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domingo, 28 de março de 2021

Armando Silva Carvalho 5

O amor nas escadas do metro

De quem é o braço?
E os cabelos sujos, roídos pela caspa
e falta de água?
E a perna que enlanguesce sob o tecido ruço
que não retém memória?

Meu deus, dirão os velhos ao descer com vagares
as escadas do metro, a mocidade agora
é sexo só e sujo a rolar pelo chão.

Mas quem deita o olhar com mais ternura
e calma
sobre o novelo dos dois
descobre no ar em volta a tessitura tensa
do desejo, um halo amarrotado pela fugaz curvatura
do sonho.

E na lama pérfida que se sobrepõe aos beijos
a parábola fiel às gerações
da terra.

Forçoso será então que caia a chuva,
e cubra a carne sôfrega
exposta à multidão.
Os solitários amaldiçoam toda a inocência
exibida em degraus, caída de bocas tão imundas,
tão perto do inferno
e do êxtase.

O amor pode ser também dalguns que passam
de olhos feridos,
o coração apertado de sangue
e breve compaixão.

Mas só os dois, ali, enleados na energia da alma,
são um palco da alegria do mundo,
gratuito,
à distância da morte e da sua serpente
circular.

São jovens, e estão a soletrar
tão mansos, o horror apreendido pelas bocas
que despontam,
como a planta se eleva do chão endurecido,
como o animal à luz no limiar do medo.

Os dois, ali, expectantes, transparentes, nus,
na natureza de sempre.

"De Amore", Armando Silva Carvalho

(Armando Silva Carvalho nasceu no dia 28 de Março de 1938. Morreu em 2017.) 

sábado, 28 de março de 2020

Armando Silva Carvalho 4

O cobridor

À entrada do metro está o cobridor de damas
e cavalheiros
de pé perna cruzada a coçar os testículos
e a fumar para o chão em escarros
pouco límpidos.
O metro pede que chova em cima
do cobridor
que encena a sua rábula cinéfila
e leva aos tomates uma estranha fome
de afecto,
melancólica.
Já viajei de metro
e eu próprio
já supus que nos meus testículos
o mundo vinha adormecer
com as mãos suadas.
Às vezes
trocávamos de papel,
e ninguém sabia quem cobria quem,
cobertos éramos todos
por uma tristeza
austera
que o metro punha no ar
irrespirável.
Hoje, tomates são só de importação ou virtuais.
E os cobridores
uma espécie em vias de extinção
na esquina fluorescente do dia descaído
e na cabeça da noite que já nem dá por nada.


"Lisboas", Armando Silva Carvalho

(Armando Silva Carvalho nasceu no dia 28 de Março de 1938. Morreu em 2017.)

quinta-feira, 28 de março de 2019

Armando Silva Carvalho 3

Terra navegável

Vamos pela tarde fora à procura de deus.
Depois do dia ter falhado com as suas promessas
o que nos sobra é tudo o que vai daqui até ao mar.

Transporto no coração a contagem dos passos
e na cabeça a língua que se prende
por engano ao céu da boca. 

Será sempre preciso navegar em terra,
agarrar o que resta pela cintura e disfarçar o corpo
nu entre os rochedos. 

Cada palavra é um remo, cada abraço perdido
uma bóia a menos no costado.
Os aparelhos da fala excrementos das gaivotas.

A tarde recolheu os últimos sinais da divindade. 
Avançamos à procura da água
prometida.

Confundimos as ondas com os limos da garganta,
as cavernas com as muitas moradas, o destino
com mais um precipício antes da noite.

"A Sombra do Mar", Armando Silva Carvalho

(Armando Silva Carvalho nasceu no dia 28 de Março de 1938. Morreu em 2017.)

quarta-feira, 28 de março de 2018

Armando Silva Carvalho 2

Entre dentes

Deitado sobre ti
ensinas-me a sair
da treva. 

Com a boca dorida
por tanta palavra
ensanguentada
devoro o teu cabelo
ouro que se desfaz
por entre os dentes. 

E o teu sorriso
quando te penetro
ilumina súbito
a noite do meu corpo.

"Armas Brancas e Outros Poemas", Armando Silva Carvalho

(Armando Silva Carvalho nasceu no dia 28 de Março de 1938. Morreu em 2017.)

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Armando Silva Carvalho (1938-2017)

W.C.

Neste país onde ninguém sabe
como obram as musas,
já dizia o outro,
fazer versos realmente versos,
que sigam o espasmo do ânus provecto
dessas criaturas fúteis, decantadas,
ainda é e será muito difícil.

Existe sempre um braço etéreo
que puxa o autoclismo
no momento exacto da defecação.
Ouve-se um ruído,
alguém pergunta ao outro o que se passa:

"É o som das águas que bate na garganta."
Aliviados então os corações repousam
na sala de visitas da casa devassada
a que chamam d'alma.


"Sentimento de Um Acidental", Armando Silva Carvalho