Sede
Magoava os olhos, o sol.
E a fresta entreaberta da janela
Deixava entrar um bafo morno e mole.
Tua blusa amarela,
Naquele ambiente cálido e pesado,
Era uma flor de estufa que se abria
Donde surgia,
Como seu estame airoso e delicado,
O teu branco pescoço
E a tua cabeça meiga e fria.
Toda a frescura da manhã passada
E a doçura da tarde que viria
Fresca e perfumada
Estava ali concentrada
Nessa loira cabeça sossegada,
Nessa flor amarela que se abria...
Assim, no ambiente do meu quarto,
Quando abro as asas do meu sonho e parto,
Como flor que guarda
Nas horas de canícula, na corola,
A gota de água heroica e resignada,
Da flor que és, consolador, se evola
Todo o frescor que a minha sede aguarda,
Silenciosa, cálida, pesada.
Francisco Bugalho
(Francisco Bugalho nasceu no dia 26 de Julho de 1905. Morreu em 1949.)
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quinta-feira, 26 de julho de 2018
quarta-feira, 26 de julho de 2017
Francisco Bugalho 3
Carícias sábias minhas mãos buscaram
Por teu corpo em botão, alvorescente;
E meus lábios sonâmbulos pisaram
Branduras de veludo alvo e dormente.
Triunfos nos meus olhos despontaram,
E gritos de clarim e de trombeta
Em meus ouvidos sôfregos soaram,
Como cantos de amor dalgum poeta.
Ritmos de doçuras e quebrantos,
Corpos vergados como dois acantos,
Gritaram alto que era doce a vida.
Apertei-te na ânsia de perder-te
E quando regressei voltei a ver-te:
Vi-te ainda mais longe e mais perdida.
Francisco Bugalho
(Francisco Bugalho nasceu no dia 26 de Julho de 1905. Morreu em 1949.)
Por teu corpo em botão, alvorescente;
E meus lábios sonâmbulos pisaram
Branduras de veludo alvo e dormente.
Triunfos nos meus olhos despontaram,
E gritos de clarim e de trombeta
Em meus ouvidos sôfregos soaram,
Como cantos de amor dalgum poeta.
Ritmos de doçuras e quebrantos,
Corpos vergados como dois acantos,
Gritaram alto que era doce a vida.
Apertei-te na ânsia de perder-te
E quando regressei voltei a ver-te:
Vi-te ainda mais longe e mais perdida.
Francisco Bugalho
(Francisco Bugalho nasceu no dia 26 de Julho de 1905. Morreu em 1949.)
terça-feira, 26 de julho de 2016
Francisco Bugalho 2
Dois meninos
Meu menino canta, canta
Uma canção que é ele só que entende
E que o faz sorrir.
Meu menino tem nos olhos os mistérios
Dum mundo que ele vê e que eu não vejo
Mas de que tenho saudades infinitas.
As cinco pedrinhas são mundos na mão.
Formigas que passam,
Se brinca no chão,
São seres irreais...
Meu menino de olhos verdes como as águas
Não sabe falar,
Mas sabe fazer arabescos de sons
Que têm poesia.
Meu menino ama os cães,
Os gatos, as aves e os galos,
(São Francisco de Assis
Em menino pequeno)
E fica horas sem fim,
Enlevado, a olhá-los.
E ao vê-lo brincar, no chão sentadinho,
Eu tenho saudades, saudades, saudades
Dum outro menino...
"Canções de Entre Céu e Terra", Francisco Bugalho
(Francisco Bugalho nasceu no dia 26 de Julho de 1905. Morreu em 1949.)
Meu menino canta, canta
Uma canção que é ele só que entende
E que o faz sorrir.
Meu menino tem nos olhos os mistérios
Dum mundo que ele vê e que eu não vejo
Mas de que tenho saudades infinitas.
As cinco pedrinhas são mundos na mão.
Formigas que passam,
Se brinca no chão,
São seres irreais...
Meu menino de olhos verdes como as águas
Não sabe falar,
Mas sabe fazer arabescos de sons
Que têm poesia.
Meu menino ama os cães,
Os gatos, as aves e os galos,
(São Francisco de Assis
Em menino pequeno)
E fica horas sem fim,
Enlevado, a olhá-los.
E ao vê-lo brincar, no chão sentadinho,
Eu tenho saudades, saudades, saudades
Dum outro menino...
"Canções de Entre Céu e Terra", Francisco Bugalho
(Francisco Bugalho nasceu no dia 26 de Julho de 1905. Morreu em 1949.)
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domingo, 26 de julho de 2015
Francisco Bugalho
Caminhos
Para quê, caminhos do mundo,
Me atraís? - Se eu sei bem já
Que voltarei donde parto,
Por qualquer lado que vá.
Pra quê? - Se a Terra é redonda;
E, sempre, tem de cumprir-se
A sina daquela onda
Que parece vai sumir-se,
Mas que volta, bem mais débil,
Ao meio do lago, onde
A mãe, gota de água flébil,
Há muito tempo se esconde.
Pra quê? - Se a folha viçosa
Na Primavera, feliz,
Amanhã será, gostosa,
Alimento da raiz.
Pra quê, caminhos do mundo?
Pra quê, andanças sem Fim?
Se todo o sonho profundo
Deste Mundo e do Outro-Mundo,
Não está neles, mas em mim.
"Paisagem", Francisco Bugalho
(Francisco Bugalho nasceu no dia 26 de Julho de 1905. Morreu em 1949.)
Para quê, caminhos do mundo,
Me atraís? - Se eu sei bem já
Que voltarei donde parto,
Por qualquer lado que vá.
Pra quê? - Se a Terra é redonda;
E, sempre, tem de cumprir-se
A sina daquela onda
Que parece vai sumir-se,
Mas que volta, bem mais débil,
Ao meio do lago, onde
A mãe, gota de água flébil,
Há muito tempo se esconde.
Pra quê? - Se a folha viçosa
Na Primavera, feliz,
Amanhã será, gostosa,
Alimento da raiz.
Pra quê, caminhos do mundo?
Pra quê, andanças sem Fim?
Se todo o sonho profundo
Deste Mundo e do Outro-Mundo,
Não está neles, mas em mim.
"Paisagem", Francisco Bugalho
(Francisco Bugalho nasceu no dia 26 de Julho de 1905. Morreu em 1949.)
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