sábado, 24 de fevereiro de 2018

Teófilo Braga 2

A dobadoira

Estava à porta assentada, 
dobando a sua meada  
A velhinha:
Lenço branco na cabeça
A madeixa lhe sustinha,
E envolve-a como toalha; 
Com que pressa
Sentada à porta trabalha!

O sol doira
Seu cabelo,
Que tem a cor da geada;
Para passar o novelo,
A velhinha
De vez em quando sustinha
A gemente dobadoira.
Em que anda branca meada.

Na dobadoira que gira,
Como a mente que delira,
Nem já toda a atenção pondo;
Nem no novelo redondo,
Aumentando
Ao passo que o fio tira,
Todo o seu cuidado emprega!
Pobre e cega,
Ansiada, de quando em quando
Com que tristeza suspira!

Por vezes o movimento
Claro exprime
Tumultuar do pensamento,
Que no imo da alma a oprime
E quase oura!
Muita angústia e paciência
Reflecte-as a intermitência
Do andamento
Ao voltear da dobadoira.
 
Fica-lhe na mão suspensa
O novelo,
Concentrada não o enleia;
Na órfã netinha pensa!...
Vem-lhe à ideia
Por sua morte:
"Só, no mundo! Entregue à sorte!
Pobre neta..."
Pesadelo,
Que tanto a velhinha inquieta.

Não ouvindo a dobadoira, 
Que gemia intermitente,
Caindo da mão dormente
O novelo...
Com desvelo,
A neta, cabeça loira,
Vem à porta
Ver o que foi; com susto olha:
Uma lágrima inda molha
A face à velhinha morta.

"Viriato", Teófilo Braga

(Teófilo Braga nasceu no dia 24 de Fevereiro de 1843. Morreu em 1924.)

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