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segunda-feira, 15 de julho de 2019

Henriqueta Lisboa 3

Noturno

Meu pensamento em febre
é uma lâmpada acesa
a incendiar a noite.

Meus desejos irrequietos,
à hora em que não há socorro,

dançam livres como libélulas
em redor do fogo.


"Prisioneira da Noite", Henriqueta Lisboa

(Henriqueta Lisboa nasceu no dia 15 de Julho de 1901. Morreu em 1985.)

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Plínio Salgado 2

Noturno

A boate tinha tons de azul e de violeta 
na penumbra onde os vultos se moviam.
A música tinha tons de rosa
com fagulhas vermelhas e reticências pretas.
O uísque tinha um gosto amarelado.
As almas eram azuis, violetas, vermelhas,
negras e alaranjadas:
a presença do álcool e do sexo.

Cheiro humano. Cheiro
de humanidade decaída.

As horas correm, chega a madrugada,
Por mais incrível que pareça,
há problemas vagando pelas ruas
e há estrelas brilhando no céu alto,
e há tristeza do século pesando
sobre a cidade que se julga
potente, pelos edifícios silenciosos,
feliz porque se entrega à embriaguês.

A boate tinha tons de azul e de violeta
e os problemas passeavam pelas ruas... 

"Poemas do Século Tenebroso", Plínio Salgado 

(Plínio Salgado nasceu no dia 22 de Janeiro de 1895. Morreu em 1975.)

sábado, 12 de novembro de 2016

Bruno Tolentino 4

Noturno 

Não sou o que te quer. Sou o que desce
a ti, veia por veia, e se derrama
à cata de si mesmo e do que é chama
e em cinza se reúne e se arrefece.
 

Anoitece contigo. E me anoitece
o lume do que é findo e me reclama.
Abro as mãos no obscuro. Toco a trama
que lacuna a lacuna amor se tece.


Repousa em ti o espanto que em mim dói,
noturno. E te revolvo. E estás pousada,
pomba de pura sombra que me rói.


E mordo teu silêncio corrosivo,
chupo o que flui, amor, sei que estou vivo
e sou teu salto em mim, suspenso em nada.


"Anulação & Outros Reparos", Bruno Tolentino

(Bruno Tolentino nasceu no dia 12 de Novembro de 1940. Morreu em 2007.)

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Ariano Suassuna 2

Noturno

Têm para mim Chamados de outro mundo
as Noites perigosas e queimadas,
quando a Lua aparece mais vermelha.
São turvos sonhos, Mágoas proibidas,
são Ouropéis antigos e fantasmas
que, nesse Mundo vivo e mais ardente,
consumam tudo o que desejo Aqui.
 

Será que mais Alguém vê e escuta? 

Sinto o roçar das asas Amarelas
e escuto essas Canções encantatórias
que tento, em vão, de mim desapossar.
 

Diluídos na velha Luz da lua,
a Quem dirigem seus terríveis cantos?
 

Pressinto um murmuroso esvoejar:
passaram-me por cima da cabeça
e, como um Halo escuso, te envolveram.
Eis-te no fogo, como um Fruto ardente,
a ventania me agitando em torno
esse cheiro que sai de teus cabelos.
 

Que vale a natureza sem teus Olhos,
ó Aquela por quem meu Sangue pulsa?
 

Da terra sai um cheiro bom de vida
e nossos pés a Ela estão ligados.
Deixa que teu cabelo, solto ao vento,
abrase fundamente as minhas mão...
 

Mas, não: a luz Escura inda te envolve,
o vento encrespa as Águas dos dois rios
e continua a ronda, o Som do fogo.
 

Ó meu amor, por que te ligo à Morte?

Ariano Suassuna

(Ariano Suassuna nasceu no dia 16 de Junho de 1927. Morreu em 2014.)