Dialética do poema
Fazer um poema
não é dizer coisas profundas.
É ver as coisas como as coisas não são.
Fazer um poema não é viajar no espelho.
É ir à procura do rosto do homem
perdido na escuridão.
É descer às raízes do sangue e do mito.
Fazer um poema é estar em conflito
com os dedos da mão.
"O Silêncio É Uma Figura Geométrica", Francisco Carvalho
(Francisco Carvalho nasceu no dia 11 de Junho de 1927. Morreu em 2013.)
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segunda-feira, 11 de junho de 2018
Francisco Carvalho 2
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domingo, 11 de junho de 2017
Francisco Carvalho
Prova documental
Já fugi ao encontro marcado
já fui banido, já disse adeus
já fui soldado, já fui rapsodo
já tive inocência e foi de água abaixo.
Já fui esperto, já fui afoito
já puxei faca, já toquei pífaro
já fui vaiado depois da briga
já tive saudade e foi de água abaixo.
Já fui árcade, já fui arcaico
já fui pateta, já fui patético
já perdi no jogo e na vida
já tive amor e foi de água abaixo.
Já tive pressa, já sentei praça
já tive ouro, já tive prata
já tive lenda, já tive fazenda
já tive paz e foi de água abaixo.
Já tive herdade, já fui deserdado
já tive episódio, já tive epitáfio
já levei o andor de Nosso Senhor
já tive esperança e foi de água abaixo.
Já tive mando, já corri mundo
já fui a Roma e não quis ver o Papa
já fui pra cama com Ana Bolena
já tive infância e foi de água abaixo.
Já fui Arlequim, já fui Pierrot
já tive herança, já tive prosápia
já tive estrela, já fui primogénito
já tive cabelo e foi de água abaixo.
Já fui feliz, já tive almofariz
já fui a Belém, já comi vatapá
já andei a cavalo no arco-íris
já tive paisagem e foi de água abaixo.
Já pesquei hipocampo de anzol
já fui de trem ver o quebrar da barra
já tive odalisca, já tive andaluza
já tive memória e foi de água abaixo.
"As Verdes Léguas", Francisco Carvalho
(Francisco Carvalho nasceu no dia 11 de Junho de 1927. Morreu em 2013.)
Já assumi a solidão dos outros
já provei do enigma insolúvel
já calcei as botas do morto
já tive segredo e foi de água abaixo.
Já fugi ao encontro marcado
já fui banido, já disse adeus
já fui soldado, já fui rapsodo
já tive inocência e foi de água abaixo.
Já fui esperto, já fui afoito
já puxei faca, já toquei pífaro
já fui vaiado depois da briga
já tive saudade e foi de água abaixo.
Já fui árcade, já fui arcaico
já fui pateta, já fui patético
já perdi no jogo e na vida
já tive amor e foi de água abaixo.
Já tive pressa, já sentei praça
já tive ouro, já tive prata
já tive lenda, já tive fazenda
já tive paz e foi de água abaixo.
Já tive herdade, já fui deserdado
já tive episódio, já tive epitáfio
já levei o andor de Nosso Senhor
já tive esperança e foi de água abaixo.
Já tive mando, já corri mundo
já fui a Roma e não quis ver o Papa
já fui pra cama com Ana Bolena
já tive infância e foi de água abaixo.
Já fui Arlequim, já fui Pierrot
já tive herança, já tive prosápia
já tive estrela, já fui primogénito
já tive cabelo e foi de água abaixo.
Já fui feliz, já tive almofariz
já fui a Belém, já comi vatapá
já andei a cavalo no arco-íris
já tive paisagem e foi de água abaixo.
Já pesquei hipocampo de anzol
já fui de trem ver o quebrar da barra
já tive odalisca, já tive andaluza
já tive memória e foi de água abaixo.
(Francisco Carvalho nasceu no dia 11 de Junho de 1927. Morreu em 2013.)
sexta-feira, 26 de maio de 2017
Amélia Rodrigues
Saudade
Estou aqui
À sua espera
Como sempre, como antes,
Como amanhã...
Estou aqui
À sua espera
Como sempre, como antes,
Como amanhã...
Estou aqui,
Só,
Mas acompanhada
De tristeza, solidão,
Desesperança...
Estou aqui
E você não está...
Não tenho vida,
Falta-me ar,
Sinto-me perdida
Na lassitude dos meus
Pensamentos.
Estou aqui
E não me encontro,
Pois uma parte de mim
Dissolveu-se
Quando você partiu...
Estou aqui,
Sem alma,
Carente do seu amor...
De você!
Estou aqui
Entre quatro paredes
Perversas, solitárias
E frias...
Estou aqui
Com a sua lembrança,
Vivenciando a sua ausência
Que representa lágrimas
No meu coração...
Estou aqui,
Chorando,
Onde antes sorri...
Estou aqui,
Sofrendo,
Onde ontem fui feliz!
Estou aqui...
(Ah, estou aqui!)
À sua espera
Como antes, como sempre,
Como amanhã...
Estou aqui
Na ânsia de vê-lo chegar
Cantado, alegre,
Revoltado
(ou mesmo apaixonado!)
E ouvi-lo dizer:
- "Estou aqui!"
(Amélia Rodrigues nasceu no dia 26 de Maio de 1861. Morreu em 1926.)
quarta-feira, 9 de novembro de 2016
João Rodrigues
As flores que eu não tive
Mãe!
Olho para o verde musgo
que
depois da chuva
cresceu e floriu
sobre a terra da tua campa
e um amargo sorriso
aflora aos meus lábios
ao ver-te
toda coberta de bravas flores...
São as flores
que eu não tive
para
depor sobre essa campa
quando
fecharam-te os olhos
cruzaram-te as mãos
e te cobriram de pó
- E eu te cobri de lágrimas!
São as flores
que eu não tive
para
ornar tua fronte
de mártir e santa
Oh minha mãe!
João Rodrigues
(João Rodrigues nasceu no dia 9 de Novembro de 1931. Morreu em 2013.)
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