segunda-feira, 25 de setembro de 2017

A ver navios 146

Foto Hernâni Von Doellinger

Austregésilo de Athayde 2

Outro dia, Brito Broca, que lê velhos jornais e velhas revistas, descobriu num deles, muito maior de trinta anos, uma nota sobre o romance "Quando as Hortênsias Florescem", que escrevi em 1919 e felizmente não foi publicado. Os originais existem, mas vou destruí-los no fogo um destes dias. Deixou de aparecer na época porque eu o escrevera tão ao vivo nas personagens e nos fatos que o meu querido e saudoso tio Professor Austregésilo, para quem eu lera alguns capítulos, me aconselhou a deixá-lo dormir na gaveta o o que lhe parecia mais acertado, substituir as pessoas e os episódios, mas isso, no meu ponto de vista, importaria em mutilar a obra de arte.
Passagens do "Quando as Hortênsias Florescem" viram a escassa luz da publicidade em jornais sem muitos leitores. Logo descobriram que um dos tipos retratados era o polemista Antônio Torres, com quem eu andara às turras na imprensa e que teve a imprudência de desafiar-me para um duelo. Torres era gordo e pesadão, jamais se dera a exercícios físicos e nada entendia de como se bater a espada ou florete. No tempo, eu tinha músculos de aço, o boxe era um dos meus esportes e o mestre Zé Ferreira adestrara-me na esgrima para toucher à la fin de l’envoi qualquer espadachim famanaz. Duma intervenção oportuna de Gilberto Amado, que advertiu Torres dos riscos que ia correr, resultou uma convenção de cavalheiros, segundo a qual não deveríamos mais nos engalfinhar em letras de fôrma.

"Vana Verba. Conversas na Barbearia Sol", Austregésilo de Athayde

(Austregésilo de Athayde nasceu no dia 25 de Setembro de 1898. Morreu em 1993.)

O velho truque das letras pequeninas...

Foto Hernâni Von Doellinger

Daniel Pernas Nieto 3

A velliña

Enriba d’a probiña van caindo
as folerpas d’a neve mainamente,
ela peta co’a moca n-os puxigos;
i-o gonzo ferruxente
as portas quedas ó seu paso deixa,
e soilo un can que a sente
de ves en cando lle responde á probe,
somellando decir queixosamente,
que a millor d’as virtudes mal s’atopa,
que d’a noite o relente
i-a mesma neve lle farán un leito
negado pol-a xente.


"Fala das Musas e Outros Poemas", Daniel Pernas Nieto

(Daniel Pernas Nieto nasceu no dia 25 de Setembro de 1884. Morreu em 1946.)

Caminho 389

Foto Hernâni Von Doellinger

Augusto Casas 2

Romance da lúa

Co arume da noite,
a lúa, tola, roxa,
malfadada depinicaba
saudades nos eidos da miña alma.
Como unha vaca bermella
as cornas tiña de prata pol-os ceos,
ledamente, o seu ollar paseiaba.

Lonxe as estrelas soaban,
campás doutas espadaiñas;
o chifro do vento erguía
un cheiro d'herba mollada;
o galanteio da serra
espenuxaba as suas falas,
i-o pecoreiro das somas
entre as cornas lle chantaba
un auturuxo afiado
na punta da sua aguillada.

A lúa - toliña, tola -
estrelas depinicaba.
A sua pel era bermella
i-as suas cornas eran brancas.
A vos da noite se ouvía:
"Ey, vaca, ey… Ey, Fidalga!"
I-ela com’unha siñora,
polo azur se paseiaba;
riba da testa, a follaxe
de milleiros de alboradas;
encol dos seus ollos lenes
a leda noite arrumada
de húmida herba ulindo
ao corazón dos alálas.
 
"O Vento Segrel", Augusto Casas

(Augusto Casas nasceu no dia 25 de Setembro de 1906. Morreu em 1973.)