Matosinhos à tarde. Sol que era um consolo. O casal descia a rua, a minha, em direcção ao mar, puxado pela trela do pequeno
cocker. Eis senão quando, porventura desarranjado pelo
strogonoff de
vitela e leite-creme que lhe serviram ao almoço, o aflito canídeo arriou as calças e
cagou ali mesmo em pleno passeio, com evidente alívio pessoal e grande
satisfação dos babados papás. Acabada a obra, a madama, higiene e
civismo acima de tudo, foi à carteira e retirou um lenço de papel de um
branco imaculado, abriu-o, ao lenço casto, e voltou a dobrá-lo,
liturgicamente, agora apenas em dois, baixou-se, quase que me pareceu
que se benzia, e... limpou o cu ao cão. Depois amarrotou o papel e
lançou-o para junto do saralhoto. No meio do passeio. Do meu. E lá
seguiram os três para o mar e para o sol, dois deles puxados pela trela.
A autarquia agradece. Faz colecção. No brasão de Lisboa figuram corvos,
no de Matosinhos deveriam desenhar saralhotos. A cidade de Matosinhos,
para além das
muitas outras coisas muito boas, é isto: não há passeios que cheguem
para tanta merda de cão. E não é só Matosinhos, embora Matosinhos abuse. E a culpa não é do cão.
Volto ao enternecedor quadro urbano que pincelei o melhor que pude e soube no longínquo Outubro de 2011, então sob o acutilante título "Matosinhos, sol e saralhotos". E volto, uma década depois e por esta mesma altura do ano, porque a situação piorou drasticamente, está que não se pode. É merda por todos os lados, se me dão licença, e há quem se convença que são ornamentações de Natal. Não são! São mesmo saralhotos de cão, cada vez mais e cada vez maiores, saralhotos nojentos que tomaram conta dos passeios e das ruas, já não se pode pôr pé fora de casa. A coisa alcançou proporções dramáticas. Dantescas. Apocalípticas. É caso de calamidade pública, já vem tarde o alerta vermelho de colapso iminente. É o fim do mundo, pelo menos em Matosinhos, e eu nunca pensei que o fim do mundo fosse este monte de merda.
Muitos temem que Matosinhos desapareça do mapa, num futuro mais ou menos próximo, derivado ao aquecimento global, ao degelo e à subida do nível das águas do mar. Néscios! O fim, o afogamento de Matosinhos é agora, está a ser, submersa a cidade num irreprimível turbilhão de saralhotos de cão. E - insisto - a culpa não é do cão.
P.S. - Hoje, 30 de Novembro, é Dia Internacional da Cidade Educadora. É também Dia das Cidades pela Vida, isto é, das cidades contra a pena de morte.