O Centro de Saúde era de certeza um sítio maravilhoso porque trabalhavam lá o Aníbal Carriço, que sobreviveu à guerra cheio de balázios e escrevia nos jornais, tinha tudo para ser meu herói, e a Getinha, que era minha vizinha no Santo e gostava muito de mim e eu gostava muito dela. Quando andou na Escola de Condução Fafense para tirar carta, e não sei se concluiu, eu acompanhava a vanguardeira Getinha na aulas, sentado no banco de trás do então inevitável Carocha amarelo e preto, às voltas sem sentido pelo centro da vila só para a má-língua ver, a contorcer-me por todos os lados, enjoadíssimo, porque eu enjoava abundantemente a andar de carro, mas era por uma boa causa e com autorização da minha mãe, depois de fazer os deveres: uma menina de bem, uma donzela, nunca entraria sozinha na viatura de um cavalheiro, por mais cavalheiro que o cavalheiro fosse e ainda que o cavalheiro fosse o instrutor e a viatura fosse de instrução, olha o respeito! Quer-se dizer, eu, inocente guardador de virgindades, era ali uma espécie de pau-de-cabeleira, mas de uma espécie muito rara certamente, uma espécie talvez descontextualizada, abstrusa, porque a vida depois dá muitas voltas e até é de rir, às vezes, e de chorar, outras, o que acontece às pessoas e com as pessoas, mas isso já não é para aqui chamado. A querida Getinha era uma mulher extraordinária.
segunda-feira, 8 de julho de 2024
Maior e vacinado
O Centro de Saúde era de certeza um sítio maravilhoso porque trabalhavam lá o Aníbal Carriço, que sobreviveu à guerra cheio de balázios e escrevia nos jornais, tinha tudo para ser meu herói, e a Getinha, que era minha vizinha no Santo e gostava muito de mim e eu gostava muito dela. Quando andou na Escola de Condução Fafense para tirar carta, e não sei se concluiu, eu acompanhava a vanguardeira Getinha na aulas, sentado no banco de trás do então inevitável Carocha amarelo e preto, às voltas sem sentido pelo centro da vila só para a má-língua ver, a contorcer-me por todos os lados, enjoadíssimo, porque eu enjoava abundantemente a andar de carro, mas era por uma boa causa e com autorização da minha mãe, depois de fazer os deveres: uma menina de bem, uma donzela, nunca entraria sozinha na viatura de um cavalheiro, por mais cavalheiro que o cavalheiro fosse e ainda que o cavalheiro fosse o instrutor e a viatura fosse de instrução, olha o respeito! Quer-se dizer, eu, inocente guardador de virgindades, era ali uma espécie de pau-de-cabeleira, mas de uma espécie muito rara certamente, uma espécie talvez descontextualizada, abstrusa, porque a vida depois dá muitas voltas e até é de rir, às vezes, e de chorar, outras, o que acontece às pessoas e com as pessoas, mas isso já não é para aqui chamado. A querida Getinha era uma mulher extraordinária.
sábado, 6 de julho de 2024
Ah, se os cães soubessem ler...
| Foto Hernâni Von Doellinger |
A miúda era gira. Pelo menos vista por trás. Vestia um calçãozinho vermelho, resumido, e levava dois cães pela mão, cada cão por sua trela. Não sei de raças de canídeos, só distingo duas: a raça grande e a raça pequena. Estes dois eram dos grandes, dos que habitualmente gostam de meter-se comigo, dos que gostam de saber a que é que sabem as minhas pernas.
A miúda era gira, dizia eu, e preparava-se para entrar no Parque da Cidade do Porto. Via-se que andava a apalpar terreno, devia ser a sua primeira vez. E decerto foi por isso que fez o que eu nunca tinha visto ninguém fazer: parou a ler o painel com as "Normas de Circulação de Cães". Pelo tempo que demorou, deu para perceber que leu toda a informação, de uma ponta a outra. Depois pareceu-me que verificou se estava tudo ok - olhando por si abaixo, para as trelas e para os cães -, e só então é que avançou. Apeteceu-me aplaudir! Bater palmas à atitude cuidadosa, ao respeito pelos outros, à lição de cidadania, ao calçãozinho vermelho. Resumido.
