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segunda-feira, 8 de julho de 2024

Maior e vacinado

Foto Hernâni Von Doellinger

Acreditam que ainda tenho comigo e em plena actividade o meu primeiro, e único, boletim de vacinas? As vacinas, naquele tempo, apanhavam-se no velho casarão em frente à Escola Conde Ferreira, na Rua Montenegro, com a escadaria mesmo ao lado da caixa do Mudo, engraxador e sportinguista de alto gabarito, irredutível fiscal no Campo da Granja e depois no Estádio, hoje chamar-lhe-iam steward, palermas, e era também exímio tocador dos sinos da Igreja Matriz, especializado em concertos para casamentos, baptizados e sobretudo funerais, pago à peça, portanto por fora. Era um extra. O Mudo. Quanto ao casarão, ali funcionavam ou funcionaram, não sei se coincidindo, o Centro de Saúde, os Serviços Municipalizados de Água e Electricidade, também não estou certo de que se chamassem exactamente assim, e a "cantina" ou o sítio da sopa para os meninos mais pobres da escola. Aquele tempo era porreiro porque podia-se dizer "vácina" sem que nos ralhassem pessoas que, relativamente a gramática e língua portuguesa em geral, só fazem ideia de emojis. Eu continuo a dizer "vácina" e "vácinas" e graças a Deus tenho-me dado muito bem.
O Centro de Saúde era de certeza um sítio maravilhoso porque trabalhavam lá o Aníbal Carriço, que sobreviveu à guerra cheio de balázios e escrevia nos jornais, tinha tudo para ser meu herói, e a Getinha, que era minha vizinha no Santo e gostava muito de mim e eu gostava muito dela. Quando andou na Escola de Condução Fafense para tirar carta, e não sei se concluiu, eu acompanhava a vanguardeira Getinha na aulas, sentado no banco de trás do então inevitável Carocha amarelo e preto, às voltas sem sentido pelo centro da vila só para a má-língua ver, a contorcer-me por todos os lados, enjoadíssimo, porque eu enjoava abundantemente a andar de carro, mas era por uma boa causa e com autorização da minha mãe, depois de fazer os deveres: uma menina de bem, uma donzela, nunca entraria sozinha na viatura de um cavalheiro, por mais cavalheiro que o cavalheiro fosse e ainda que o cavalheiro fosse o instrutor e a viatura fosse de instrução, olha o respeito! Quer-se dizer, eu, inocente guardador de virgindades, era ali uma espécie de pau-de-cabeleira, mas de uma espécie muito rara certamente, uma espécie talvez descontextualizada, abstrusa, porque a vida depois dá muitas voltas e até é de rir, às vezes, e de chorar, outras, o que acontece às pessoas e com as pessoas, mas isso já não é para aqui chamado. A querida Getinha era uma mulher extraordinária.
Tornando, então, às vacinas e ao velho boletim. A minha primeira vacina registada, perpetrada evidentemente em Fafe, foi uma "Anti-Poliomielítica Morta ou Viva", até parece dos filmes de cobóis, tem a data de 15 de Dezembro de 1965, lembro-me muito bem dela, e a mais recente foi-me aplicada ainda no outro dia, 23 de Maio, em Matosinhos, onde moro, porque, embora possa não parecer, eu levo isto das vacinas muito a sério. Covid e gripe à parte, a próxima, se não for antes, está já agendada para 2034, isto é, o Serviço Nacional de Saúde, que eu tanto estimo, atribuiu-me pelo menos mais dez anos de vida, só tenho de apresentar-me no dia certo. Eu por acaso já não contava com semelhante bónus, nem sei sequer se o mereço ou justifico, mas, cá está, é a prova de que as vacinas realmente funcionam.

(Publicado originalmente no meu blogue Fafismos)

sábado, 6 de julho de 2024

Ah, se os cães soubessem ler...

