domingo, 23 de abril de 2017

Feridas de guerra 6

Foto do arquivo pessoal do ex-pára-quedista fafense ÁLVARO MAGALHÃES

Manuel Teixeira, 42 anos, suicidou-se. João Silva, 41 anos, aguarda julgamento por homicídio. José Rodrigues, 45 anos, faz terapia de grupo. António Pereira, 51 anos, vive obcecado pelas "injustiças" e já pensou matar ou matar-se - convive desde 1963 com psiquiatras e tranquilizantes. Manuel, João, José e António têm em comum a Guerra Colonial e o medo dos seus medos. São casos à mostra dos cerca de 140 mil ex-combatentes portugueses atingidos pelo stress de guerra, essa doença camuflada numa espécie de clandestinidade.

Obcecado pela "injustiça". Outra é a história de António Pereira, 51 anos, do Porto. O que obceca é a "injustiça": desde logo, a injustiça de o terem mandado para a guerra, logo a ele que não tem "nenhuma mística de herói, antes pelo contrário"; depois, a injustiça da própria guerra; ainda, "a discriminação de tratamento entre soldados, sargentos e oficiais"; finalmente, a hipócrita posição dos generais, que, escondendo-se num "nacionalismo exacerbado e na chama do patriotismo", não admitem que a Guerra Colonial deixou as suas sequelas psicológicas.
Os sete meses passados no Norte de Angola em 1961/62 foram-lhe penosos desde o primeiro dia. A fartura de cerveja e de uísque não bondou para afogar o choro e os temores. António não voltou o mesmo. Sentia-se perdido quando tornou a casa, no final da comissão. Andou de neurologistas para psiquiatras e em 1971 esteve internado no Hospital Conde Ferreira. E desde aí nunca mais parou com as consultas: diz que tem "descarregado toneladas de preocupações".
O que mais o afligia eram os pesadelos, "corpos esventrados, cabeças e pénis cortados e espetados em paus simulando macabros sinais de trânsito". Remorsos não, porque a sua arma, "a 1035, nunca disparou contra corpo humano". O que o desanimava era "uma certa falta de apoio familiar". O que o "salvou" foram o 25 de Abril, que lhe veio "encher a vida", o investimento de tempo e de energias no seu curso de engenheiro-técnico, mas principalmente a sua filha, actualmente com 24 anos. "Era a Ana quem reacendia a fogueira, quem me ligava à vida", confessa.
Porque, a par de uma "vontade obsessiva de matar os autores de injustiças", que persiste, o suicídio era então também um pensamento constante na cabeça de António. Hoje passa "mais ou menos indiferente pelos sítios que tinha escolhido" para o caso...
Tal como José Rodrigues, António Pereira parece ter chegado a um estádio de convívio tolerante com os seus fantasmas. Mas há quem definitivamente não o tenha conseguido.

(Continua)

P.S. - Escrevi em 1992 este exclusivo para a revista Grande Reportagem, então dirigida por Miguel Sousa Tavares. Foi, se não me engano, o primeiro trabalho jornalístico publicado em Portugal sobre o nosso stress de guerra. Vejo no DN que finalmente o País parece querer fazer alguma coisa...
Os nomes dos ex-combatentes são, aqui no Tarrenego!, fictícios.

Fato completo para casamento

Foto Hernâni Von Doellinger

Jorge de Lima 3

Poema do nadador

A água é falsa, a água é boa.
Nada, nadador!
A água é mansa, a água é doida,
aqui é fria, ali é morna,
a agua é fêmea.
Nada, nadador!
A água sobe, a água desce,
a água é mansa, a água é doida.
Nada, nadador!
A água te lambe, a água te abraça,
a água te leva, a água te mata.
Nada, nadador!
Senão, que restará de ti, nadador?
Nada, nadador.


Jorge de Lima

(Jorge de Lima nasceu no dia 23 de Abril de 1893. Morreu em 1953.)

