Os verdes amarelavam-se de estio quando as ninhadas esvoaçavam das silvas onde ninhos secos rebentavam círculos de natureza. Confundia-se o exterior no íntimo do passeio - embriagantes de real alteavam-se conjuntos à passagem do carpinteiro e contudo uma sociedade estava a completar-se numa tarde com lenço de seda ao correr da brisa; aqui e ali cavalgavam os penetrantes na sua sensibilidade do adormecer germinado pela dúvida.
"Caranguejo", Ruben A.
(Ruben A. nasceu no dia 26 de Maio de 1920. Morreu em 1975.)
Mostrar mensagens com a etiqueta Ruben A.. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ruben A.. Mostrar todas as mensagens
domingo, 26 de maio de 2019
sábado, 26 de maio de 2018
Ruben A. 5
A cidade de noite está acordada, como os gatos nas vielas, procura recolher-se a uma luminosidade íntima. Manipula seus hábitos, conta histórias, passeia, combina com a verdade o que vai acontecer quando daí a pouco a luz inunda os olhos dos bichos e os telhados das casas.
"O Outro Que Era Eu", Ruben A.
(Ruben A. nasceu no dia 26 de Maio de 1920. Morreu em 1975.)
"O Outro Que Era Eu", Ruben A.
(Ruben A. nasceu no dia 26 de Maio de 1920. Morreu em 1975.)
sexta-feira, 26 de maio de 2017
Ruben A. 4
Tu estás convencida há vários anos de que eu não te compreendo. Esta é sempre a teoria das mulheres, que não são compreendidas, que não são queridas, que não são adoradas, as queixas montanhas grandes, queixas enormes, sempre a justificar uma infelicidade que lhes vem lá do fundo da criação do mundo, do útero, da terra, as mulheres reflectem o útero feminino da terra, um útero cheio de aflições, em conclusão, queixam-se de tudo então entre os quarenta e os cinquenta, esse útero funciona nas alturas, é um útero cósmico que já não é parte de uma mulher, pertence à mulher do mundo. Há muita verdade no que dizes, o homem desinteressa-se facilmente, depois do acto do amor, depois logo sacode as penas, arrebita, passa à frente, domina outro mundo, a mulher fica fechada, acanhada nesse encontro muito íntimo, nesse seu mais fundo dos fundos, na identidade uterina com a ideia da criação, da reprodução da génese, salta, salta, forma-se na mulher a visão do caos a que só ela pelo amor pode dar uma nova regra, pelo domínio da paixão, pela companhia, para isso tem de ser compreendida, ela julga que é compreendida, tem de justificar a sua infelicidade pela compreensão do amor, de um outro amor, a mulher busca no outro amor o amor definitivo, amor que nunca aparece, é o poder fantásmico de convicção, que rompe todas as barreiras, a mulher atira-se, não sabe onde nem como, é capaz dos maiores actos de heroísmo clandestino, aparece, vai, surge, abre-se, mostra o que é o amor, a sua entrega total.
"Silêncio para 4", Ruben A.
(Ruben A. nasceu no dia 26 de Maio de 1920. Morreu em 1975.)
"Silêncio para 4", Ruben A.
(Ruben A. nasceu no dia 26 de Maio de 1920. Morreu em 1975.)
quinta-feira, 26 de maio de 2016
Ruben A. 3
É preciso viver em estado de prevenção. Não ir na enxurrada do
colectivismo e morrer afogado num bairro económico ou numa colónia
balnear, resistir às pressões políticas mirabolantes, quer sejam de uma
banda ou de outra, manter a condição do homem-artista em luta com o
homem-massa foi sempre o que em mim se tornou claro desde que aos poucos
tomei posse da minha personalidade. É fatal que se caminhe para a
sanidade de vida das classes baixas, é humano que isso se faça, no
entanto também é humano, mais talvez, que se lute desesperadamente para
que a condição mais sagrada do homem evolua libertando-se das massas
satisfeitas com a assistência médica, televisão e funeral pago. Essa
massa vai criar um novo espírito animal, vai catalogar-se em Darwin e,
convencidos que essa massa está feliz, constatamos ao fim de pouco tempo
que esses grandes grupos de populações standardizadas deixaram de
pensar e o seu sentir é apenas tactual, sem nada de sublimação em
momentos mais íntimos.
O mundo que pensa, do artista e do intelectual, tem de libertar-se do incómodo desses homens que trouxeram como contribuição para a humanidade uma ideia abstracta do colectivo em marcha, que passaram a emitir sons, como pequenas estações emissoras, que não precisam de se articular em palavras, bastando-lhes os gestos. Ao fim e ao cabo aqueles que julgaram ter contribuído para a evolução da humanidade, dessa massa informe, é com tristeza, se ainda forem vivos, que constatam o facto de terem criado mais uma categoria animal, símios aperfeiçoados, em substituição do processo normal e não aflitivo do homem que evolui gradualmente dentro da sua própria missão de homem.
"O Mundo à Minha Procura", Ruben A.