Foto Hernâni Von Doellinger

A miúda era gira. Pelo menos vista por trás. Vestia um calçãozinho vermelho, resumido, e levava dois cães pela mão, cada cão por sua trela. Não sei de raças de canídeos, só distingo duas: a raça grande e a raça pequena. Estes dois eram dos grandes, dos que habitualmente gostam de meter-se comigo, dos que gostam de saber a que é que sabem as minhas pernas.
A miúda era gira, dizia eu, e preparava-se para entrar no Parque da Cidade do Porto. Via-se que andava a apalpar terreno, devia ser a sua primeira vez. E decerto foi por isso que fez o que eu nunca tinha visto ninguém fazer: parou a ler o painel com as "Normas de Circulação de Cães". Pelo tempo que demorou, deu para perceber que leu toda a informação, de uma ponta a outra. Depois pareceu-me que verificou se estava tudo ok - olhando por si abaixo, para as trelas e para os cães -, e só então é que avançou. Apeteceu-me aplaudir! Bater palmas à atitude cuidadosa, ao respeito pelos outros, à lição de cidadania, ao calçãozinho vermelho. Resumido.
Eu próprio fiquei curioso e fui dar uma vista de olhos ao painel. Há um igual em cada entrada do Parque. O painel explica sumariamente o que são "cães potencialmente perigosos" e "cães perigosos", ajuda a identificar, com fotos e notas explicativas, as "raças potencialmente perigosas" e, no seu corpo central, alinha as quatro normas fundamentais a observar. Que são:
"1. É obrigatório para todos os cães o uso de coleira ou peitoral, no qual deve estar inscrito, de forma visível, o nome e morada ou telefone do seu detentor.
2. Os cães devem circular com trela e sempre acompanhados pelo seu detentor.
3. Os cães perigosos ou potencialmente perigosos devem circular no Parque da Cidade acompanhados pelo seu detentor, maior de 16 anos, e com uma trela curta até 1 metro, que deverá estar fixa à coleira ou peitoral e açaimo funcional.
4. Os detentores dos animais deverão, em qualquer deslocação, fazer-se acompanhar do boletim sanitário dos animais com os quais circulam." 
Infelizmente os cães não sabem ler, e isso faz diferença a muitos donos.

P.S. - Publicado originalmente no dia 29 de Março de 2012. No dia 6 de Julho de 1885, Louis Pasteur testou com sucesso a sua vacina antirrábica em Joseph Meister, um rapaz que fora mordido por um cão com raiva.

terça-feira, 14 de setembro de 2021

Fernando Nobre, o peneirento

Há que tempos que não me vinha à cabeça a palavra peneirento. Veio-me ontem, com acento na penúltima sílaba e tudo - "peneirénto" -, como se diz na minha terra. E devo o momento de tocante nostalgia ao Dr. Fernando Nobre e à sua mais que esperada renúncia ao cargo de deputado. Muito obrigado, senhor doutor.
Arrumado contra-vontade no baú das expressões populares, o adjectivo peneirento tem vindo a ser substituído por sinónimos tão modernos como vaidoso, presumido, pretensioso, presunçoso ou pedante. Também estão bem para o caso em apreço, mas não são a mesma coisa.
Fernando Nobre, o antipolítico que apoiou Durão Barroso na ressaca pós-guterrista e depois se arrependeu, que apoiou Mário Soares, que apoiou o Bloco de Esquerda, que apoiou António Capucho (PSD) à Câmara de Cascais, que se apoiou a si próprio à Presidência da República, contra todos os partidos, e que logo a seguir teve uma recaída social-democrata para ser "candidato" à presidência da Assembleia da República, não vai deixar saudades, mas mete pena.
Este percurso aos ziguezagues, que acabou da pior forma com o tremendo estampanço no Parlamento, é o triste retrato de um homem de 59 anos que parece que nunca soube o que quer ser quando for grande. A não ser, ser importante, ser mais que os outros, como o poeta de Florbela.
Ser deputado da Nação é ocupação menor para o fundador da AMI. Nobre, que sonhara ser a primeira figura do Estado e avisou logo que nunca aceitaria ser menos do que o segundo na hierarquia nacional, saiu do Parlamento pela porta pequena e já sem o seu halo de santidade, deixado para trás das costas em estilhaços.
Ironicamente, a Wikipédia regista Fernando Nobre como "médico, activista, professor universitário e político português". Político português! A vaidade, o desastre que foi a sua breve passagem pela arena política, não pode apagar nem prejudicar sobretudo o seu trabalho humanitário de anos e anos. Foi uma pena, de facto, tudo o que ele se fez passar para tentar chegar ao poleiro mais alto. Nobre não merecia isto de si próprio. Até porque é certamente uma pessoa estimável, um português excelentíssimo. Mas peneirento.

P.S. - Publicado originalmente no dia 5 de Julho de 2011, sob o título "O peneirento". Fernando Nobre, que nunca me enganou, pretende agora ser um dos principais rostos do negacionismo antivacinas e antimáscaras em Portugal. Ainda havemos de o ver candidato do Chega...