terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Sant'Anna Dionísio

Uma pequena ilha, a quinze milhas, é como um cirro de cinza ou panejamento de veleiro a esfumar-se na distância; a cinquenta (se se admite que possa ser vista), uma vaga sombra a sumir-se na linha do horizonte; - vista dentro dela própria, é do tamanho do mundo.

(No interior da Ilha da Madeira, no caminho de Boliqueime a Vasco Gil, de visita, com dois dinamarqueses, ao enigma geológico do Grande Curral. Do fundo dum vale emerge o sussurro de uma ribeira que desce, torcicolando, rápida, das alturas pirenaicas do Areeiro.)

Por toda a parte se vê o homem animalizado, feito meio de transporte, olhando-nos com um ar de quem nos diz face a face: "Também tu és culpado. Ando assim porque assim o queres. Se pudesse, esmagava-te". E virando os olhos, se os fitamos, passam derreados, sob os seus fardos, murmurando com humildade novina: "Boa-tarde, meus senhores".

"Atlânticas", Sant'Anna Dionísio

(Sant'Anna Dionísio nasceu no dia 23 de Fevereiro de 1902. Morreu em 1991.)

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