domingo, 15 de julho de 2018

Rosalía de Castro 6

Calade!

Hai nas ribeiras verdes, hai nas risoñas praias
e nos penedos ásperos do noso inmenso mar
fadas de estraño nome, de encantos non sabidos,
que só con nós comparten seu prácido folgar.


Hai antre a sombra amante das nosas carballeiras,
e das curtiñas frescas, no vívido esprendor,
e no romor das fontes, espritos cariñosos
que só ós que aquí naceron lles dan falas de amor.


I hai nas montañas nosas e nestes nosos ceos,
en canto aquí ten vida, en canto aquí ten ser,
cores de brilo soave, de trasparencia húmida,
de vaguedade incerta, que a nós só dá pracer.


Vós, pois, os que naceches na orela doutros mares,
que vos quentás á llama de vivos lumiares,
que só vivir vos compre baixo un ardente sol,
calá, se n'entendedes encantos destos lares,
cal, n'entendendo os vosos, tamén calamos nós. 


"Follas Novas", Rosalía de Castro

(Rosalía de Castro nasceu no dia 24 de Fevereiro de 1837. Morreu no dia 15 de Julho de 1885.)

Agora sim, o Mundial! 14

Foto ORLANDO VON DOELLINGER

Banho de cultura, mas a seco
- E essa semaninha em Roma?
- Fantástica! Um tremendo banho de cultura! Um mergulho na História! Sabes que a cultura para mim...
- E o velho Coliseu?
- Absolutamente sem condições, carente de uma remodelação profunda. As bancadas, em ruína, e já estão a substituir o relvado...


O defeso ou qualquer dia o Papa morre
"Tempos difíceis estes os que vivemos", acabou por largar Quitério num longo suspiro, enfastiado com o raio da vida. Do outro lado do prato de tremoços, Silveira, o chato, viu ali pé de conversa. E, sem contemplações, avançou:
- Exactamente, pá! Este permanente sentimento de insegurança, os ataques terroristas, as inspecções das Finanças, a greve dos médicos, o Trump, o Brexit, a Geringonça, o Rui Rio que é de rir...
- Nada disso...
- Eu percebo-te, pá! Crise moral, queres tu dizer. Tens toda a razão, já não há valores, o que aí temos agora é uma juventude sem educação e sem respeito pelos mais velhos. No nosso tempo é que...
- Ó valha-me Deus...
- Sei aonde queres chegar, pá! Lá acima, estou a ver. É claro, já não há gente séria como antigamente. Saiu-nos na rifa esta cáfila de banqueiros arrivistas e gatunos e políticos onzeneiros e trafulhas. E qualquer dia o Papa aparece morto, é isso, não é?
- Não, pá! É o defeso, pá! O defeso! É este tempo todo sem futebolzinho a sério. O defeso é uma seca...

Também faço isto muito bem 51

Foto Hernâni Von Doellinger

Luísa Villalta 3

Ritos de resisténcia

Isto é poesia, un ruido provocado.
Non ornamento, arabesco para as pontas dos dedos:
inecesários encaixes para a alma dormir ou sentir
a levedeza da onda cando apenas chega a romper.
Provocación de boca con fame, isto.
E a fame adormece
ou reclama.
Fronte á rutina, o rito da palabra tensa a pel
do mundo: un tambor que desperta.

A pel estremece-se
porque recoñece a morte que baila fóra da tumba.
Isto é tamén unha muller que resiste.


"Ruído", Luísa Villalta 

(Luísa Villalta nasceu no dia 15 de Julho de 1957. Morreu em 2004.)  

Caminho 516

Foto Hernâni Von Doellinger

Henriqueta Lisboa 2

Serena

Essa ternura grave
que me ensina a sofrer
em silêncio, na suavidade
do entardecer,
menos que pluma de ave
pesa sobre meu ser.

E só assim, na levitação
da hora alta e fria,
porque a noite me leve,
sorvo, pura, a alegria,
que outrora, por mais breve,
de emoção me feria.


"Azul Profundo", Henriqueta Lisboa

(Henriqueta Lisboa nasceu no dia 15 de Julho de 1901. Morreu em 1985.)

Serralves à beira-mar

Foto Hernâni Von Doellinger