Mostrar mensagens com a etiqueta Rui Caeiro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Rui Caeiro. Mostrar todas as mensagens

domingo, 27 de junho de 2021

Rui Caeiro 4

A dois passos

Quando penso em ti, essoutra que eu nunca mais
soube ao certo quem era, ou quem eras, em ti
e em tudo aquilo que me deste, tanto que eu
nunca soube onde colocar e logo vinha o vento
e levava, quando penso em ti e mais em tudo
o que deixaste avariado na minha vida e eram
todos os pobres artefactos dela, da minha vida
quando penso em ti, isto é, quando penso em
nós, nessa coisa insólita e paupérrima que nós
éramos, ou que nós fomos um dia, é no inferno
é ainda e só e mais uma vez no inferno que eu
penso - esse tempo esse calor esse frio essa espera
insuportável. É no inferno que penso, mas devo
reconhecer, em abono da verdade, que não era
no inferno que nós estávamos, era a dois passos
dele e se queres mesmo saber era agradável
pela boa e simples razão de que não havia mais
nada, era intensa e insuportavelmente agradável
Faltava um pouco o ar, é certo, mas quem é que
se ia importar com uma coisa dessas, havia um calor
que nos enregelava os ossos, havia um frio que nos
aquecia. Era a dois passos do inferno - estava-se bem.

Rui Caeiro

(Rui Caeiro nasceu no dia 27 de Junho de 1943. Morreu em 2019.)

sábado, 27 de junho de 2020

Rui Caeiro 3

A dor de um gato 

Quando cegaste foi de vez. Sem aviso prévio e dos dois olhos em simultâneo.
Não foi de um dia para o outro, foi mais o que se chama de um momento para o outro.
De um momento para a noite, melhor dizendo.
Quando cegaste foi como se na casa uma espécie de morte tivesse dado sinal de vida, essa sua espécie de vida.
Pois quantas vezes é assim, absurda e traiçoeira, que ela vem. E se instala.
Tu, indeciso e desorientado, andavas sem rumo pela casa às topadas a móveis, sacos de plástico, pilhas de livros.
Não foi um espectáculo bonito de se ver, acompanhado com miador que eram verdadeiros gritos de dor, de aflição, ou de cólera.
Ou, mais provável, tudo isso junto.
Grande ironia do destino, pensei na altura, logo os teus olhos.
Que eram amplos, redondos, curiosos, sempre alerta e cheios de luz.
Uns olhos de fazer inveja a muita gente que eu cá sei.
E gritaste, durante uns bons minutos gritaste.
Um som não ouvido até então, um novo som arrancado à natureza, ou ao mais fundo da tua animal sinceridade.
Um som que percutia os tímpanos com a sua nota de urgência e pânico.
Sabia-se de onde ele vinha, o som, não para onde ia.
Sim, para onde, se é que ia para algum lado? A quem se dirigia, se é que era dirigido a alguma coisa ou alguém?
A mim não seria: sabias, com a tua antiga e animal sabedoria, que eu nada te podia valer.
A Deus também não seria: os gatos, é coisa bem conhecida, não vão em trapaças.
Resta o puro NADA como hipótese, resta a
GRANDE PUTA QUE A TODOS NOS PARIU!

Rui Caeiro, na revista Piolho

(Rui Caeiro nasceu no dia 27 de Junho de 1943. Morreu em 2019.)

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Rui Caeiro 2

Estendo o braço, abro a mão: para ver se
está a chover, qual a temperatura do ar,
essas coisas.
Quando estou nestes preparos dois
malucos vêm pousar-me na mão. Diz um deles:
já somos três.

"Diálogos Marados/Um Maluco Vem Pousar-me na Mão", Rui Caeiro

(Rui Caeiro nasceu no dia 27 de Junho de 1943. Morreu em 2019.)

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Rui Caeiro

Pois morre-se de muita coisa, de muita coisa
se morre, morre-se por tudo e por nada
morre-se sempre muito
Por exemplo, de frio e desalento
um pouco todos os dias
mas de calor também se morre
e de esperança outro tanto
e é assim: como a esperança nunca morre
morre a gente de ter que esperar
Morre-se enfim de tudo um pouco
De olhar as nuvens no céu a passar
ou os pássaros a voar, não há mais remédio
ó amigos, tem que se morrer
Até de respirar se morre e tanto
tão mais ainda que de cancro
De amar bem e amar mal
de amar e não amar, morre-se
De abrir e fechar, a janela ou os olhos
tão simples afinal, morre-se
Também de concluir o poema
este ou qualquer outro, tanto faz
ou de o deixar em meio, o resultado
é o mesmo: morre-se
Data-se e assina-se - ou nem isso
Sobrevive-se - ou nem tanto
Morre-se - sempre
Muito


"Sobre a Nossa Morte Bem Muito Obrigado", Rui Caeiro

(Rui Caeiro nasceu no dia 27 de Junho de 1943. Morreu ontem.)