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quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Antônio Joaquim da Rosa 2

Um estrangeiro, percorrendo a bela província de S. Paulo, escreveu as impressões da sua viagem, que foram publicadas em um jornal da época.
Em um dos períodos desse escrito nos recordamos de ter lido que o autor se impressionara vivamente por ter encontrado nas nossas estradas algumas cruzes, tomando todas elas como testemunho de assassinatos cometidos nesses lugares.
Quem tiver lido esse trecho, a que nos referimos, pensará que o Brasil é habitado por bárbaros vingativos, como os corsos, sempre com a faca em punho ou com o bacamarte engatilhado, e que este solo abençoado, que serviu de berço ao nobre Amador Bueno da Ribeira, é mais fertilizado pelo sangue precioso de seus filhos do que pelos rios caudalosos que regam as suas entranhas, e pelas chuvas, ora tempestuosas, as mais das vezes bran das e serenas, que humedecem a sua superfície.
Até certo ponto não cndenamos o autor com toda a indignação, com toda a severidade que exige uma difamação tão afrontosa quão imerecida, contra a qual protestam altamente a nossa civilização, a nossa moralidade, os nossos costumes brandos, pacíficos e nobres.
Além do direito de adulterar, a que se têm arrogado todos os estrangeiros que têm escrito acerca da nossa terra, podia esse autor ser iludido pelas impressões de momento, por factos isolados, por informações inexactas.
Verdade é que uma ou outra cruz plantada à beira das nossas estradas revela ao viajante que ali tombou uma vítima que seguia seu caminho, talvez a cismar no anjo que deixara entre suspiros e lágrimas.

"A Cruz de Cedro", Antônio Joaquim da Rosa 

(Antônio Joaquim da Rosa nasceu em 1821. Morreu no dia 27 de Dezembro de 1886.)

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Antônio Joaquim da Rosa

Visão materna

Da lua os frouxos raios se espalham
Na lisa face da lagoa dormente;
E eu fitando o céu, fitando o lago,
Pensava em minha mãe da terra ausente!

Estrelas que sorris do céu sereno
cintillas de ouro na lagoa dormente,
Direi: Qual é a de vós a mãe saudosa,
A minha santa mãe da terra ausente?

Uma de vós - mais bela do que as outras,
Que mais rebrilha na lagoa dormente,
Que parece mais triste... Oh! será ela
A minha santa mãe da terra ausente?!

Oh! céus! que meiga voz que se deslisa
Como um soluço na lagoa dormente?
Será de um anjo a voz que à terra desce,
A voz de minha mãe da terra ausente?!

"Filho! não chores - que em futuro breve
Tu dormirás como a lagoa dormente,
E vindo aos braços meus - em outra esfera - 
Serás com tua mãe da terra ausente!"

Calou-se a débil voz - dolente e meiga
Como um suspiro na lagoa dormente,
E num raio de lua ao céu se alara
A minha santa mãe da terra ausente!

Da lua os frouxos raios se espelhavam
Na lisa face da lagoa dormente;

E eu fitando o céu - fitando o lago
Chorava minha mãe da terra ausente!

Antônio Joaquim da Rosa

(Antônio Joaquim da Rosa, o Barão de Piratininga, nasceu em 1821. Morreu no dia 27 de Dezembro de 1886.)