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terça-feira, 3 de novembro de 2020

Ivan Junqueira 5

Morrer

Pois morrer é apenas isto:
cerrar os olhos vazios
e esquecer o que foi visto;

é não supor-se infinito,
mas antes fáustico e ambíguo,
jogral entre a história e o mito;

é despedir-se em surdina,
sem epitáfio melífluo
ou testamento sovina;

é talvez como despir
o que em vida não vestia
e agora é inútil vestir;

é nada deixar aqui:
memória, pecúlio, estirpe,
sequer um traço de si;

é findar-se como um círio
em cuja luz tudo expira
sem êxtase nem martírio.

"O Grifo", Ivan Junqueira

(Ivan Junqueira nasceu no dia 3 de Novembro de 1934. Morreu em 2014.)

domingo, 3 de novembro de 2019

Ivan Junqueira 4

Quase uma sonata

É música o rigor com que te moves
à fluida superfície do mistério,
os pés quase suspensos, a aérea
partitura do corpo, seus acordes.
Espaço e tempo são teu solo. E colhem,
não tanto a luz que entornas, mas o pólen
com que ela cinge e arroja as coisas mortas
além da espessa morte que as enrola.
E música o silêncio que te cobre
quando lampeja à noite tua nudez,
em franjas derramada sobre o leito
das águas, onde as algas te incendeiam
porque semelhas, mais que o mar profundo,
o intemporal princípio e fim de tudo.


"Opus Descontínuo", Ivan Junqueira

(Ivan Junqueira nasceu no dia 3 de Novembro de 1934. Morreu em 2014.)

sábado, 3 de novembro de 2018

Ivan Junqueira 3

Elegia íntima

Minha mãe chorando no fundo da noite
rachou o silêncio do quarto adormecido.
Meu pai olhava o escuro e não dizia nada,
Um relógio preto gotejava barulho.
Lá fora o vento lambia as espáduas do céu.
Minha mãe chorando no fundo da noite
Apunhalou o sono de Deus.


"Os Mortos", Ivan Junqueira

(Ivan Junqueira nasceu no dia 3 de Novembro de 1934. Morreu em 2014.)

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Ivan Junqueira 2

Esse punhado de ossos

A Moacyr Felix

Esse punhado de ossos que, na areia,
alveja e estala à luz do sol a pino
moveu-se outrora, esguio e bailarino,
como se move o sangue numa veia.

Moveu-se em vão, talvez, porque o destino
lhe foi hostil e, astuto, em sua teia
bebeu-lhe o vinho e devorou-lhe à ceia
o que havia de raro e de mais fino.

Foram damas tais ossos, foram reis,
e príncipes e bispos e donzelas,
mas de todos a morte apenas fez
a tábua rasa do asco e das mazelas. 

E ai, na areia anônima, eles moram.
Ninguém os escuta. Os ossos choram.

"Poemas Reunidos", Ivan Junqueira

(Ivan Junqueira nasceu no dia 3 de Novembro de 1934. Morreu em 2014.)

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Ivan Junqueira

E se eu disser

E se eu disser que te amo - assim, de cara,
sem mais delonga ou tímidos rodeios,
sem nem saber se a confissão te enfara
ou se te apraz o emprego de tais meios?
 

E se eu disser que sonho com teus seios,
teu ventre, tuas coxas, tua clara
maneira de sorrir, os lábios cheios
da luz que escorre de uma estrela rara?
 

E se eu disser que à noite não consigo
sequer adormecer porque me agarro
à imagem que de ti em vão persigo?
 

Pois eis que o digo, amor. E logo esbarro
em tua ausência - essa lâmina exata
que me penetra e fere e sangra e mata.


"Poemas Reunidos", Ivan Junqueira

(Ivan Junqueira nasceu no dia 3 de Novembro de 1934. Morreu em 2014.)