das margaridas de neve. As giestas afitam-se de branco, e os tojos pontilham-se de revoadas de borboletas amarelas. Para além, montes de margaça lilás parecem montes de mosto. Agora, pinhais espessos o vales fundos.
"Recordações e Viagens", Antero de Figueiredo
(Antero de Figueiredo nasceu no dia 28 de Novembro de 1866. Morreu em 1953.)
Estamos em fins de Abril. A Primavera, andada de um mês, ilumina o ar com as copas lilases e brancas das cerejeiras e das macieiras; com as hastes finas, direitas ao céu, das ameixoeiras, borbulhadas de rebentos de flores alvas - árvores beirando campos verdecidos de trigo serôdio, ou lameiros geados pelas toalhas das margaridas de neve. As giestas afitam-se de branco, e os tojos pontilham-se de revoadas de borboletas amarelas. Para além, montes de margaça lilás parecem montes de mosto. Agora, pinhais espessos o vales fundos.
"Recordações e Viagens", Antero de Figueiredo
(Antero de Figueiredo nasceu no dia 28 de Novembro de 1866. Morreu em 1953.)
quinta-feira, 27 de novembro de 2014
Soares dos Passos 2
O noivado do sepulcro
Vai alta a lua! Na mansão da morte
Já meia-noite com vagar soou;
Que paz tranquila! Dos vaivéns da sorte
Só tem descanso quem ali baixou.
Que paz tranquila!... Mas eis longe, ao longe,
Funérea campa com fragor rangeu;
Branco fantasma semelhante a um monge,
Dentre os sepulcros a cabeça ergueu.
Ergueu-se, ergueu-se!... Na amplidão celeste
Campeia a lua com sinistra luz;
O vento geme no feral cipreste,
O mocho pia na marmórea cruz.
Ergueu-se, ergueu-se!... Com sombrio espanto
Olhou em roda... não achou ninguém...
Por entre as campas, arrastando o manto,
Com lentos passos caminhou além.
Chegando perto duma cruz alçada,
Que, entre os ciprestes, alvejava ao fim,
Parou, sentou-se, e com a voz magoada
Os ecos tristes acordou assim:
"Mulher formosa, que adorei na vida,
"E que na tumba não cessei de amar,
"Porque atraiçoas, desleal, mentida,
"O amor eterno que te ouvi jurar?
"Amor! Engano que na campa finda,
"Que a morte despe da ilusão falaz:
"Quem de entre os vivos se lembrará ainda
"Do pobre morto que na terra jaz!
"Abandonado neste chão repousa
"Há já três dias, e não vens aqui...
"Ai quão pesada me tem sido a lousa
"Sobre este peito que bateu por ti!
"Ai, quão pesada me tem sido!" E, em meio,
A fronte exausta lhe pendeu na mão,
E entre soluços arrancou do seio
Fundo suspiro de cruel paixão.
"Talvez que, rindo dos protestos nossos,
"Gozes com outro de infernal prazer;
"E o olvido, o olvido cobrirá meus ossos
"Na fria terra, sem vingança ter!
- "Oh nunca, nunca!" de saudade infinda,
Responde um eco, suspirando, além...
- "Oh nunca, nunca!" repetiu ainda
Formosa virgem que em seus braços tem.
Cobrem-lhe as formas divinais, airosas,
Longas roupagens de nevada cor;
Singela coroa de virgínias rosas
Lhe cerca a fronte dum mortal palor.
"Não, não perdeste meu amor jurado:
"Vês este peito? Reina a morte aqui...
"É já sem forças, ai de mim, gelado,
"Mas ainda pulsa com amor por ti.
"Feliz que pude acompanhar-te ao fundo
"Da sepultura, sucumbindo à dor:
"Deixei a vida... que importava o mundo,
"O mundo em trevas, sem a luz do amor?
"Saudosa, ao longe, vês no céu a lua?"
- "Oh vejo, sim... recordação fatal!"
- "Foi à luz dela que jurei ser tua
Durante a vida, e na mansão final.
"Oh vem! Se nunca te cingi ao peito,
"Hoje o sepulcro nos reúne enfim...
"Quero o repouso de teu frio leito,
"Quero-te unido para sempre a mim!"
E ao som dos pios do cantor funéreo
E à luz da lua de sinistro alvor,
Junto ao cruzeiro, sepulcral mistério
Foi celebrado, de infeliz amor.
Quando risonho despontava o dia,
Já desse drama nada havia então,
Mais que uma tumba funeral vazia,
Quebrada a lousa por ignota mão.
Porém, mais tarde, quando foi volvido
Das sepulturas o gelado pó,
Dois esqueletos, um ao outro unido,
Foram achados num sepulcro só.
"Poesias", Soares dos Passos
(Soares dos Passos nasceu no dia 27 de Novembro de 1826. Morreu em 1860.)
Vai alta a lua! Na mansão da morte
Já meia-noite com vagar soou;
Que paz tranquila! Dos vaivéns da sorte
Só tem descanso quem ali baixou.
Que paz tranquila!... Mas eis longe, ao longe,
Funérea campa com fragor rangeu;
Branco fantasma semelhante a um monge,
Dentre os sepulcros a cabeça ergueu.
Ergueu-se, ergueu-se!... Na amplidão celeste
Campeia a lua com sinistra luz;
O vento geme no feral cipreste,
O mocho pia na marmórea cruz.
