O meu quarto na hospedaria Fra Giaccomo, em Smirna, era uma gaiola de vidro suspensa sobre o mar, e isso concorreu muito para que eu aí me demorasse mais do que projectara. Não que o panorama fosse risonho; bem pelo contrário. A desarmónica imensidade do golfo, a disposição das esmagadoras montanhas vizinhas, a cidade que não brilha, com o seu casario escuro apinhado nas encostas, nas alturas recortadas de ameias, restos de arruinadas fortificações antigas, todo este conjunto formava um quadro melancólico. [...]
"Novelas Eróticas", Manuel Teixeira Gomes
(Manuel Teixeira Gomes nasceu no dia 27 de Maio de 1860. Morreu em 1941.)
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domingo, 27 de maio de 2018
sábado, 27 de maio de 2017
Manuel Teixeira Gomes 3
Ainda lhe escrevi mas as cartas voltaram-me recambiadas por insuficiência de endereço.
Esperaria ela que eu a fosse buscar à América? Isso era, precisamente, o que teria feito… se pudesse.
Pobre Margareta! e pobre de mim, que, sem culpa alguma, ainda hoje a sua lembrança me atormenta como um remorso…
"Novelas Eróticas", Manuel Teixeira Gomes
(Manuel Teixeira Gomes nasceu no dia 27 de Maio de 1860. Morreu em 1941.)
Esperaria ela que eu a fosse buscar à América? Isso era, precisamente, o que teria feito… se pudesse.
Pobre Margareta! e pobre de mim, que, sem culpa alguma, ainda hoje a sua lembrança me atormenta como um remorso…
"Novelas Eróticas", Manuel Teixeira Gomes
(Manuel Teixeira Gomes nasceu no dia 27 de Maio de 1860. Morreu em 1941.)
sexta-feira, 27 de maio de 2016
Manuel Teixeira Gomes 2
Rompeu, por fim, o sol, apressado e quente, sem que tivéssemos prestado atenção ao seu glorioso aparecimento, e começou a concertada faina de levantar o céu da armação. Logo aos primeiros movimentos a superfície da água, no recinto da armação, começou também de se encrespar, aqui e ali, de rolos de prata viva; eram pequenos cardumes de sardinha, que fugiam à voracidade do atum. Acudiu-se-lhe com umas redes triangulares, dobradiças, chamadas "muletas", que facilmente a apanhavam e distribuíam pelos convidados. Nós já tínhamos o nosso fogareiro de barro preparado, à espera, com a lata sobre as brasas; ali, em poucos minutos, ficava a sardinha assada, e logo era comida mesmo na ponta da unha, com pão de toda a farinha, minheiro e ainda quente do forno, e regado com um "tinto" áspero de surdo flavor, trazido adrede para aquela função já certa.
Apenas a água principiou a ferver, com a revolução do peixe que se aproximava da superfície, rompeu a mais tremenda gritaria e algazarra de que tenho memória, e que ainda redobrou ao aparecimento dos primeiros atuns. Começou então a toirada.
Sucedeu que o primeiro atum arpoado se escapou, e caído à água com tal velocidade parecia voar, jorrando sangue que o acompanhava de um rasto de púrpura. A assuada ao marujo infeliz foi medonha, e vi jeitos de o atirarem à água. Mas é que os primeiros atuns que apareciam, tendo ainda campo para nadar, fugiam das barcas, enquanto os marujos, abrindo os braços, e com grandes pancadas no costado das lanchas, os incitavam às sortes, como se fossem bois.
Isso, porém, durou pouco. Entre borbolhões de espuma assomou logo uma densa camada de peixe, e tão apertada pelo costado das barcas, que os marujos quase lhe davam às cegas, levantando uma cabeça de cada arpoada.
Viu-se então que o atum era de bom calibre e muito. Ao meu lado, um perito amador, mas de reconhecida autoridade, ia-o contando, e quando chegou aos quinhentos verificou-se que não fazia falta no copo, onde continuava a afluir em camadas igualmente densas.O sangue e a água, misturados, soltavam-se aos cachões, envolvendo os peixes em línguas de púrpura cristalina, e ao centro da rede faziam remoinho, abrindo um poço fundo e largo, por cujas paredes transparentes giravam, desvairados, os grandes bichos cintilantes.
"Uma copejada de atum", Manuel Teixeira Gomes
(Manuel Teixeira Gomes nasceu no dia 27 de Maio de 1860. Morreu em 1941.)
Sucedeu que o primeiro atum arpoado se escapou, e caído à água com tal velocidade parecia voar, jorrando sangue que o acompanhava de um rasto de púrpura. A assuada ao marujo infeliz foi medonha, e vi jeitos de o atirarem à água. Mas é que os primeiros atuns que apareciam, tendo ainda campo para nadar, fugiam das barcas, enquanto os marujos, abrindo os braços, e com grandes pancadas no costado das lanchas, os incitavam às sortes, como se fossem bois.
Isso, porém, durou pouco. Entre borbolhões de espuma assomou logo uma densa camada de peixe, e tão apertada pelo costado das barcas, que os marujos quase lhe davam às cegas, levantando uma cabeça de cada arpoada.
Viu-se então que o atum era de bom calibre e muito. Ao meu lado, um perito amador, mas de reconhecida autoridade, ia-o contando, e quando chegou aos quinhentos verificou-se que não fazia falta no copo, onde continuava a afluir em camadas igualmente densas.O sangue e a água, misturados, soltavam-se aos cachões, envolvendo os peixes em línguas de púrpura cristalina, e ao centro da rede faziam remoinho, abrindo um poço fundo e largo, por cujas paredes transparentes giravam, desvairados, os grandes bichos cintilantes.
"Uma copejada de atum", Manuel Teixeira Gomes
(Manuel Teixeira Gomes nasceu no dia 27 de Maio de 1860. Morreu em 1941.)
quarta-feira, 27 de maio de 2015
Manuel Teixeira Gomes
Não há palavras que descrevam as maravilhas do seu corpo, a sua carne rosada e firme desmaiando, nas curvas, no tom mate de açucena; os pés de estátua grega; o ventre polido e retraído, nascendo das coxas roliças como um escudo de prata fosca e partindo-se, no remate, para inflar nos dois agudos pomos a que as vacilantes chamas do fogão davam reflexos iriados; e os longos braços a um tempo frágeis e marmóreos!...
Os meus lábios cobriam sofregamente a carne que aparecia enquanto as mãos teciam em volta do seu corpo uma apertadíssima rede de carícias...
"Novelas Eróticas", Manuel Teixeira Gomes
(Manuel Teixeira Gomes nasceu no dia 27 de Maio de 1860. Morreu em 1941.)
Os meus lábios cobriam sofregamente a carne que aparecia enquanto as mãos teciam em volta do seu corpo uma apertadíssima rede de carícias...
"Novelas Eróticas", Manuel Teixeira Gomes
(Manuel Teixeira Gomes nasceu no dia 27 de Maio de 1860. Morreu em 1941.)
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