Os bailes mascarados
Os homens passam descuidados durante séculos por diante de montanhas em cujo seio se ocultam imensos tesouros, e nem os passados exemplos lhes fazem bater o coração de desejo de as explorarem, e nem a cobiça lhes desperta o ânimo, até que um mais feliz ou audaz, por acaso ou coragem, descobre uma partícula desse escondido tesouro; então acordam todos como de um longo sono, lastimam o tempo perdido, o que era indolência torna-se em agitação, e todos, obedecendo a um só pensamento, atiram-se insôfregos na exploração da montanha, e cavam-na por todos os lados, cruzam as suas entranhas com minas e galerias, e o ouro que delas extraem recompensa de sobejo os seus trabalhos e fadigas.
É esta a história dos bailes mascarados entre nós.
[...]
"Folhetins - A Semana Lírica", Martins Pena
(Martins Pena nasceu no dia 5 de Novembro de 1815. Morreu em 1848.)
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domingo, 5 de novembro de 2017
sábado, 5 de novembro de 2016
Martins Pena
Os bailes mascarados
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Os indivíduos mascarados dividem-se em duas grandes classes muito distintas: os que se mascaram para não serem conhecidos e os que se mascaram para o serem. Os primeiros andam retirados e silenciosos, gozando do prazer do incógnito no meio de amigos: estes são inofensivos e só servem de ornamento ao baile; e os segundos atiram-se desesperados por entre a multidão, dizem palavras indiscretas até que sejam conhecidos, para que se lhes admire o bom gosto do trajar. Felizmente há uma outra pequena classe intermediária que não participa nem do acanhamento da primeira nem da sem-cerimônia da segunda, e esta é que constitui o verdadeiro centro do baile.
Há uma coisa muito notável a observar-se. Regra geral: toda a máscara bonita encobre cara feia, e vice-versa. Isto é fácil de explicar-se: os feios querem um dia ser bonitos, ainda que não seja senão mascarados; e os bonitos querem experimentar os efeitos de uma cara feia. É decerto uma consolação para um homem ou para uma mulher maltratada pela natureza poder ocultar por algumas horas, debaixo de linda aparência, suas horríveis e horrendas cataduras. Pobre gente! tenham ao menos esse desabafo! Quantos conhecemos nós que de boa vontade e coração trocariam a cara que Deus lhes deu pela máscara que compraram!
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"Folhetins - A Semana Lírica", Martins Pena
(Martins Pena nasceu no dia 5 de Novembro de 1815. Morreu em 1848.)
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Os indivíduos mascarados dividem-se em duas grandes classes muito distintas: os que se mascaram para não serem conhecidos e os que se mascaram para o serem. Os primeiros andam retirados e silenciosos, gozando do prazer do incógnito no meio de amigos: estes são inofensivos e só servem de ornamento ao baile; e os segundos atiram-se desesperados por entre a multidão, dizem palavras indiscretas até que sejam conhecidos, para que se lhes admire o bom gosto do trajar. Felizmente há uma outra pequena classe intermediária que não participa nem do acanhamento da primeira nem da sem-cerimônia da segunda, e esta é que constitui o verdadeiro centro do baile.
Há uma coisa muito notável a observar-se. Regra geral: toda a máscara bonita encobre cara feia, e vice-versa. Isto é fácil de explicar-se: os feios querem um dia ser bonitos, ainda que não seja senão mascarados; e os bonitos querem experimentar os efeitos de uma cara feia. É decerto uma consolação para um homem ou para uma mulher maltratada pela natureza poder ocultar por algumas horas, debaixo de linda aparência, suas horríveis e horrendas cataduras. Pobre gente! tenham ao menos esse desabafo! Quantos conhecemos nós que de boa vontade e coração trocariam a cara que Deus lhes deu pela máscara que compraram!
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"Folhetins - A Semana Lírica", Martins Pena
(Martins Pena nasceu no dia 5 de Novembro de 1815. Morreu em 1848.)
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