Ergueu-se, ergueu-se!... Com sombrio espanto
Olhou em roda... não achou ninguém...
Por entre as campas, arrastando o manto,
Com lentos passos caminhou além.
Chegando perto duma cruz alçada,
Que, entre os ciprestes, alvejava ao fim,
Parou, sentou-se, e com a voz magoada
Os ecos tristes acordou assim:
"Mulher formosa, que adorei na vida,
"E que na tumba não cessei de amar,
"Porque atraiçoas, desleal, mentida,
"O amor eterno que te ouvi jurar?
"Amor! Engano que na campa finda,
"Que a morte despe da ilusão falaz:
"Quem de entre os vivos se lembrará ainda
"Do pobre morto que na terra jaz!
"Abandonado neste chão repousa
"Há já três dias, e não vens aqui...
"Ai quão pesada me tem sido a lousa
"Sobre este peito que bateu por ti!
"Ai, quão pesada me tem sido!" E, em meio,
A fronte exausta lhe pendeu na mão,
E entre soluços arrancou do seio
Fundo suspiro de cruel paixão.
"Talvez que, rindo dos protestos nossos,
"Gozes com outro de infernal prazer;
"E o olvido, o olvido cobrirá meus ossos
"Na fria terra, sem vingança ter!
- "Oh nunca, nunca!" de saudade infinda,
Responde um eco, suspirando, além...
- "Oh nunca, nunca!" repetiu ainda
Formosa virgem que em seus braços tem.
Cobrem-lhe as formas divinais, airosas,
Longas roupagens de nevada cor;
Singela coroa de virgínias rosas
Lhe cerca a fronte dum mortal palor.
"Não, não perdeste meu amor jurado:
"Vês este peito? Reina a morte aqui...
"É já sem forças, ai de mim, gelado,
"Mas ainda pulsa com amor por ti.
"Feliz que pude acompanhar-te ao fundo
"Da sepultura, sucumbindo à dor:
"Deixei a vida... que importava o mundo,
"O mundo em trevas, sem a luz do amor?
"Saudosa, ao longe, vês no céu a lua?"
- "Oh vejo, sim... recordação fatal!"
- "Foi à luz dela que jurei ser tua
Durante a vida, e na mansão final.
"Oh vem! Se nunca te cingi ao peito,
"Hoje o sepulcro nos reúne enfim...
"Quero o repouso de teu frio leito,
"Quero-te unido para sempre a mim!"
E ao som dos pios do cantor funéreo
E à luz da lua de sinistro alvor,
Junto ao cruzeiro, sepulcral mistério
Foi celebrado, de infeliz amor.
Quando risonho despontava o dia,
Já desse drama nada havia então,
Mais que uma tumba funeral vazia,
Quebrada a lousa por ignota mão.
Porém, mais tarde, quando foi volvido
Das sepulturas o gelado pó,
Dois esqueletos, um ao outro unido,
Foram achados num sepulcro só.
"Poesias", Soares dos Passos
(Soares dos Passos nasceu no dia 27 de Novembro de 1826. Morreu em 1860.)
Adonias Filho
Paulino Duarte sabia, desde que Miguel Duarte morrera, ele sabia que, bem no abismo da sua alma, havia um grande medo inexplicável. Uma coisa inexprimível, irreversível, estagnante, que o fazia ouvir vozes, particularmente aquela voz vazia que pronunciava o nome de Lica. Era como alguém que endoidecia, vagando pela casa fechada, trêmulo, escutando alarido do vento nas palmeiras do quintal. Os ratos corriam na despensa, calafetava os buracos das paredes com canhamaço. As vozes, porém, continuavam, fracas como um bocejo. Pálido, da sala, só encontrava sossego quando abria a porta e chamava os cães aos berros. Entre eles, as pulgas mordendo, sentia-se calmo e adormecia. No entanto, na noite seguinte o mesmo martírio, a mesma tortura. Algumas vezes, no reflexo da luz, distinguia o rosto do pai bêbado, a barba falhada de Juca Pinheiro. Foi em uma dessas noites, pouco tempo após a morte de Miguel Duarte, que ouviu, dentre o ruído da chuva, fortes pancadas na porta da cozinha. Acorreu, empunhando o facão, e abriu a porta com um grito: "Quem está batendo aí?" E, encontrando um homem, quase despido, inteiramente molhado, perguntou: "A quem você procura?" O homem respondeu: "Miguel Duarte." Deteve-se, o coração aos saltos, e respondeu: "Miguel Duarte! Miguel Duarte morreu!" O homem apertou as mãos, uma na outra, como se estivesse com frio, e disse: "Eu preciso falar com Miguel Duarte, a minha conversa é sobre Ubaldo, que está morto e bem morto." Paulino Duarte recuou, exaltado: "E foi você quem matou Ubaldo? Ubaldo... Mas, quem é você? Que tem a ver meu pai com esse Ubaldo?" O homem fitou-o de relance, respondendo: "Lica, sabe. Faze anos, muitos anos... Ah! O meu nome? Emílio, sim senhor, Emílio." Entrou na cozinha, os olhos nas panelas, dando a entender que estava faminto.
"Os Servos da Morte", Adonias Filho
(Adonias Filho nasceu no dia 27 de Novembro de 1915. Morreu em 1990.)
"Os Servos da Morte", Adonias Filho
(Adonias Filho nasceu no dia 27 de Novembro de 1915. Morreu em 1990.)
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