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quarta-feira, 20 de maio de 2026

O araújo no olho

Pontos de vista
Apareceram-lhe uns pontos de vista um bocado esquisitos. Da noite para o dia. E ele assustou-se. Pelo sim e pelo não, foi ao oftalmologista.

Ter um araújo no olho é uma daquelas expressões pândegas que vieram comigo de Fafe, e nem vou dizer que ela seja apenas nossa, exclusiva, mas que terá sido parida cá por estas bandas, isso já sou capaz de arriscar. Araújo é sobrenome galego e português de origem nobre medieval, também possível de encontrar escrito como Araujo ou Araúxo, mas serve igualmente de topónimo e nem é preciso ir mais longe, basta dar um salto aqui ao lado, ao antigo apeadeiro de Araújo, actual estação do Metro do Porto, em Leça do Balio.
Araújo, nome de pessoa e de sítio, está visto, mas também, há quem diga, denominação de uma variante da árvore araúja. Para nós, porém, os fafenses velhos e irredutíveis, araújo é partícula que entra no olho acidentalmente, grão de pó, minúscula maravalha, bíblico argueiro, cisco, arujo. Arujo, exactamente arujo, vocábulo fidedigno e certificado de onde facilmente derivou a nossa arisca porém bem desenrascada corruptela.
Ter um araújo no olho. Outro dia, sem mais nem menos, lembrei-me da expressão antiga, e nem faço ideia de há quantos anos não lhe punha a vista em cima nem lhe dava uso. Perguntei à Mi se a conhecia de algum lado, à expressão, se já a teria dito ou pelo menos ouvido. E ela disse-me que não. Fiquei varado! Quer-se dizer: a minha mulher, rapariga da nossa idade, nasceu no Porto, na Foz, mas é filha de pais rústicos, o meu sogro de Baião e a minha sogra de Canelas, Gaia. Isto é, a minha mulher tinha obrigação, e, vai-se a ver, nada...
Nada, também não é bem assim. Sobre araújos, a minha mulher fez questão de explicar-me que sabia era a famosa anedota que mete marinheiros e aviadores. Aquela que pergunta: se quem trabalha no mar é marujo, porque é que quem trabalha no ar não é araújo? Isso.
Ter um araújo no olho. A expressão. Não é anedota, definitivamente não é uma anedota, mas que se põe a jeito, lá isso...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia da Marinha e Dia Europeu do Mar.)

segunda-feira, 20 de maio de 2024

O mar começa em Fafe

Os oceanos são cinco, tirando o Oceano do Sporting, que não conta para o totobola, e a Barragem de Queimadela, omissa no rol por manifesta velhacaria. Portanto, são exactamente cinco os oceanos: Atlântico, Pacífico, Índico, Glacial Árctico e Glacial Antárctico ou Austral. São cinco e abriram um restaurante logo ao virar da esquina e com garagem "Reservada a clientes", ao lado da minha porta, em Matosinhos. O restaurante chama-se muito apropriadamente Restaurante 5 Oceanos e, não sendo grande coisa, é mais ou menos famoso. Que se segue: hoje é Dia Europeu do Mar e, em Portugal, é também Dia da Marinha, que este ano ancorou as celebrações oficiais outra vez cá em cima como quem diz, em Aveiro mais propriamente. Eu, se mandasse, marcava já para Fafe o Dia da Marinha do próximo ano, encaixado entre as Feiras Francas e a Senhora de Antime e aproveitando a embalagem do rali. E era justo. Porque, para quem não sabe, o mar começa em Fafe, pelo menos um bocadinho...

quinta-feira, 20 de maio de 2021

Delícias do mar

Areia macia e morna, água, o sal da terra, cheiro a argaço, sol quando Deus quer, a brisa nas ventas, o falar das ondas, o silêncio do horizonte a ganhar de vista, madrugadas de pés molhados, ocasos de fogo, Apúlia, um fino bem tirado, pescadores, peixeiras, surfistas, parassurfistas, ciclistas e todos os tipos de nudistas, a Foz, Matosinhos, a ver navios, os números do Porto de Leixões, camarão da costa, gambas no Peixoto de Fafe que já não é, cracas em São Mateus, alcatra de peixe no Boca Negra, lapas em casa do Victor e da Ana, ilha Terceira, ilha Terceira, ilha Terceira, ecos de Nemésio, mexilhões de vinagreta, masoquistas esturricando agosto e areando os entrefolhos, amêijoas à Bulhão Pato no portinho de Âncora, o bacalhau assado na brasa do Senhor Álvaro em Valença, o bacalhau assado no forno pela minha mãe, o bacalhau de quarto da minha avó de Basto, os bolinhos de bacalhau da minha avó da Bomba, a punheta de bacalhau do meu cunhado Álvaro, as trutas "do Coura" do querido amigo Vilaça Pinto, que, palavra de honra, era como se fossem marítimas, polvo de molho-verde, as lulas recheadas da minha sogra, as sardinhas da Dona Dina, navalhas na chapa, arroz de tomate com petinga, ou com jaquinzinhos, ou arroz de grelos com, ou arroz de feijão com, mas malandro, malandro, malandro, ou, supra-sumo dos supra-sumos, o arroz de feijão vermelho com grelos e bacalhau frito da minha cunhada Isabel, fanecas, biqueirão, marmotinha de rabo na boca, filetes de peixe-galo, a raia frita no Salta o Muro aqui à porta, a lagosta na ilha de São Jorge comida à ganância e à moina, as percebes na ilha do Sal, as bandejas nas rias galegas, carapaus grelhados no quintal do meu sogro, ostras de Setúbal degustadas em Bordéus, a mastodôntica cabeça de pescada que vou cozer para o jantar, os tremoços da Marrequinha da Recta. Isto são delícias do mar. Outra coisa não:
Fitas de nastro tingidas de cor-de-rosa gomitado, cortadas em palitos empacotados em vácuo e refrigerados e vendidos à babuge nos supermercados não são, por mais que lhes chamem, delícias do mar! Não, não e não!

P.S. - Publicado originalmente no dia 17 de Dezembro de 2017. Hoje, 20 de Maio, é Dia Europeu do Mar e Dia da Marinha.

Sete mares e mais um

Mar Asmo
Mar Telo
Mar Celo

Mar Mita
Mar Mota
Mar Sapo
Mar Fim

Mar Ibela e Seu Rola-Rola

Os oceanos são cinco, todos ao virar da esquina

Os oceanos são cinco: Atlântico, Pacífico, Índico, Glacial Árctico e Glacial Antárctico ou Austral. E têm um restaurante aqui ao virar da esquina e com garagem "Reservada a clientes" ao lado da minha porta. O restaurante chama-se muito apropriadamente Restaurante 5 Oceanos. Que se segue: hoje é Dia Europeu do Mar.