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quarta-feira, 9 de junho de 2021

José Gomes Ferreira 9

Nunca encontrei um pássaro morto na floresta.
Em vão andei toda a manhã
a procurar entre as árvores
um cadáver pequenino
que desse o sangue às flores
e as asas às folhas secas…
Os pássaros quando morrem
caem no céu.

"Poeta Militante", José Gomes Ferreira

(José Gomes Ferreira nasceu no dia 9 de Junho de 1900. Morreu em 1985.)

terça-feira, 9 de junho de 2020

José Gomes Ferreira 8

Quero voar

Quero voar
- mas saem da lama
garras de chão
que me prendem os tornozelos.

Quero morrer
- mas descem das nuvens
braços de angústia
que me seguram pelos cabelos.

E assim suspenso
no clamor da tempestade
como um saco de problemas
- tapo os olhos com as lágrimas
para não ver as algemas...

(Mas qualquer balouçar ao vento me parece Liberdade.)


José Gomes Ferreira

(José Gomes Ferreira nasceu no dia 9 de Junho de 1900. Morreu em 1985.)

domingo, 9 de junho de 2019

José Gomes Ferreira 7

O amor que sinto

O amor que sinto
é um labirinto.

Nele me perdi
com o coração
cheio de ter fome
do mundo e de ti
(sabes o teu nome),
sombra necessária
de um Sol que não vejo,
onde cabe o pária,
a Revolução
e a Reforma Agrária
sonho do Alentejo.
Só assim me pinto
neste Amor que sinto.

Amor que me fere,
chame-se mulher,
onda de veludo,
pátria mal-amada,
chame-se "amar nada"
chame-se "amar tudo".

E porque não minto
sou um labirinto.


José Gomes Ferreira

(José Gomes Ferreira nasceu no dia 9 de Junho de 1900. Morreu em 1985.)

sábado, 9 de junho de 2018

José Gomes Ferreira 6

Entrei no café com um rio na algibeira 

Entrei no café com um rio na algibeira
e pu-lo no chão,
a vê-lo correr
da imaginação...

A seguir, tirei do bolso do colete
nuvens e estrelas
e estendi um tapete
de flores
a concebê-las.

Depois, encostado à mesa,
tirei da boca um pássaro a cantar
e enfeitei com ele a Natureza
das árvores em torno
a cheirarem ao luar
que eu imagino.

E agora aqui estou a ouvir
a melodia sem contorno
deste acaso de existir
- onde só procuro a Beleza
para me iludir
dum destino.

José Gomes Ferreira

(José Gomes Ferreira nasceu no dia 9 de Junho de 1900. Morreu em 1985.)

sexta-feira, 9 de junho de 2017

José Gomes Ferreira 5

Dá-me a tua mão
 
Dá-me a tua mão.
Deixa que a minha solidão
prolongue mais a tua
- para aqui os dois de mãos dadas
nas noites estreladas,
a ver os fantasmas a dançar na lua.
 
Dá-me a tua mão, companheira,
até o Abismo da Ternura Derradeira.

"Poeta Militante I", José Gomes Ferreira

(José Gomes Ferreira nasceu no dia 9 de Junho de 1900. Morreu em 1985.)

quinta-feira, 9 de junho de 2016

José Gomes Ferreira 4

Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.


Quando nos sentíssemos cansados,
fartos do mesmo sol a fingir de novo todas as manhãs,
convocaríamos os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer:
"Fulano de tal comunica a V. Ex.ª que vai transformar-se
em nuvem hoje às 9 horas. Traje de passeio".

E então, solenemente, com passos de reter tempo,
fatos escuros, olhos de lua de cerimónia,
viríamos todos assistir à despedida.
Apertos de mãos quentes.
Ternura de calafrio.

"Adeus! Adeus!"

E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos...)
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão subtil... tão pólen...
como aquela nuvem além - vêem?


Nesta tarde de Outono ainda tocada por um vento de lábios azuis...

José Gomes Ferreira

(José Gomes Ferreira nasceu no dia 9 de Junho de 1900. Morreu em 1985.)

terça-feira, 9 de junho de 2015

José Gomes Ferreira 3

Viver sempre também cansa!

Viver sempre também cansa!

O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinzento, negro, quase-verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.

O mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.

As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.

Tudo é igual, mecânico e exacto.

Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.

E há bairros miseráveis sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida...

E obrigam-me a viver até à Morte!

Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois,
achando tudo mais novo?

Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.

Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
"Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela."

E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo...

José Gomes Ferreira

(José Gomes Ferreira nasceu no dia 9 de Junho de 1900. Morreu em 1985.)

segunda-feira, 9 de junho de 2014

José Gomes Ferreira 2

Eléctrico/XVIII

         (Todos os dias passo pelas Amoreiras
         quando vou para o laboratório de Campolide
         marcar filmes numa moviola)


Há lá renda que se assemelhe
a este tecido de árvores no Ar...
(Hei-de pedir à Maria Keil
para as pintar.)

Árvores do Jardim do Aqueduto
sem flor nem fruto,
nem nada de seu...

Só este azul de pássaros a cantar
que vai da terra ao céu.


José Gomes Ferreira

(José Gomes Ferreira nasceu no dia 9 de Junho de 1900. Morreu em 1985.)

domingo, 9 de junho de 2013

José Gomes Ferreira

Panfleto contra a paisagem/X

             (Futuro: este poema foi cortado pela Censura
             na revista "Vértice" de Coimbra. Acontecia isto no
             tempo do tiranete Salazar)

Apaga-te, lua!
- lâmpada dos lírios e dos cães.

Não finjas de alma
esta realidade violenta
que me dói até às raízes.

Não pintes de mistério
estas bocas de fome
onde só há metafísicas de pão negro.

Não abras asas
na planície das pedras
de fogo apodrecido.

Apaga-te lua!
Peço-te que te apagues!
Para os tímidos poderem amar-se à vontade na sombra sem olhos,
para os humilhados de botas rotas cantarem serenatas às castelãs de carne invisível,
para as feias se entregarem nuas e abertas ao sexo da noite,
para os trémulos morrerem heróicos em barricadas de imaginação,
para os famintos devorarem com volúpia de vergonha o pão verde dos caixotes,
para os cegos dizerem: "Não vemos porque não há luar!",
para os mendigos sonharem em voz alta que são reis a arrastar mantos negros,
para os escorraçados saírem dos canos lôbregos,
e forrarem o mundo de luz própria como as estrelas,
para os ladrões velhinhos arrombarem as caixas das esmolas
onde só os pobres deitaram moedas falsas,
para os visionários mergulharem as mãos na noite
em busca de outra lua sem vincos de caveira,
para as mães das caves convencerem os filhos: "Moramos num palácio às escuras"...

Ouviste, lua?
Apaga-te!
- lâmpada dos cães e dos poetas magros.


José Gomes Ferreira

(José Gomes Ferreira nasceu no dia 9 de Junho de 1900. Morreu em 1985.)