Mostrar mensagens com a etiqueta Barranco de Cegos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Barranco de Cegos. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Alves Redol 5

O ar viciado entontecia-o à entrada, mas depois acabava por se habituar, procedendo em tudo como no tempo em que conferenciava com o avô. Adivinhava que o espreitavam por toda a parte, donde se podia avistar o mirante. E ali se conservava durante uma hora, pelo menos, sempre de pé, em atitude respeitosa, junto da mesa onde Diogo Relvas permanecia embalsamado e jovial.
Tirava-lhe o chapéu, dava-lhe uns borrifos de éter e escovava-lhe as barbas e o cabelo, de maneira a evitar que tomassem aquele aspecto de juta velha. Depois abria as cortinas para que todos assistissem ao encontro, deixando cerrada a janela que deitava para o poente, não se desse o caso de o sol lhe queimar o velho.


"Barranco de Cegos", Alves Redol

(Alves Redol nasceu no dia 29 de Dezembro de 1911. Morreu em 1969.)

domingo, 29 de dezembro de 2013

Alves Redol

Não era por seu gosto que o funeral se encaminhava para o cemitério de Aldebarã. Nem todos os mortos merecem a mesma sepultura, essa é que é a verdade, por muito que doa aos vivos. Na morte não somos não, não somos todos iguais. Nem sequer perante Deus, tinha a certeza. Se Deus não dorme...
A terra daquele cemitério era sua, como a aldeia e tudo o que lhe ficava à volta. E ali era ele quem mandava, não precisara de o lembrar à filha. Já marcara o lugar para o genro - seria metido num dos jazigos da família, no dos aparentados ao pé das mulheres, das crianças e dos homens; de certos homens que disso pouco mais tinham do que o corpo. De cova aberta no chão, bem funda, só os que davam à terra o que ela merecia. Tradição herdada do avô, não seria ele quem iria traí-la, porque ali estava, sozinho podia dizê-lo, desde os quinze anos, de dentes cerrados e corpo jogado para diante na mesma luta sem quartel.
Sabia que lhe cumpria vencer; não desconhecia os inimigos, mas sentia os pés firmes no chão que pisava. Tinha de os pôr firmes, bem assentes: Ah! sim, abdicara de muita coisa que um jovem pode desejar quando lhe levam o pão à boca! Arcara com horas terríveis e amargas, bebera muitas lágrimas, sem deixar verter uma só, desde o dia em que o pai entrara ao portão da quinta, pronto a morrer, às costas do Manel Fandango, sem queixa que se lhe ouvisse do corpo esfrangalhado.
Matara-o uma égua de pêlo-rato, desenfreada, ao atirar com ele de encontro a uma oliveira, na fúria dum galope. Exactamente em Janeiro, a 13 de Janeiro, às cinco e vinte e cinco da tarde. Há vinte e nove anos que era ele, pois, o chefe da casa. E, enquanto assim fosse, naquele talhão mais alto do cemitério, donde se viam chãs aleziriadas e a veia do Tejo, só entrariam patrões e criados, sem distinção de coval, quando o quinhão oferecido por eles à terra merecesse que esta os guardasse. Esses, sim, ficariam todos iguais na morte, quase de ombro com ombro no sossego eterno, em campa rasa. Menos de um palmo de terra a marcar, em lomba, a linha do esquife, uma cruz de madeira, uma legenda simples, mais aprimorada para o servo afeiçoado do que para o senhor. E os vivos que lhe dessem améns no coração.
"Essa é a única e boa maneira de o homem se alongar para além da morte", concluía Diogo Relvas, sempre que alguém lhe falava do panteão da casa.
Agora caminhava logo atrás da urna com o corpo de Rui Portela Araújo, seu genro. Seguia-a de cabeça erguida, quase arrogante, como se buscasse no céu, lá longe, algum sinal desejado para adivinhar o que se seguiria àquela semana trágica.
A corrida ao dinheiro prosseguia, alucinada. Lutava-se, a murro, por moedas de oiro à porta dos banqueiros ou por um lugar nas bichas das tesourarias. Todos queriam receber e ninguém pensava em pagar. Num golpe de melodrama, o Freitas dos Cereais - quem não conhecia o Freitinhas? - metera uma bala na cabeça, à porta do gabinete do director de certo banco que lhe recusara o pagamento dum cheque, por falta de numerário na caixa despejada. Fraco de sangue, embora até ali sobranceiro por causa dos seus interesses nos caminhos-de-ferro e na finança, o genro viera morrer-lhe a casa, numa fuga espantada, quando os depositantes fizeram a primeira corrida à caixa do banco de que era director e accionista. Graças a Deus, duas vezes graças, por ter exigido separação de bens em troca do consentimento para que a Emília Adelaide casasse aos dezassete anos. E agora aos vinte era viúva, uma menina ainda. Que mais lhe estaria guardado com dois filhos nascidos e outro no ventre? Poderia ele protegê-los?! Não diria dos azares da fortuna, mas das baldas de sangue dos Araújos, valdevinos e soberbos.
Era nisso que pensava agora.

"Barranco de Cegos", Alves Redol

(Alves Redol nasceu no dia 29 de Dezembro de 1911. Morreu em 1969.)