segunda-feira, 26 de junho de 2017

Pipi das Calças Compridas

Foto Hernâni Von Doellinger

Luís Edmundo

Risum teneatis
 
Teus olhos claros me disseram,
Como se fossem tua voz:
Ama-me... Os olhos também falam;
E quando os nossos lábios calam
O gesto e o olhar falam por nós.
Quando os teus dedos se encontraram
Nos dedos meus cheios de ardor,
Tua alma cálida fremia;
A tua mão nervosa e fria
Disse-me todo o teu amor.
Sorrias tu como uma estátua;
Lívida e cheia de emoção
Tu não falaste... a boca mente,
Tu foste minha inteiramente,
Foi meu teu virgem coração.
Passou no entanto aquele dia
Em que com febre e embriaguez
As nossas almas amorosas
Se uniram, trêmulas, ansiosas,
Pela primeira e última vez!
A boca mente... tu falaste...
Sem pressentir a minha dor...
Tu me negaste o amor ardente
Que em ti vibrava... a boca mente...
E tu mentiste, meu amor!

"Poesias", Luís Edmundo

(Luís Edmundo nasceu no dia 26 de Junho de 1878. Morreu em 1961.)

Na forja...

Foto Hernâni Von Doellinger

Luiz Manzolillo

Via Láctea na Tijuca

Se dizem-me insensato por ouvir
Estrelas, qual Bilac, talvez razão
Proveja. Mas é inútil arguir
A racionalidade ao coração.

Devo do amor insano refugir?
A estrela amiga abandonar de mão?
Não posso. Então convido-os a assistir,
Da Via Láctea, a mágica atração!

Direis agora: que paixão se inculca
Na mente do poeta, ante as estrelas,
A pratear as matas da Tijuca?

Eu vos responderei que reincido
E, apenas por olhá-las, posso tê-las,
E ouvi-las, como o amor não tem me ouvido.

"Sonetos de Outono", Luiz Manzolillo

(Luiz Manzolillo nasceu no dia 26 de Junho de 1930. Morreu em 2007.)

Caminho 341

Foto Hernâni Von Doellinger

Francisco Otaviano 4

Desejo de doente

Querida, quando eu morrer,
Com tua boquinha breve
Não me venhas tu dizer:
- A terra te seja leve!

Nesse dia vem calçada
De botinas de cetim:
Quero a terra bem pisada
Tendo teu pé sobre mim!

Em paga de meus amores,
Quando tombar o caixão,
Deita-lhe um ramo de flores
Colhidas por tua mão.

E se mais posso pedir-te
Nesta eterna despedida,
Deixa dos olhos cair-te
Uma lágrima sentida.


"Traduções e Poesias", Francisco Otaviano 

(Francisco Otaviano nasceu no dia 26 de Junho de 1825. Morreu em 1889.)

domingo, 25 de junho de 2017

Em defeso do futebol 15

Foto Hernâni Von Doellinger

Nelo Barros
Tive a sorte de conhecer Nelo Barros. Manuel Coelho de Barros (1917-2007) foi um grande treinador de futebol e um mestre de treinadores de futebol que nunca fez primeiras páginas de jornais porque sempre se recusou a deixar o emprego no escritório da que era então a maior fábrica de Fafe, e uma das maiores do País, a troco de trabalho a tempo inteiro numa equipa da 1.ª divisão. O Nelinho era assim.
Pessoa excelentíssima, homem elegante, distinto, culto, Nelo Barros era reconhecidamente um catedrático da táctica, sabia muito de bola e dava gosto ouvi-lo falar de futebol. Ele entusiasmava-se e entusiasmava. O futebol de Nelo Barros tinha pessoas e histórias dentro. O futebol contado por Nelo Barros era simples, percebia-se à primeira, batia certo, era lindo...
Uma noite, no velho salão dos Bombeiros (Rua José Cardoso Vieira de Castro, entre os dois palacetes), o treinador encantou uma plateia à pinha que o foi ouvir falar de desporto e de futebol, de jogadores e de jogos, de treinadores e de tácticas, como nunca se tinha ouvido falar por aquelas bandas. O Nelinho falou como de costume, sem tabus, sem truques, sem arcas encouradas, sem grandes teorias, sem peneiras. Até eu, que era um rapazola, entendi tudo. E fiquei a gostar ainda mais de futebol.
Perguntaram-lhe o que é que era preciso para se ser um bom treinador. Nelo Barros respondeu assim, que esta cá me ficou: "Não há bons treinadores. Os jogadores é que fazem os bons treinadores". E depois desenvolveu, mas nem era preciso.
Eu gostava tanto de ouvir Nelo Barros, que ia assistir a todos os treinos, que eram sempre ao fim da tarde, por causa do tal emprego do treinador na fábrica. Uma vez, o jogo em preparação era contra o Riopele. E digo contra de propósito, porque aquele era um tempo de rivalidades à moda antiga, dentro e fora do campo, acabando quase sempre tudo à trolha.
Mas, voltando ao treino, o Nelinho reuniu os jogadores à sua volta e deu a táctica. E eu por perto, de radar ligado. Fiquei deslumbrado: eram indicações precisas para cada um dos jogadores, para o funcionamento da defesa, para o desempenho do meio-campo, para o trabalho dos avançados, para as movimentações da equipa como um todo, até o Berto Magalhães (um suplente muito fraquinho, mas com um pulmão se faz favor) ia jogar como médio vadio para secar os criativos riopelenses. Tudo encaixava, tudo fazia sentido. E tudo dito com uma convicção, que no domingo só podia dar certo.
Mas não deu. Do outro lado estava uma equipa poderosíssima (se a memória não me atraiçoa, lá jogariam, por essa altura, o Piruta, o Vital, o Barros, o Albano, o João, o Luís Pereira), treinada por outro que a sabia toda: Ferreirinha. Saímos de Pousada de Saramago vergados a uma pesada derrota, já não sei por quantos, mas eu não perdi a fé no Nelo Barros. Pelo contrário. Na humilhação da goleada, aprendi a beleza original do futebol, tal como ele o ensinava: onze contra onze e uma bola que é redonda. O resto é treta.

Hoje, uma nova raça de colunistas, comentadores, ex-treinadores-comentadores e ex-comentadores-treinadores quer fazer-nos acreditar que o futebol é praticamente uma ciência oculta, só percebida por uns poucos predestinados que, modéstia à parte, são eles próprios. E inventam palavras e expressões para complicar o que é simples. E já não há bola nem futebol. Eles, que sabem inglês, "inventaram" o jogo.
Aqui atrasado, Vítor Pereira, então treinador do FC Porto, cansado de que lhe chamassem mosca-morta e de que pusessem em causa as suas capacidades, saiu da casca e disse: "Conheço o jogo profundamente, conheço os detalhes do jogo, conheço os pormenores, discuto os pormenores seja com quem for, tanto em termos de operacionalização e planificação do treino como de leitura do próprio jogo". Pois, parabéns à prima.
E depois apareceu Jorge Jesus a dizer que "os treinadores portugueses são os melhores do mercado". Que "estão à frente em termos de metodologia" e que "são os melhores do mundo". Dando o desconto que se impõe, devido ao conhecido umbiguismo de que padece o actual treinador do Sporting, percebemos logo que o que ele queria realmente dizer era "eu sou o melhor do mundo". Mas, ainda assim, parece-me que subsiste aqui uma pontinha de exagero.

Por estas e por outras, que saudades eu tenho de ouvir o Nelinho a falar de bola. De bola simplesmente.