Por mares nunca dantes navegados 3

Foto Hernâni Von Doellinger

Fernando Campos 2

"Lembrava-se apenas de que se esquecera... ou esquecera-se de se lembrar. Que queria? Fraca memória a sua!" suspirava. "Os anos!..." Fernanda tinha muitas vezes comigo este desabafo e eu tomava-lhe a preocupação, procurava colar-lhe os restos das lembranças, reconstituía-as em mantas de retalhos, a tentar conservar o calor das veias, a cor das faces, o brilho de um olhar, o tom de uma voz, o latejar dos corações atingidos pelo gelo do tempo que chegou ao seu limite... Procurar trabalhar a matéria perpetuável, no limiar do eterno... e transpô-lo! Tomar o esquecimento e recolocá-lo na memória! Repor a memória no pedestal do esquecimento, na cidade indiferente e distraída... nas cidades, vilas, aldeias e lugares distraídos e indiferentes por onde Silva Lisboa espalhou a rodos a fantasia e o riso!... Antes que o verme pontual e infalível roa com suas mandíbulas tenazes os últimos músculos putrefactíveis, ainda vivos, que o sal do artista fez contrair num sorriso, vibrar e estalar numa gargalhada. Fixar as recordações para ao menos essas se não transformarem em cinza!... Descuidados que somos até da única certeza indesmentível! Dir-se-á não querermos acreditar que nascemos mortais. Surpreende-nos sempre desprevenidos a notícia da morte. A carta, o telegrama que nos bate à porta quando se está longe. O telefone que toca como tantas vezes rotineiras... - Está? - Fernando? - Sim. - É para te dizer que o avô...

"Psiché", Fernando Campos

(Fernando Campos nasceu no dia 23 de Abril de 1924. Morreu no passado dia 3.)

Caminho 326

Foto Hernâni Von Doellinger

Valentín Paz-Andrade 5

Galiza, ribeira antiga

Do tempo cero levas
o misterio do mar pola cintura.
Con alga, pedra e brétema metidos
no muíño da onda,
o mar intemporale
túa coroa intemporal compuxo.

Ben bicada varanda que recibe
baixo o palio dos pinos os Poentes,
cando súa escada esgotan
na maxia cegadora do alén mar,
tras do arco das augas promisorias
onde inda terma derradeiramente
a mocidade do mundo.

Tarso estremal da Europa,
punta da rosa céltica encostada
no roteiro da Atlántida;
noiva dos velaíños
ventos que sopran en cuadrantes novos;
muro das correntías
quecedoras do ventre dos abismos.

Vello esquinal da Roma,
que até o lindar do mare tenebrossum
alongou a firmeza das calzadas;
angular pousadoiro
onde os albeiros escadróns do Este,
cunha pinga de aurora nas meniñas,
o seu trote centáurico frearon.

Fogo de lumes místicos,
no milagreiro niñadoiro acesos
das cinzas navegantes,
e berce de camiños enlousados
coa estelar soleira das galaxias
por onde a fe dos pobos foi guiada,
do Vístula ou do Sena deica o Sar.

Con historias de andar lonxanos ermos
e sangrar para encher cuncas alleas,
da túa historia os folios se escribiron.
Ribeira a máis antiga
pró devalar das étnicas mareas.

Eiquí findou o transmigrar sedento
das loiras oleadas,
fuxidas da friaxe das estepas.

Eiquí Sant Yago, morto, resucita
vigairo dos regueiros sideraes.

E Breogán partiu,
das néboas e das ondas peregriño,
a poboa-las illas presentidas.

Sempre ramos de vida a derramarse,
sempre sangue de pobos a escoarse,
sempre deixar de ser
para ser noutros.

"Canto do Pobo Disperso", Valentín Paz-Andrade 

(Valentín Paz-Andrade nasceu no dia 23 de Abril de 1898. Morreu em 1987.)