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quinta-feira, 10 de outubro de 2024

Deus lhe conserve a vistinha!

Havia um cego que tinha olho. Era de fora, o cego, não me lembro de onde é que vinha nem quem o trazia, mas ele fazia a feira de Fafe, todas as semanas, e safava-se mais ou menos, segundo me parecia. Às quartas-feiras, sem falta, parava à beira da minha rua, o Santo Velho, entre o tasco do Zé Manco e a loja das Turicas, na Rua Monsenhor Vieira de Castro, encostado à parede das casas sem passeio, decerto para aproveitar também as revoadas de povo da Fábrica de Ferro que por ali passava obrigatoriamente nas horas de troca de turnos. Eu bem disse, o homem era cego, mas tinha olho.
Vinha o cego e a mobília, isto é, a bengala de madeira pintada às listas brancas e vermelhas como a camisola do Leixões, mas na horizontal, um banco velho e o acordeão. Era um cego cantor. Cantor, pobre e pedinte, como a maioria dos cegos portugueses daquele tempo. O nosso prodigioso Augusto Fera era uma honrosa excepção. E o nosso Belinho, outro que tal. De resto, as saídas profissionais dos cegos, naquela altura, resumiam-se, regra geral e lotarias à parte, às esquinas e às cantigas, de preferência acompanhadas à sanfona. O acordeão fazia parte do curso de cego. O cego das nossas quartas-feiras cantava em tons trágicos e rima fácil aquelas estórias de amor e ciúme, faca e alguidar, que anos mais tarde são agora o ganha-pão das nossas televisões e dos nossos jornais. E, se bem me lembro, vendia folhetos impressos com os tenebrosos versos das tragédias reveladas e ainda com mais pormenores, mais desenvolvimento, a papelada presa por alfinetes ao casaco remendado e grande. Era o cordel, como ainda hoje se usa no Brasil.
Muito gostava eu de o ouvir! Éramos praticamente amigos, eu e o cego. Falávamos. Sabia-lhe as cantorias todas de cor, menos as novas, sempre dependentes da mais recente e escabrosa actividade criminal. O cego era, à sua maneira e para meu enlevo, mais uma atracção de feira, um espectáculo, Deus me perdoe. E apreciava-lhe também os intervalos repentinos, cirúrgicos, mal se precatava de passos à distância, e então, teatralmente, estendia a mão à caridade e declamava em voz arrastada, dramática, pungente, martelando sílaba a sílaba, e com potência de megafone: - Uma esmolinha ao ceguinho! Uma esmolinha!! Senhor! Senhora! Olhe que é muito triste não poder ver...
Caía a esmola ou não, o cego às vezes não sabia, por razão de força maior, mas rematava sempre, num golpe de mestre: - Muito obrigado, senhor! Muito obrigado, senhora! Deus lhe conserve a vistinha!
Eu apetecia-me aplaudir. E, mais, já tinha visto Laurence Olivier no cinema e na televisão.
Ceguinho. Isso. O cego dizia "olhe", molageiro. Castigador. A minha mãe tinha razão. A minha mãe tinha sempre razão, e agora ainda tem mais, derivado à idade, e a minha irmã Nanda é que aguenta. Mas então. A minha mãe não me deixava chamar cego ao cego, era O Ceguinho, olha o respeito!, e quem for de Fafe sabe muito bem a estima que colocamos no sufixo inho/inha, que tão amiúde utilizamos ou pelos menos utilizávamos. Até O Ceguinho, coitadinho, dizia que era cego, ceguinho, mas hoje em dia estaria enganado e seria severamente corrigido, parece tolo o raio do cego! Não. Pessoas de bem, modernas, civilizadas, cultas, vigilantes, palavristas, dir-lhe-iam que agora é invisual, não há cá cegos nem ceguinhos, isso só para os árbitros de futebol e devagarinho.
Dizem-me que o cego é invisual, e eu não me acredito. Ou então, se o cego é invisual, o surdo é insonoro, sim, insonoro. E o manco é impodal e o maneta é imanual. É! Uma geral, nem mais nem menos. Aqui não há filhos e enteados. Esta terra de invisuais e quem possui um olho é monarca, já foi chão que deu uvas. Ou há moralidade ou comem todos. E só não vê isto quem não quer. Mas lá está, como diz o povo e com razão, o pior invisual é aquele que se recusa a vislumbrar...

P.S. - Hoje é Dia Mundial da Visão.

Há dias assim

 Hoje é Dia Mundial da Visão. E é também dia da Sábado, que agora sai às quintas.

P.S. - Hoje é Dia Mundial da Visão.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

Acima de sargento

A ver se nos entendemos, finalmente: os óculos graduados são todos para cima de sargento?

