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segunda-feira, 6 de julho de 2020

João Abel 4

Apontamento

curvada ao peso
ao peso brutal
dos blocos de pedra
e os olhos no chão
os olhos na terra
anda na obra
levando o cimento
a pedra e a cal
ao mestre pedreiro

e curvada ao peso
ao peso da vida
de lágrimas secas
e sangue sem vida
traz o seu filho
preso nos panos
nas costas curvadas
ao peso brutal
do cimento e da areia
que leva cantando
ao mestre pedreiro


"Bom Dia", João Abel

(João Abel nasceu no dia 6 de Junho de 1938)

sábado, 6 de julho de 2019

João Abel 3

O mar não é só aquele interminável espaço

o mar não é só aquele interminável espaço
permanentemente ondulado pela tirania das marés

o mar também tem ruas
a ziguezaguear as suas serranias

e se tem ruas
também tem largos e avenidas
por onde desfilam os grandes carnavais

esquecidos dos becos
aonde nunca chegam as obras

João Abel

(João Abel nasceu no dia 6 de Junho de 1938)

sexta-feira, 6 de julho de 2018

João Abel 2

Bom dia

Ora então
bom dia minha gente
sadia

Aqui vai o meu bom dia enorme
polvilhado em toda a dimensão
da hora verdadeira em que nós somos gente
com toda a força de todos os caminhos
Bom dia por aí
cheio da beleza de tarefas de alegria
e senso positivo
rigorosamente positivo
tal como este instante de sol que nos abraça
neste bom dia apanágio
neste gesto sempre eterno
corre corre envolve tudo
no tudo deste bom dia

Bom dia irmã Salomé
pai João avó Rosária
sorrisos para vocês

Bom dia rios e pássaros
cidades e matagais
mussocos e estradas de mar
Bom dia rostos e rostos
palavras gestos e actos
minha sonata de vida
em cada gota de pão

Bom dia mãe Isabel
mãe do meu reino do mar
benção do meu procurar
dos meus sons e dos meus muros
Bom dia senhor doutor
Dona Chica carro grande
servente para o jardim
com uma flor diferente
para cada sol de manhã

Bom dia meninos de escola
bata branca suja d'óleo
pés descalços na lagoa
correndo minutos e horas

num Dinguir de aventuras
de cajús e tambarinos

Bom dia na palma da mão
na tela dos largos fantasmas
altas casas avessos cheios
fomes frios e sedes
gente toda minha gente
bom dia para vocês
em labaredas de rosas
campos e campos de asfalto
bandeiras astros e cantos

dedos frutos labirintos
medalhas e símbolos abertos
chuvas e feras e bruxos
logarítmos e átomos
sonos portas e estatutos
esquinas vontades e mitos
Oh terra da minha gente
ao suor desta manhã
aqui está o meu abraço
que eu grito no canto enorme
do calor do nosso sol
aberto de par em par
ao meu bom dia constante

Aqui estou eu homem todo
num gesto de amor total
em cada rosto que passa
cheio de pressa em chegar
sem geito de poder ir
Eu homem músculos barro
palavras e movimento
sangue nervos e vontade
no encontro comum dos sons
da manhã desta cidade
repetindo por aí fora
o meu bom dia de gente.


João Abel

(João Abel nasceu no dia 6 de Junho de 1938)

quinta-feira, 6 de julho de 2017

João Abel

Quando eu morrer

quando eu morrer
veste o teu vestido branco
e com uma rosa encarnada
vai encharcar-te de mar

bebe vento em cada gota
do encanto do dia a chegar
e entende as palavras todas
que te entrego som a som
na fúria verde do gesto
de um mirangolo qualquer

corre o círculo dos sorrisos
na firmeza da partida
e esquece o medo das nuvens
que abraçam a nossa distância

e se ao longe me vires a acenar
ri-te do louco que eu sou
por ainda pensar em ti

toda vestida de branco
desfolha a rosa encarnada
escreve o meu nome na praia
e vai encharcar-te de mar

João Abel

(João Abel nasceu no dia 6 de Julho de 1938)