quinta-feira, 8 de março de 2018

A. S. de Mendonça Jr. 2

Cantiga das lavadeiras

À sombra das ingazeiras,
entre as humildes caiçaras,
cantam moças lavadeiras
as suas cantigas claras:


"Quem ama sente pudor
de falar em quem quer bem,
quem fala muito de amor
não tem amor a ninguém.


A tua boca vermelha
é tão cheirosa, tão bela
que, certa vez, uma abelha
se enganou e pousou nela. 


Enche os nossos olhos de água
a paixão incompreendida:
quem tem amores tem mágoa,
mas sem amor não há vida.

O teu olhar namorado
tão pura luz irradia,
que, numa noite, ao teu lado,
eu jurei que era de dia. 


Minha alma sabe de cor
este conceito que diz:

não há desgraça maior
do que ter sido feliz. 


Sou feliz porque me iludo,
trago a minha alma enganada;
quem tem amores tem tudo,
quem não os tem não tem nada." 


Cantai as vossas cantigas,
ó lavadeiras bizarras!
Trabalhai como as formigas.
cantando como as cigarras.


Quem canta seu mal espanta
e os sofrimentos acalma;
cantai, cantai, pois quem canta
lava as penas que tem na alma.


À sombra das ingazeiras,
entre as caiçaras antigas,
cantai, cantai, lavadeiras,
as vossas claras cantigas.
 


A. S. de Mendonça Jr.

(A. S. de Mendonça Jr. nasceu no dia 8 de Março de 1908. Morreu em 1985.)

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