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segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Álvaro Maia 2

Última prece

Venho agora com os olhos comovidos,
depois de andar por dédalos velozes,
balbuciar-te a oração de minhas vozes
e o funeral dos últimos gemidos...

Tenho o tremor dos corações feridos
pelo gládio das cóleras atrozes...
Sorvi da dor, em pequeninas doses,
os amargos venenos diluídos...
 
Sorvi... Na queda, no supremo instante,
vi, debruçado no meu corpo exangue,
o duplo céu de teu olhar constante...

Ergui-me ante essa luz consoladora
para beber da vida de teu sangue
o sangue de uma vida redentora...

"Buzina dos Paranás", Álvaro Maia

(Álvaro Maia nasceu no dia 19 de Fevereiro de 1893. Morreu em 1969.)

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Álvaro Maia

Árvore ferida
 
Ante a constelação do céu florindo em lume
Temos, ó árvore, o mesmo ideal e a mesma sina...
Sangrou-me o peito inerme a sensação divina,
Como a acha te sangrou em golpe de negrume.
 
Dando esmola ao faminto e consolo à ruína
Subimos em bondade, ardemos em perfume...
Bendita a dor criadora, o perfurante gume,
Que em mim produz o verso e em ti produz resina...
 
Ninguém virá curar-te! Apenas os ramalhos
ensinarão à flor a música dos galhos
e ensinarão ao galho as lutas das raízes.
 
Ninguém virá curar-me! Os meus versos apenas
serão o bálsamo desfeito em minhas próprias penas,
sob a ronda de dor dos dramas infelizes.


"Buzina dos Paranás", Álvaro Maia

(Álvaro Maia nasceu no dia 19 de Fevereiro de 1893. Morreu em 1969.)