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terça-feira, 30 de maio de 2017

Wenceslau de Moraes 5

Ha alguns dias, na cidade de Kobe - poderia precisar o dia, e quase a hora, se tamanho rigorismo me exigissem - irrompeu a Primavera. Irrompeu: não há sombra de exagero no vocábulo. Irrompeu, surgiu dum pulo, fez explosão. Neste país do Sol Nascente, onde o sol e, com ele, todas as grandes forças naturais são ainda uns selvagens - se assim posso expressar-me -, uns selvagens sem freio, sem noção das conveniências, incapazes de se apresentarem de visita, de luvas e casaca, numa corte qualquer da nossa Europa; neste país do Sol Nascente, ia eu dizendo, a criação inteira apostou, parece, em oferecer em cada dia uma surpresa, toda ela exuberâncias inauditas, espalhafatos únicos, repentismos nervosos, caprichos doidos, como se reunisse em si a quinta essência da alma das creanças e a quinta-essência da alma das mulheres, a gargalhada, a troça, enfim, motejadora de tudo quanto é ordem, harmonia, contemporizadora lei das transições.

"Paisagens da China e do Japão", Wenceslau de Moraes

(Wenceslau de Moraes nasceu no dia 30 de Maio de 1854. Morreu em 1929.)

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Wenceslau de Moraes 4

Choc-In-Toi, a deliciosa Choc-In-Toi, habitava, há longos séculos, uma pacífica aldeia do Yang-tsze-kiang, não longe do lugar que hoje se diz Xangai. Como fosse muito dada a estudos literários e as escolas do seu sexo não lhe satisfizessem a ambição, conseguiu que seus pais lhe permitissem o disfarçar-se em homem, e assim abalou, a ir frequentar a mais famosa universidade do império. Volveu ao lar após três anos; volveu tão pura como fora; da sua inocência há provas irrecusáveis. Para não divagar muito nestas páginas, basta dizer a quem me queira ouvir, que um lenço de seda branca, que ela enterrara na lama em presença duma sua cunhada predisposta a vaticinar-lhe rudes lances, foi depois tirado sem uma só mancha e sem um só farpão, branco, puro, como a alma da donzela; e basta saber que as flores da sua preferência, que ela deixara no jardim, rogando aos deuses que as conservassem frescas como ela, assim se conservaram durante a longa ausência, embora, como consta, a cunhada as fosse regando com água quente tirada da chaleira.
Durante os três anos de seu estudo, um companheiro, por nome Leun-San-Pac, intimamente se lhe afeiçoou. Era o seu camarada inseparável, o seu irmão; dormindo juntos, conversando juntos, estudando juntos, divagando, sonhando; e o lorpa do mocinho nunca se apercebeu que tinha a seu lado uma mulher.
Quando soou a hora das despedidas, cortava o coração ver o rapaz, lamentando o futuro isolamento, a perda dum amigo como aquele. A moça consolava-o. A moça pousava-lhe nos ombros as suas mãos gentis, e exortava-o a que se enchesse de coragem, a que se entregasse ao amor do estudo, até alcançar um alto grau de sapiência. - "E depois, dizia-lhe ela entre soluços, e depois, se com saudade te recordares ainda de mim, abala, vem ver-me à minha aldeia." - E dava-lhe
indicações precisas do lugar. Despediram-se, entre choros.


"Paisagens da China e do Japão", Wenceslau de Moraes

(Wenceslau de Moraes nasceu no dia 30 de Maio de 1854. Morreu em 1929.)

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Wenceslau de Moraes

São tão lindas, as borboletas! Quem as vê, que não lhes queira? aí vagabundando pelo azul dos campos, rasando as corolas frescas, amando-se, beijando-se, libertas da larva abjecta, como almas de amantes despidas da miséria terreal, a viajarem no infinito... São tão lindas, as borboletas!...
Mas na China são talvez mais lindas do que todas. É um deslumbramento surpreendê-las na quietação dos bosques, voejando aos pares, que se tocam, que se abraçam, e enfiando pelas sombras misteriosas dos bambus, com as suas longas asas palpitantes, lanceoladas, em matizes maravilhosos, de negros aveludados, de azuis meigos, de amarelos quentes, como se as loucas vestissem cabaias de cetim, de sedas de alto preço...

"Paisagens da China e do Japão", Wenceslau de Moraes

(Wenceslau de Moraes nasceu no dia 30 de Maio de 1854. Morreu em 1929.)