segunda-feira, 1 de abril de 2019

Quando o peido era um acto cultural

Foto Hernâni Von Doellinger

Parece que não, mas hoje é Dia dos Enganos. Dia das Mentiras. Com isto da política, das redes sociais, dos jornais à rasca e das televisões sensacionalistas, que são todas, todos os dias são dia das mentiras, que agora se dizem em estrangeiro fake news, e quase passa despercebida a efeméride residente do primeiro de Abril. E olhem:
O Dia dos Enganos era celebrado em Fafe com pompa e circunstância. Era uma tradição, um acto manifestamente cultural. Na minha terra, naquele tempo, festas assim familiares como por exemplo o Entrudo tinham as suas normas, liturgia própria. Pelo Entrudo, se me dão licença, eram os peidos-engarrafados no Cinema, um fedor que eu sei lá mas uma risota, ou se calhar um risoto, como hoje será mais fino. Durante o resto do ano, no Cinema, só peidos biológicos, caseiros, que, não desfazendo, também eram uma categoria. Eram peidos subversivos, contra o governo, que nos alimentava a couves e tínhamos de as comprar. Mas o Dia dos Enganos, que foi ao que vim: no Dia dos Enganos saíamos para a rua, ali no Santo Velho, estrategicamente colocados entre os tascos do Paredes e do Zé Manco, e dizíamos a quem passava: - Ó senhor, olhe o que lhe caiu!...
- Foi um peido que me fugiu... - levávamos de resposta, que também fazia parte. Um sucesso!
É, bons tempos: pobretes mas alegretes. Os peidos eram o nosso escape natural, o epítome do divertimento que se podia...

P.S. - Infelizes os que nunca ouviram o Moisés a peidar-se pelo "soleno" da noite, ali para os lados da Feira das Galinhas, hoje parece-me que Praceta Egas Moniz. Aquilo é que era um artista. O Moisés. Trabalhava em vários registos, um dos quais chamava-se "rasgar chita" e costumava encerrar o concerto, com mais dois ou três encores. (O Moisés aceitava pedidos.) Um tremendo sucesso, e cumpre-me fazer notar que o sintetizador, tal como actualmente o conhecemos, ainda não tinha sido inventado...

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