Si querés desmorriñarme,
levaime pra onde o mar vexa,
e os seus airiños me cheguen,
e o sinta cuando referva;
levaime pra onde máis zoupe
e máis se esfache nas penas
e, ao reventaren as olas,
mover os salseiros sexan;
ou, de non, leváime a donde
poida ter a man, siquera,
pra espellarme, iunhas pociñas
entre os xuncos da ribeira!
"Obras Completas", Manuel Leiras Pulpeiro
(Manuel Leiras Pulpeiro nasceu no dia 25 de Outubro de 1854. Morreu em 1912.)
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terça-feira, 25 de outubro de 2016
quinta-feira, 7 de abril de 2016
Gregório de Matos 3
Novidades que vieram de Lisboa em 1658
França está mui doente das ilhargas,
Inglaterra tem dores de cabeça;
Purga-se Holanda, e temo lhe aconteça
Ficar debilitada com descargas.
Alemanha lhe aplica ervas amargas,
Botões de fogo com que convalesça;
Espanha não lhe dá que este mal cresça;
Portugal tem saúde e forças largas.
Morre Constantinopla, está ungida;
Veneza engorda e toma forças dobres;
Roma está bem, e toda a Igreja boa.
Europa anda de humores mal regida;
Na América arribaram muitos pobres:
Estas as novas são que há de Lisboa.
"Obras Completas", Gregório de Matos
(Gregório de Matos nasceu no dia 7 de Abril de 1636. Morreu em 1696.)
França está mui doente das ilhargas,
Inglaterra tem dores de cabeça;
Purga-se Holanda, e temo lhe aconteça
Ficar debilitada com descargas.
Alemanha lhe aplica ervas amargas,
Botões de fogo com que convalesça;
Espanha não lhe dá que este mal cresça;
Portugal tem saúde e forças largas.
Morre Constantinopla, está ungida;
Veneza engorda e toma forças dobres;
Roma está bem, e toda a Igreja boa.
Europa anda de humores mal regida;
Na América arribaram muitos pobres:
Estas as novas são que há de Lisboa.
"Obras Completas", Gregório de Matos
(Gregório de Matos nasceu no dia 7 de Abril de 1636. Morreu em 1696.)
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terça-feira, 23 de dezembro de 2014
Filinto Elísio 2
Uns lindos olhos, vivos, bem rasgados,
Um garbo senhoril, nevada alvura;
Metal de voz que enleva de doçura,
Dentes de aljôfar, em rubi cravados:
Fios de ouro, que enredam meus cuidados,
Alvo peito, que cega de candura;
Mil prendas; e (o que é mais que formosura)
Uma graça, que rouba mil agrados.
Mil extremos de preço mais subido
Encerra a linda Márcia, a quem of'reço
Um culto, que nem dela inda é sabido:
Tão pouco de mim julgo que a mereço,
Que enojá-la não quero de atrevido
Co'as penas, que por ela em vão padeço.
"Sonetos", Filinto Elísio
(Filinto Elísio nasceu no dia 23 de Dezembro de 1734. Morreu em 1819.)
Um garbo senhoril, nevada alvura;
Metal de voz que enleva de doçura,
Dentes de aljôfar, em rubi cravados:
Fios de ouro, que enredam meus cuidados,
Alvo peito, que cega de candura;
Mil prendas; e (o que é mais que formosura)
Uma graça, que rouba mil agrados.
Mil extremos de preço mais subido
Encerra a linda Márcia, a quem of'reço
Um culto, que nem dela inda é sabido:
Tão pouco de mim julgo que a mereço,
Que enojá-la não quero de atrevido
Co'as penas, que por ela em vão padeço.
"Sonetos", Filinto Elísio
(Filinto Elísio nasceu no dia 23 de Dezembro de 1734. Morreu em 1819.)
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Uns lindos olhos vivos bem rasgados
segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
Filinto Elísio
Nasci - logo a meus pais custou dinheiro
Nasci - logo a meus pais custou dinheiro
o baptismo, que Deus nos dá de graça.
Tive uso de razão - perdi a graça -
dei-me ao rol - chegou a Páscoa - dei dinheiro.
Quis casar com uma moça - mais dinheiro.
Brinquei com ela - não brinquei de graça:
que aos nove meses me custou a graça
para o Mergulhador capa e dinheiro.
Morreu minha mulher - não lhe achei graça
e menos graça no arbitral dinheiro
da oferta; que o prior não vai de graça.
Se o ser cristão requer sempre dinheiro,
como cumprem com dar graças de graça
os que as graças nos vendem por dinheiro?
"Obras Completas", Filinto Elísio
(Francisco Manuel do Nascimento, que usava o pseudónimo de Filinto Elísio, nasceu no dia 23 de Dezembro de 1734. Morreu em 1819.)
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terça-feira, 10 de setembro de 2013
Nicolau Tolentino
Deitando um cavalo à margem
Vai, mísero cavalo lazarento,
Vai, mísero cavalo lazarento,
Pastar longas campinas livremente;
Não percas tempo, enquanto to consente
De magros cães faminto ajuntamento.
Esta sela, teu único ornamento,
Para sinal da minha dor veemente,
De torto prego ficará pendente,
Despojo inútil do inconstante vento.
Morre em paz; que, em havendo algum dinheiro,
Hei-de mandar, em honra de teu nome,
Abrir em negra pedra este letreiro:
- "Aqui, piedoso entulho os ossos come
Do mais fiel, mais rápido sendeiro,
Que fora eterno a não morrer de fome".
"Obras Completas", Nicolau Tolentino
(Nicolau Tolentino de Almeida nasceu no dia 10 de Setembro de 1740. Morreu em 1811.)
Não percas tempo, enquanto to consente
De magros cães faminto ajuntamento.
Esta sela, teu único ornamento,
Para sinal da minha dor veemente,
De torto prego ficará pendente,
Despojo inútil do inconstante vento.
Morre em paz; que, em havendo algum dinheiro,
Hei-de mandar, em honra de teu nome,
Abrir em negra pedra este letreiro:
- "Aqui, piedoso entulho os ossos come
Do mais fiel, mais rápido sendeiro,
Que fora eterno a não morrer de fome".
"Obras Completas", Nicolau Tolentino
(Nicolau Tolentino de Almeida nasceu no dia 10 de Setembro de 1740. Morreu em 1811.)
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