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segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Brito Camacho 2

Às seis horas da manhã pára o comboio em Tunes, estando já formado na gare o que há-de levar-me a Portimão.
Manhã quente, com o sol ainda abaixo do horizonte, e uma leve, uma tenuíssima neblina que nos deixa ver as coisas na realidade do seu feitio e tamanho, já diferenciadas na cor, de pouco variadas cambiantes.
Nunca fui madrugador, e sucedeu-me, em Coimbra, perder o ano, numa aula, por faltas, ainda no primeiro sono, já os meus condiscípulos estavam fartos de ouvir o Mestre, tão pontual que ainda o relógio não acabara de bater as dez horas já ele estava sentado na cátedra.
Nunca fui madrugador, mas também nunca me
arrependi de ter sacrificado o sono da manhã ao encantamento de ver o sol erguer-se, no campo, apagados os últimos clarões da aurora, a simpática deusa que tem os dedos cor de rosa, segundo o testemunho dos poetas românticos, vates de melena e caspa, mortos sem descendência, felizmente...

"Por Cerros e Vales", Brito Camacho

(Brito Camacho nasceu no dia 12 de Fevereiro de 1862. Morreu em 1934.)

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Brito Camacho

O Manuel Narciso, maricas dos quatro costados, era ruim trabalhador e detestável pessoa; só para os trabalhos mulherengos tinha jeito e só para os seus amásios tinha demonstrações de estima. Era o pior dos criados, dizia o meu pai; era a melhor das criadas, dizia a minha mãe, e um pouco por esse motivo, mas principalmente por ser irmão da comadre Narcisa, conservou-se na casa até ser velho, muito velho, sempre resmungão, sempre maldizente, escandaloso nos seus actos, que por fim estadeava, provocando a indignação e o nojo. Dizia o compadre Rosa, erudito analfabeto:
- Este diabo é como as sereias, que da cintura para baixo são uma coisa, e da cintura para cima são outra.
Todos os anos, na terça-feira de carnaval, se mascarava de mulher, e era como se a um preso dessem liberdade, abrindo-lhe a porta da cadeia. O compadre João Catarino, quando o via de saias, lenço na cabeça, um xaile pelos ombros, padejando as ancas como as marafonas, não se dispensava de lhe dizer:
- Ó ladrão, tu hoje devias fingir de homem, para te não conhecerem!

"Por Cerros e Vales", Brito Camacho

(Brito Camacho nasceu no dia 12 de Fevereiro de 1862. Morreu no dia 19 de Setembro de 1934.)