quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Dois copos e um quarto

Bem medida, uma garrafinha de cinquenta centilitros (50 cl), isto é, meio litro, ou, chamando a coisa pelo nome, um quartilho, dá dois copos e um quarto. Era exactamente dessas que ele bebia: para ter onde dormir...

Os passarinhos, tão engraçados 68

Foto Hernâni Von Doellinger

António Manuel Couto Viana 3

Pedra tumular

A minha geração fugiu à guerra,
Por isso a paz que traz não tem sentido:
É feita de ignorância e de castigo,
Tão rígida e tão fria como a pedra.

Desfazem-se-lhe as mãos em gestos frágeis,
Duma verdade inútil por vazia,
E a língua imóvel nega o som à vida,
Por hábito ou por falta de coragem.

Se há rumores lá de fora, às vezes, lembra:
Porque é que pulsa o coração do mundo,
Precipitado, angustioso, ardente?

Mas depressa submerge na indiferença
- Que lhe deram um túmulo seguro;
E o relógio dá-lhe horas certas, sempre.


"Mancha Solar", António Manuel Couto Viana

(António Manuel Couto Viana nasceu no dia 24 de Janeiro de 1923. Morreu em 2010.)

Como braço erguido ao céu

Foto Hernâni Von Doellinger

Augusto Meyer 5

A paleta do poeta

Tortura do desenho! Horas a fio,
seguindo o risco ideal de um vivo traço
que está dentro de mim, faço e desfaço,
e sinto-o cada vez mais fugidio...


A cor e a luz! Encher de vida o espaço
nu da tela, retângulo vazio,
sol interior que o visionário viu
e o pincel torna cada vez mais baço...


Fecho os olhos; no escuro tumultua
todo um formigamento furta-cor:
arco-íris, aureolado astro violeta...


E tudo o que eu não pus na tela nua
vejo-o de novo em luz, em linha, em cor,
nas manchas coloridas da paleta!


"Poesias 1922-1955", Augusto Meyer

(Augusto Meyer nasceu no dia 24 de Janeiro de 1902. Morreu em 1970.)

I want to ride my bicycle 78

Foto Hernâni Von Doellinger

Amílcar Dória Matos 2

Madrugal

A madrugada treme no meu peito.

O cobertor, bandeira esfarrapada.
Há legiões de duendes sobre o leito.
Mil sons de passos sobem da calçada.

Do teto a cal mortiça se derrama.
O travesseiro me pressiona a nuca.
Da cabeceira jorra uma maluca
onde a luz que incide sobre a cama.

Ouço o relógio perfurar, insano,
do vil silêncio o torturante pano
e respingar de sangue o meu pijama.

Meus dedos, quais formigas no lençol,
avançam temerosos para o sol
do teu indiferente corpo em chama.

Amílcar Dória Matos 

(Amílcar Dória Matos nasceu no dia 24 de Janeiro de 1938. Morreu em 2010.)