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sábado, 17 de agosto de 2019

Óscar Ribas 6

E como a água que chuchurreia no açude, Maria cantou flebilmente:
Minha mãe, minha mãe,
por que nasci?
Como cachorra fui comprada,
como cadela fui vendida!
Não tenho pai, nem mãe, nem irmãos!...
Sou como a galinha que não pensa e que só conhece o milho que lhe deitam...
Pela cobiça do dinheiro, meu tio me vendeu!
Vendeu-me porque não era meu pai,
vendeu-me porque não tinha coração!...
Calou-se. Tal como no primeiro dia de escravidão, as lágrimas, quais lavas de sua alma em fogo, borbulharam com a mesma intensidade.
Ouvindo aquela canção bárbara, o amo revolveu-se várias vezes na preguiceira: uma irritação surda fazia-lhe odiar a pobre escrava.
Na expansão da dor, Maria prosseguiu:
Ó Deus, Pai de toda a gente, livrai-me desta aflição! A morte espreita-me, a morte espera-me,
só lhe falta a ordem do meu vingador!
Ai, minha mãe, eu vou morrer!


"Ecos da Minha Terra", Óscar Ribas

(Óscar Ribas nasceu no dia 17 de Agosto de 1909. Morreu em 2004.)

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Óscar Ribas 5

E lágrimas de raiva, lágrimas de angústia, lágrimas vindas da própria alma, saíram, como nunca, de seus olhos desgraçados. Sim, pranteou bastante, durante dias, porque o homem a quem chamava tio, esse homem que era irmão de sua mãe, vendera-a como se fora uma galinha, vendera-a como se fora um leitão. Canalha! Ela, ainda no princípio da vida, ficar sem a liberdade! Que mal fizera para tamanho castigo?

"Ecos da Minha Terra", Óscar Ribas

(Óscar Ribas nasceu no dia 17 de Agosto de 1909. Morreu no dia 19 de Junho de 2004.)

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Óscar Ribas 4

Como um mar de palavras, o burburinho dilatava-se até longe, indo morrer por detrás das montanhas. Era o falatório, eram as gargalhadas, eram as cantigas em coro. A vila, risonha em sua prosperidade, representava, como anteriormente o Dondo, um verdadeiro empório africano.
Nesse tempo distante, um colono - e quantos como ele? - vivia amancebado com uma escrava, cuja lenda, amortalhada na lembrança do indígena, se desdobra numa auréola de saudade. Maria - assim se chamava ela.
Afeita ao látego desde a puberdade, nutria pelo amo uma submissão canina. Para a execução de qualquer coisa, nem sempre precisava de ordens: um simples desejo bastava. Sim, só um desejo dele bastava, porque o seu corpo, a sua vida, lhe pertenciam totalmente. Mercadoria pensante, farrapo de alma, que mais podia fornecer a seu proprietário, senão a passividade do irracional? Semelhante ao capim, rasteiro ao solo para melhor o favorecer, também a pobre escrava, desprezível em sua humildade, em cuidados queria agradar ao dono de sua existência.


"Ecos da Minha Terra", Óscar Ribas

(Óscar Ribas nasceu no dia 17 de Agosto de 1909. Morreu em 2004.)

terça-feira, 19 de junho de 2018

Óscar Ribas 3

Na época em que decorreu este episódio, a pitoresca vila de Catumbela constituía um grande mercado, aonde numerosas caravanas de negros, carregados de borracha, cera, marfim, mel e outros géneros gentílicos acorriam na mira de permutar com o europeu, em troca, a apreciada aguardente, pólvora, armas, fazendas e outros produtos. Mas a escravatura - essa mácula do passado - formava o manancial mercantil, tão propício ao branco como ao preto.

"Ecos da Minha Terra", Óscar Ribas

(Óscar Ribas nasceu no dia 17 de Agosto de 1909. Morreu no dia 19 de Junho de 2004.)

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Óscar Ribas 2

O caçador já não falava. Incendido pelo seu sol interior, dardejava pensamentos cáusticos. A escrava, sempre à retaguarda, chorava agora em silêncio, como se sentisse o ardor daquela alma ignescente. Ai, os espíritos não a socorriam! Que mal fizera para tamanho desprezo? Por ser escrava? Ai, também eles a consideravam um bicho! E Deus, igualmente nada, nada fazia por ela! Oh! Se alguma falta cometera, perdoassem-lhe todos! Perdoassem-lhe todos, todos do Além, qualquer culpa ignorada! Ó espíritos, ó Deus, perdão, perdão, perdão! Ai!

"Ecos da Minha Terra", Óscar Ribas

(Óscar Bento Ribas nasceu no dia 17 de Agosto de 1909. Morreu em 2004.)