Eu próprio fiquei curioso e fui dar uma vista de olhos ao painel. Há um igual em cada entrada do Parque. O painel explica sumariamente o que são "cães potencialmente perigosos" e "cães perigosos", ajuda a identificar, com fotos e notas explicativas, as "raças potencialmente perigosas" e, no seu corpo central, alinha as quatro normas fundamentais a observar. Que são:
"1. É obrigatório para todos os cães o uso de coleira ou peitoral, no qual deve estar inscrito, de forma visível, o nome e morada ou telefone do seu detentor.
2. Os cães devem circular com trela e sempre acompanhados pelo seu detentor.
3. Os cães perigosos ou potencialmente perigosos devem circular no Parque da Cidade acompanhados pelo seu detentor, maior de 16 anos, e com uma trela curta até 1 metro, que deverá estar fixa à coleira ou peitoral e açaimo funcional.
4. Os detentores dos animais deverão, em qualquer deslocação, fazer-se acompanhar do boletim sanitário dos animais com os quais circulam."
Infelizmente os cães não sabem ler, e isso faz diferença a muitos donos.
P.S. - Publicado originalmente no dia 29 de Março de 2012. No dia 6 de Julho de 1885, Louis Pasteur testou com sucesso a sua vacina antirrábica em Joseph Meister, um rapaz que fora mordido por um cão com raiva.
terça-feira, 14 de setembro de 2021
Fernando Nobre, o peneirento
Há que tempos que não me vinha à cabeça a palavra peneirento. Veio-me
ontem, com acento na penúltima sílaba e tudo - "peneirénto" -, como se
diz na minha terra. E devo o momento de tocante nostalgia ao Dr.
Fernando Nobre e à sua mais que esperada renúncia ao cargo de deputado.
Muito obrigado, senhor doutor.
Arrumado contra-vontade no baú das expressões populares, o adjectivo
peneirento tem vindo a ser substituído por sinónimos tão modernos como
vaidoso, presumido, pretensioso, presunçoso ou pedante. Também estão bem
para o caso em apreço, mas não são a mesma coisa.
Fernando Nobre, o antipolítico que apoiou Durão Barroso na ressaca
pós-guterrista e depois se arrependeu, que apoiou Mário Soares, que
apoiou o Bloco de Esquerda, que apoiou António Capucho (PSD) à Câmara de
Cascais, que se apoiou a si próprio à Presidência da República, contra
todos os partidos, e que logo a seguir teve uma recaída social-democrata
para ser "candidato" à presidência da Assembleia da República, não vai
deixar saudades, mas mete pena.
Este percurso aos ziguezagues, que acabou da pior forma com o tremendo
estampanço no Parlamento, é o triste retrato de um homem de 59 anos que
parece que nunca soube o que quer ser quando for grande. A não ser, ser
importante, ser mais que os outros, como o poeta de Florbela.
Ser deputado da Nação é ocupação menor para o fundador da AMI. Nobre,
que sonhara ser a primeira figura do Estado e avisou logo que nunca
aceitaria ser menos do que o segundo na hierarquia nacional, saiu do
Parlamento pela porta pequena e já sem o seu halo de santidade, deixado
para trás das costas em estilhaços.
Ironicamente, a Wikipédia regista Fernando Nobre como "médico,
activista, professor universitário e político português". Político
português! A vaidade, o desastre que foi a sua breve passagem pela arena
política, não pode apagar nem prejudicar sobretudo o seu trabalho
humanitário de anos e anos. Foi uma pena, de facto, tudo o que ele se
fez passar para tentar chegar ao poleiro mais alto. Nobre não merecia
isto de si próprio. Até porque é certamente uma pessoa estimável, um
português excelentíssimo. Mas peneirento.