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segunda-feira, 26 de setembro de 2022

Relações públicas, vícios privados

Uma vez, há muitos anos, começava eu no meu ofício, mandaram-me a uma conferência de imprensa no palacete da secção do Porto da Ordem dos Médicos. A Ordem dos Médicos do Porto tinha então um assessor de imprensa, relações públicas ou director de comunicação, como parece que agora se diz, que era jornalista no activo, certamente com carteira profissional validada, com cargo de chefia em agência noticiosa pública e que, se a memória não me atraiçoa, também era treinador de futebol. Era portanto o verdadeiro enciclopedista do século vinte. Ou o sebastião come tudo, tudo, tudo. O homem sorria à porta da salinha, com uns bilhetinhos na mão e eu logo a pensar "só entro se pagar ou serão rifas? passo-me já ao caralho, e quero lá saber das maiúsculas..."
Os bilhetinhos. Eram perguntinhas dactilografadas como quadras para concurso de São João no Jornal de Notícias. As perguntinhas que os da Ordem dos Médicos do Porto ou pelo menos o meu obtuso camarada queriam que os jornalistas fizessem na tal conferência de imprensa, posto que eles por acaso já tinham a resposta na ponta da língua. Mandei o assessor lamber sabão, vim-me embora e nem sequer quis saber se alguém aceitou a encomenda.
Mas sei.

P.S. - Hoje é Dia Internacional do Relações Públicas.

domingo, 26 de novembro de 2017

Os figurantes

Foto Hernâni Von Doellinger

Escândalo. O Governo pagou aos cidadãos que fizeram perguntas a António Costa num evento organizado para efemerizar os dois anos da Geringonça. Eu, por princípio, não acho mal que o Governo pague aos cidadãos. Mas o PSD (o PSD que está e o PSD que há-de vir) e pelos menos dois jornais da corda, o Sol e o Observador, mais a RTP que está incomodadíssima, consideram que isto tudo é uma vergonha e exigem todos os esclarecimentos. Porque afinal os cidadãos perguntadores eram apenas figurantes. Eu, por princípio, também não acho mal que se pague aos figurantes.
Uma vez, há muitos anos, começava no meu ofício, mandaram-me a uma conferência de imprensa na secção do Porto da Ordem dos Médicos. A Ordem dos Médicos do Porto tinha então um assessor de imprensa, relações públicas ou director de comunicação, como agora se diz, que era jornalista no activo com cargo de chefia e, se a memória não me atraiçoa, também treinador de futebol - o verdadeiro enciclopedista do século vinte. O homem sorria à porta da salinha, com uns bilhetinhos na mão e eu logo a pensar "só entro se pagar ou serão rifas? passo-me já ao caralho, e quero lá saber das maiúsculas..."
Os bilhetinhos. Eram perguntinhas dactilografadas como quadras para concurso de São João no JN. As perguntinhas que a Ordem dos Médicos do Porto ou pelo menos o meu obtuso camarada queriam que os jornalistas fizessem na tal conferência de imprensa, posto que eles por acaso já tinham a resposta na ponta da língua. Mandei o assessor lamber sabão e não quero saber (sei, sei!) se alguém aceitou a encomenda.
Os cidadãos figurantes de António Costa foram pagos, cada um, com 200 euros em vales de compras, contam os jornais indignados. Os jornalistas figurantes sinceramente não sei qual é a tabela...

P.S. - Arnaldo Figurante consta da "Crónica dos Bons Malandros", de Mário Zambujal, jornalista honrado. Fosse o Arnaldo Vigilante em vez de Figurante e o seu nome era de certeza Zé. Zé Gomes, como toda a gente sabe...