Fantasias
Tenho, às vezes, desejos delirantes
De a todos te roubar, meu lírio amado!…
E levar-te, em voo arrebatado,
Aos países fantásticos, distantes.
À Índia, China, ou ao Irão, e os meus instantes
Passá-los a teus pés, grave e encruzado,
Num tapete chinês aveludado,
Com flores ideais e extravagantes.
Nossa vida seria - ó pomba minha! -
Mais leve do que a asa da andorinha,
E, nas horas calmosas, eu e tu…
Olhando o mar sereno, o mar unido,
Comeríamos os dois arroz cozido…
- Embalados num junco de bambu!
"Claridades do Sul", Gomes Leal
(Gomes Leal nasceu no dia 6 de Junho de 1848. Morreu em 1921.)
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quinta-feira, 6 de junho de 2019
terça-feira, 6 de junho de 2017
Gomes Leal 5
A jovem miss
Ela é tão loura, lírica, franzina,
Tão mimosa, quieta, virginal,
Como uma bela virgem dum missal,
Toda dourada, e preciosa, e fina.
Não há graça mais casta e feminina
Do que a dela! - Seu riso angelical
Cria em nós todo um mundo de moral,
Melhor que tudo o que Platão ensina!
Por isso, e, pela sua castidade,
Deve ser gozo intenso, na verdade,
Sentir fundir-se em nós seus olhos régios…
E o gozo de a beijar, trémula, amante,
Deve ser quase estranho! - e semelhante
Ao de fazer terríveis sacrilégios.
"Claridades do Sul", Gomes Leal
(Gomes Leal nasceu no dia 6 de Junho de 1848. Morreu em 1921.)
Ela é tão loura, lírica, franzina,
Tão mimosa, quieta, virginal,
Como uma bela virgem dum missal,
Toda dourada, e preciosa, e fina.
Não há graça mais casta e feminina
Do que a dela! - Seu riso angelical
Cria em nós todo um mundo de moral,
Melhor que tudo o que Platão ensina!
Por isso, e, pela sua castidade,
Deve ser gozo intenso, na verdade,
Sentir fundir-se em nós seus olhos régios…
E o gozo de a beijar, trémula, amante,
Deve ser quase estranho! - e semelhante
Ao de fazer terríveis sacrilégios.
"Claridades do Sul", Gomes Leal
(Gomes Leal nasceu no dia 6 de Junho de 1848. Morreu em 1921.)
segunda-feira, 6 de junho de 2016
Gomes Leal 4
O amor do vermelho (Nevrose de um lord)
A ideia de teu corpo branco e amado,
beleza escultural e triunfante,
persegue-me, mulher, a todo o instante,
- como o assassino o sangue derramado!
Quando teu corpo pálido, beijado,
abandonas ao leito - palpitante,
quem jamais contemplou, em noite amante,
tentação mais cruel, tom mais nevado?
No entanto - duro, excêntrico desejo!
- quisera, às vezes, que a dormir te vejo,
tranquila, branca, inerme, unida a mim…
que o teu sangue corresse de repente,
fascinação da Cor! - e estranhamente,
te colorisse, pálido marfim.
"Claridades do Sul", Gomes Leal
(Gomes Leal nasceu no dia 6 de Junho de 1848. Morreu em 1921.)
A ideia de teu corpo branco e amado,
beleza escultural e triunfante,
persegue-me, mulher, a todo o instante,
- como o assassino o sangue derramado!
Quando teu corpo pálido, beijado,
abandonas ao leito - palpitante,
quem jamais contemplou, em noite amante,
tentação mais cruel, tom mais nevado?
No entanto - duro, excêntrico desejo!
- quisera, às vezes, que a dormir te vejo,
tranquila, branca, inerme, unida a mim…
que o teu sangue corresse de repente,
fascinação da Cor! - e estranhamente,
te colorisse, pálido marfim.
"Claridades do Sul", Gomes Leal
(Gomes Leal nasceu no dia 6 de Junho de 1848. Morreu em 1921.)
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sábado, 6 de junho de 2015
Gomes Leal 3
O selvagem
Eu não amo ninguém. Também no mundo
Ninguém por mim o peito bater sente,
Ninguém entende meu sofrer profundo,
E rio quando chora a demais gente.
Vivo alheio de todos e de tudo,
Mais calado que o esquife, a Morte e as lousas,
Selvagem, solitário, inerte e mudo,
- Passividade estúpida das Cousas.
Fechei, de há muito, o livro do Passado,
Sinto em mim o desprezo do Futuro,
E vivo só comigo, amortalhado
Num egoísmo bárbaro e escuro.
Rasguei tudo o que li. Vivo nas duras
Regiões dos cruéis indiferentes,
Meu peito é um covil, onde, às escuras,
Minhas penas calquei, como as serpentes.
E não vejo ninguém. Saio somente
Depois de pôr-se o sol, deserta a rua,
Quando ninguém me espreita, nem me sente,
E, em lamentos, os cães ladram à lua...
"Claridades do Sul", Gomes Leal
(Gomes Leal nasceu no dia 6 de Junho de 1848. Morreu em 1921.)
Eu não amo ninguém. Também no mundo
Ninguém por mim o peito bater sente,
Ninguém entende meu sofrer profundo,
E rio quando chora a demais gente.
Vivo alheio de todos e de tudo,
Mais calado que o esquife, a Morte e as lousas,
Selvagem, solitário, inerte e mudo,
- Passividade estúpida das Cousas.
Fechei, de há muito, o livro do Passado,
Sinto em mim o desprezo do Futuro,
E vivo só comigo, amortalhado
Num egoísmo bárbaro e escuro.
Rasguei tudo o que li. Vivo nas duras
Regiões dos cruéis indiferentes,
Meu peito é um covil, onde, às escuras,
Minhas penas calquei, como as serpentes.
E não vejo ninguém. Saio somente
Depois de pôr-se o sol, deserta a rua,
Quando ninguém me espreita, nem me sente,
E, em lamentos, os cães ladram à lua...
"Claridades do Sul", Gomes Leal
(Gomes Leal nasceu no dia 6 de Junho de 1848. Morreu em 1921.)
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