P.S. - Hoje é Dia Nacional do Sargento.

quinta-feira, 12 de outubro de 2023

A vida feita num oito

Hoje é Dia Mundial da Visão. E eu, no entanto, vou ao dentista. Quer-se dizer, tenho a minha vida feita num oito.

quinta-feira, 13 de outubro de 2022

Os óculos são como os cornos

Os óculos são como as luvas, as calças, as meias, as botas, os patins, as jarras, os estalos, os cornos e outras coisas boas da vida - vêm aos pares. Ocorreu-me este acutilante pensamento porque precisei de mudar de óculos. E então: "Estes óculos fazem-me um bocado palerma", disse eu à menina da loja, mirando-me no espelho. "Não diga um coisa dessas, por acaso até lhe ficam muito bem", disse-me a menina da loja. "Exactamente, é isso que eu quero dizer: estes óculos favorecem-me. Normalmente sou palerma completo", esclareci.

P.S. - Hoje é Dia Mundial da Visão.

Salta aos olhos

Tinha mais olhos do que barriga. Isto é: tinha dois olhos e somente uma barriga, posto que as barrigas das pernas não contam para a questão em apreço. Era, portanto, uma pessoal normal.

Pontos de vista

Eu tenho uma certa maneira de ver as coisas, isso é verdade. Mas não possuo aquilo a que se possa chamar um prisma, uma óptica, sequer um ângulo que se diga. Tivesse-os eu, e vendia-os...

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Um bocado palerma

Os óculos são como as luvas, as calças, as meias, as botas, os patins, as jarras, os estalos, os cornos e outras coisas boas da vida - vêm aos pares. Ocorreu-me este acutilante pensamento porque precisei de mudar de óculos. E então: "Estes óculos fazem-me um bocado palerma", disse eu à menina da loja, mirando-me no espelho. "Não diga um coisa dessas, por acaso até lhe ficam muito bem", disse-me a menina da loja. "Exactamente, é isso que eu quero dizer: estes óculos favorecem-me. Normalmente sou palerma completo", esclareci.

Para cima de sargento

Posso fazer uma pergunta? Pronto, já fiz. E agora outra: os óculos graduados são todos para cima de sargento?...

Grande olho!

"Aqui não há qual-quer-ti-po-de-dú-vi-da", garantiu de imediato o locutor da televisão. Sou desconfiado quanto às certezas. Portanto resolvi accionar a minha lista de verificação de tipos de dúvidas, ou, como dizemos nós, os especialistas em língua portuguesa e apugilistas do acordo ortográfico, a ultimate checklist.
E então:
- Dúvida metódica? - Não.
- Dúvida caótica? - Não.
- Dúvida cartesiana? - Não.
- Dúvida sebastiânica? - Não.
- Dúvida hiperbólica? - Não.
- Dúvida hiperbárica? - Não.
- Dúvida sensível? - Não.
- Dúvida cruel? - Não.
- Dúvida do sonho? - Não.
- Dúvida do pesadelo? - Não.
- Dúvida metafísica? - Não.
- Dúvida metaquímica? - Não.
- Dúvida razoável? - Não.
- Dúvida insensata? - Não. 
- Sombra de dúvida? - Não.
- Sol de dúvida? - Não.
- Sol na eira e chuva no nabal... da dúvida? - Não.
- Na dúvida pró réu? - Não.
- E pluribus unum? - Não.
- In vino veritas? - Não.
- Branco ou tinto? - Não. 
Pronto. Tinha razão o locutor da televisão. Grande olho! Excelente visão! Não havia ali realmente "qual-quer-ti-po-de-dú-vi-da", dúvida de feitio nenhum: após as repetições, era fora-de-jogo como uma casa...

Óculos à carga

É desagradável. Pousar os óculos e depois não saber onde. E precisar deles para os procurar. E pegar no telemóvel para lhes ligar, obrigando-os a darem sinal de si. E então lembrar-me de que nunca pus os óculos a carregar.

Vendo pontos de vista para o mar

Eu tenho uma certa maneira de ver as coisas, isso é verdade. Mas não possuo aquilo a que se possa chamar um prisma, uma óptica, sequer um ângulo que se diga. Tivesse-os eu, e vendia-os...

Ponto de vista

Aventureiro por natureza, o ponto de vista só tinha um medo - as cataratas. 

Ilusão de óptica

Era uma ilusão de óptica. Até parecia, mas vista de perto não vendia óculos e similares. Era apenas uma loja de fazendas...

O bom racista

A olho nu não se percebe, mas ao microscópio (isto é, vestindo o olho) chega-se lá: o racismo divide-se em duas partes e há uma nanométrica diferença entre o racista bom e o racista mau. O bom racista começa as frases dizendo - Eu não sou racista mas. 

Visão divina

Deus vê tudo. Mas fecha os olhos.

P.S. - Hoje, 14 de Outubro, é Dia Mundial da Visão.