(Ruben A. nasceu no dia 26 de Maio de 1920. Morreu em 1975.)
O mundo que pensa, do artista e do intelectual, tem de libertar-se do incómodo desses homens que trouxeram como contribuição para a humanidade uma ideia abstracta do colectivo em marcha, que passaram a emitir sons, como pequenas estações emissoras, que não precisam de se articular em palavras, bastando-lhes os gestos. Ao fim e ao cabo aqueles que julgaram ter contribuído para a evolução da humanidade, dessa massa informe, é com tristeza, se ainda forem vivos, que constatam o facto de terem criado mais uma categoria animal, símios aperfeiçoados, em substituição do processo normal e não aflitivo do homem que evolui gradualmente dentro da sua própria missão de homem.
"O Mundo à Minha Procura", Ruben A.
(Ruben A. nasceu no dia 26 de Maio de 1920. Morreu em 1975.)
terça-feira, 26 de maio de 2015
Ruben A. 2
Desintegro-me. Custou-me sempre participar do colectivo. Apoquenta-me a minha narrativa, sobretudo pela veracidade mordaz de que se revestem todos os meus actos. Tento disfarçar com imagens. Puxo as sarjetas da alma, guindastro pelas roldanas do meu vaivém um peso de sentimentos misturados com banalidades do dia a dia. Não vou à praça fazer compras. Recuso-me terminantemente a tomar uma laranjada, ou um eléctrico. Deixo que as pessoas olhem para mim, de caras, com a minha imagem espantada, bem visível à vista desarmada. Mesmo na loja que na Baixa me queria vender um binóculo por tuta-e-meia, eu recusei em absoluto essa alavanca trancada no rosto. Fui sempre pelo que é natural, tanto em animais, como na cama. A memória recorda factos, é parte de uma história que se ensinava no século XIX e ainda hoje alegra os meninos do Liceu. Lembro futuros melhores, de fava-rica, camisas arregaçadas, terminações com o mesmo dinheiro de muitas sortes grandes, banhos em pelote, mulheres de tremer os alicerces, terramotos que correm cheios de saudade, prenhes de desejos, satisfações imberbes que nunca se cumprem. Arrepio-me, agora, já, sem saber bem porquê, uma viagem que sobe e desce pela espinha dorsal. Olho para mim. Uma radiografia perfeita, bem chapada. Tudo foge ao meu controle. Fico destituído de mim, como desmobilizado de uma guerra em que não tomei parte.
"O Outro Que Era Eu", Ruben A.
(Ruben A. nasceu no dia 26 de Maio de 1920. Morreu em 1975.)
"O Outro Que Era Eu", Ruben A.
(Ruben A. nasceu no dia 26 de Maio de 1920. Morreu em 1975.)
domingo, 26 de maio de 2013
Ruben A.
Dia 10. Estou azabumbado. Pedalo dentro da minha cabeça e sai apenas uma bílis de má disposição. A minha vida é um acidente de terreno pouco elevado. Esmigalho-me de vez em meses: é cada notícia que me alquebra os untos. Fico-me por aqui a olhar os bosques por onde caminha o Cavaleiro da Barbela a bordo do seu afamado Vilancete. E sonho nas saudades monstras que tenha da Barbela. Sítio ímpar na Ribeira Lima, solar da Torre, albergando os mais individualizados de cada século. Quase me apaixono por Madeleine Barbelat que quer perscrutar da virgindade do Cavaleiro antes de regressar a Paris. Depois ingresso novamente na chatice da renda de casa para pagar até ao dia 8, do gás e da electricidade, e eu sempre atento a apagar o que se não deve estragar de dinheiro, e o telefone a roubar-me por um contador que não está em minha casa, sou indefeso, imbecil, parvo - ainda a água caudalosa a chuvar-me o estremunhamento para não falar no pesadelo constante de padeiro, leiteiro, carniceiro, canalizador. Tudo que é novo em Portugal precisa de ser arranjado, então as canalizações já são construídas entupidas de nascença. Há tanto maquinismo de que só fabricamos os abortos. E medito que à borla só tenho o ar e o dentista amigo que é um homem bestial, boémio dos tempos de Coimbra, são de corpo e alma. Ah! Como eu queria bocejos à beira-mar. Lisboa faz-me vómitos setembrais; é a cidade mais egoísta do Ocidente. Em Lisboa é tudo difícil. Os braços caem-me pelas pernas abaixo e a cabeça de tão inclinada só olha pelos umbigos citadinos. São feios os umbigos portugueses. Têm pouca graça, parecem estrelas cadentes. Toda a minha paixão vira-se para umbigos de luxo que me arranquem dessa monotonia de contínuos problemas fiduciários.
"Páginas (V)", Ruben A.
(Ruben Alfredo Andresen Leitão nasceu no dia 26 de Maio de 1920. Morreu em 1975.)
"Páginas (V)", Ruben A.
(Ruben Alfredo Andresen Leitão nasceu no dia 26 de Maio de 1920. Morreu em 1975.)
Subscrever:
Mensagens (Atom)