quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Entre o dantesco e o dá-me lume

No tempo do jornalismo, havia um sábio chefe de redacção que afinava solenemente quando os seus repórteres vinham da rua e escreviam que o incêndio era "dantesco". "Não há incêndios dantescos!", vociferava definitivo o mestre, cortando a riscos de esferográfica e raiva a asneirola que tanto o incomodava. Quer-se dizer: "incêndios dantescos", haver, há, mas não propriamente no anexo de uma "ilha" na Rua de Cedofeita, coisa resolvida pelos bombeiros em menos de um fósforo. O velho mestre tinha razão, como princípio de conversa. Porque as palavras querem dizer e têm preço, um valor específico, não devem ser usadas à toa e de graça. Porque um desgraçado dia elas são precisas a sério, e já não contam para nada...

P.S. - Texto publicado originalmente em Maio de 2015. Costa Carvalho, o mestre, morreu ontem, aos 91 anos. Já lá vão quase quatro décadas, nunca lhe devolvi as "Nuevas odas elementales", de Pablo Neruda.

1 comentário:

  1. Foi provavelmente um dos melhores chefes de Redacção que conheci e com quem trabalhei em Santa Catarina...

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