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terça-feira, 12 de março de 2019

Raul Brandão 5

Olhava este momento que ia desaparecer, com saudade - porque nunca mais se repetiria no mundo. Nunca mais outro segundo igual nem na luz, nem na vibração, nem na ternura...
O momento em que me sorriste, baloiçado entre o nada e o nada, nunca mais se voltaria a repetir, idêntico e completo, em todos os séculos a vir! Estava ali a morte... está aqui a vida. Agora pergunto a mim mesmo se te deixo morrer; e a pergunta obsidia-me e exige resposta imediata. Sei tudo, tudo o que me podes dizer - já eu o disse a mim próprio. Até hoje falava a alguma coisa que me ouvia, hoje só interrogo a mudez, só a mim próprio me interrogo.

"Húmus", Raul Brandão

(Raul Brandão nasceu no dia 12 de Março de 1867. Morreu em 1930.) 

segunda-feira, 12 de março de 2018

Raul Brandão 5

Mora aqui a D. Hermengarda e a D. Penarícia - mania! mania! mania! - hoje, amanhã, sempre - e a morte joga com a regularidade mecânica de um pêndulo. Toda esta gente usa a vida como quem usa uma ninharia. Aí vem a Adelina... A Timótea se tivesse de envenenar a vila, envenenava-a às pinguinhas. Há os que se gastam como quem gasta uma pedra sobre outra pedra. O Félix procurador não avança palavra sem dobrar a língua, e conserva no escritório, em rimas de papel cobertas de pó, a história da ganância, da vida e da morte de várias gerações. O severo Elias deixa morrer a mãe à fome e todos os anos dá contos de réis aos asilos. Regula a consciência como quem dá corda a um relógio. Dívidas são dívidas. Tem regras fixas. Para não ver o céu dobra-se sobre livros exatos: de um lado Deve, do outro Haver. O drama do Anacleto é um drama respeitável, um drama por partidas dobradas, na máxima ordem e no máximo escrúpulo. Cabem aqui dentro as velhas cismáticas, atrás de interesses, de paixões ou de simples ninharias, dissolvendo-se no éter, e logo substituídas por outras velhas, com as mesmas ou outras plumas nos penantes, com os mesmos ou outros ridículos, fedorentas e maníacas; os homens a quem se foram apegando pela vida fora dedadas de mentira, prontos para a cova - e o Gabiru e o seu sonho. Cabe aqui o céu e as lambisgóias com as suas mesuras, a morte e a bisca-de-três. E cabe aqui também uma velha criada, que se não tira diante dos meus olhos. Obsidia-me. Carrega. Obedece.
Serve as outras velhas todas. A Joana é uma velha estúpida.

 
"Húmus", Raul Brandão

(Raul Brandão nasceu no dia 12 de Março de 1867. Morreu em 1930.)

domingo, 12 de março de 2017

Raul Brandão 4

13 de Novembro
Ouço sempre o mesmo ruído de morte que devagar rói e persiste...
Uma vila encardida - ruas desertas - pátios de lajes soerguidas pelo único esforço da erva - o castelo - restos intactos de muralha que não têm serventia: uma escada encravada nos alvéolos das paredes não conduz a nenhures. Só uma figueira brava conseguiu meter-se nos interstícios das pedras e delas extrai suco e vida. A torre - a porta da Sé com os santos nos seus nichos - a praça com árvores raquíticas e um coreto de zinco. Sobre isto um tom denegrido e uniforme: a humidade entranhou-se na pedra, o sol entranhou-se na humidade. Nos corredores as aranhas tecem imutáveis teias de silêncio e tédio e uma cinza invisível, manias, regras, hábitos, vai lentamente soterrando tudo. Vi, não sei onde, num jardim abandonado - inverno e folhas secas - entre buxos do tamanho de árvores, estátuas de granito a que o tempo corroera as feições. Puíra-as e a expressão não era grotesca mas dolorosa. Sentia-se um esforço enorme para se arrancarem à pedra. Na realidade isto é como Pompeia um vasto sepulcro: aqui se enterraram todos os nossos sonhos... Sob estas capas de vulgaridade há talvez sonho e dor que a ninharia e o hábito não deixam vir à superfície. Afigura-se-me que estes seres estão encerrados num invólucro de pedra: talvez queiram falar, talvez não possam falar.
Silêncio. Ponho o ouvido à escuta e ouço sempre o trabalho persistente do caruncho que rói há séculos na madeira e nas almas.
 
"Húmus", Raul Brandão

(Raul Brandão nasceu no dia 12 de Março de 1867. Morreu em 1930.)

terça-feira, 12 de março de 2013

Raul Brandão

Desde que se cumpram certas cerimónias ou se respeitem certas fórmulas, consegue-se ser ladrão e escrupulosamente honesto - tudo ao mesmo tempo. A honradez deste homem assenta sobre uma primitiva infâmia. O interesse e a religião, a ganância e o escrúpulo, a honra e o interesse, podem viver na mesma casa, separados por tabiques. Agora é a vez da honra - agora é a vez do dinheiro - agora é a vez da religião. Tudo se acomoda, outras coisas heterogéneas se acomodam ainda. Com um bocado de jeito arranja-se-lhes sempre lugar nas almas bem formadas.

"Húmus", Raul Brandão

(Raul Brandão nasceu no dia 12 de Março de 1867. Morreu em 1930.)