quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Microcontos & outras miudezas 180

Simplesmente Simplício (ou, vá lá, Sr. Galinhas)
Sou Bomba, Dezassete e Perna-de-Pau, por parte do meu pai, e sou Neques, por parte da minha mãe, com muito gosto. Já me chamaram Américo, Pobre, Padreca, Sacerdote, Profeta, Bítala, Cabeludo, Guedelhudo, Hippie, Careca, 05613478, Amélia, Caixa-de-Óculos, O das Barbas, Ó Tio Ó Tio, Gramático, Chefe, Doutor, Professor, Andrade, Pau de Virar Tripas, Gordo, Ex-Gordo, Hernano, Hermano, Herlânder, Hermo, Hérnio, Irrenane, Renane, Ranano, Renamo, Ernesto, Aquele Senhor, Ó Senhor!, Doente da Cama 2, Próximo!, Nanes, Se'Nane, Belingue, Berlingue, Bilingue, Berlindes, Boelingue, Bolingue, Dillinger, Dilingue, Volkswagen. Eu prefiro que me chamem Simplício.

P.S. - Texto publicado originalmente no dia 29 de Outubro de 2018. Torno hoje a ele porque anteontem, num contacto telefónico com a NOS, recebi uma nova medalha: Galinhas. A simpática e diligente operadora chamava-me Sr. Galinhas, Sr. Hernâni Galinhas. Só para aí à terceira ou quarta vez é que eu percebi e desatei a rir, elogiando a agradecendo tão original rebaptismo. "Mas o senhor não me disse que se chama Hernâni Galinhas?", perguntou-me a menina-senhora, um bocadinho confusa e pareceu-me que também algo constrangida. "Doellinger, eu disse Doellinger", tentei explicar. "Hã?...", tarmamudeou a eficiente profissional, cada vez mais desbaratinada. "Silva, Hernâni Silva. Olhe, chame-me Simplício, simplesmente Simplício", resolvi eu enfim, e foi assim que nos entendemos.

A pintura do Mané
A pintura do Mané não lhe dizia grande coisa. Asseguravam-lhe que o Mané era um grande artista, falavam-lhe do impressionismo francês, até do realismo, dos jogos de luz e de sombra, dos nus, mas ele não se deixava convencer. O Mané era um gajo porreiro, isso nem se discute, pagava umas cervejas quando chegava a sua vez e desenrascava satisfatoriamente o lugar de defesa-esquerdo nos jogos das manhãs de domingo na praia, mas, quer-se dizer, era apenas um trolha regular e à beira da reforma. Como ele...

O organista
- Profissão?
- Organista.
- Orquê?...
- Tocador de órgão...
- Próprio ou de outrem?...

O número
Subiu ao palco, aproximou-se do microfone e anunciou que tinha um número para apresentar. Apresentou o cinquenta e três e foi um sucesso.

Futebol, a quinta-essência
Antigamente jogava-se para ganhar. Às vezes ganha-se, outras vezes perde-se, geralmente empata-se. Agora joga-se para "tirar ilações".

E o fim do mundo era uma gaivota

Foto Hernâni Von Doellinger

A pequena praça, de Sophia

A pequena praça

A minha vida tinha tomado a forma da pequena praça
Naquele outono em que a tua morte se organizava meticulosamente
Eu agarrava-me à praça porque tu amavas
A humanidade humilde e nostálgica dos pequenas lojas
Onde os caixeiros dobram e desdobram fitas e fazendas
Eu procurava tornar-me tu porque tu ias morrer
E a vida toda deixava ali de ser a minha
Eu procurava sorrir como tu sorrias
Ao vendedor de jornais ao vendedor de tabaco
E à mulher sem pernas que vendia violetas
Eu pedia à mulher sem pernas que rezasse por ti
Eu acendia velas em todos os altares
Das igrejas que ficam no canto desta praça
Pois mal abri os olhos e vi foi para ler
A vocação do eterno escrita no teu rosto
Eu convocava as ruas os lugares as gentes
Que foram as testemunhas do teu rosto
Para que eles te chamassem para que eles desfizessem
O tecido que a morte entrelaçava em ti


Sophia de Mello Breyner Andresen

Oysters, of course

Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 19 de novembro de 2019

José Mário Branco (1942-2019)

Inquietação

A contas com o bem que tu me fazes
A contas com o mal por que passei
Com tantas guerras que travei
Já não sei fazer as pazes

São flores aos milhões entre ruínas
Meu peito feito campo de batalha
Cada alvorada que me ensinas
Oiro em pó que o vento espalha

Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Ensinas-me fazer tantas perguntas
Na volta das respostas que eu trazia
Quantas promessas eu faria

Se as cumprisse todas juntas
Não largues esta mão no torvelinho
Pois falta sempre pouco para chegar
Eu não meti o barco ao mar
Pra ficar pelo caminho

Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Mas sei
É que não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer
Qualquer coisa que eu devia resolver
Porquê, não sei
Mas sei
Que essa coisa é que é linda

José Mário Branco

São flores aos milhões

Foto Hernâni Von Doellinger

Colombo, o do ovo

Quando Colombo pôs o ovo, foi o assombro geral. O respeitável público ainda esperou por um coelho da cartola ou, vá lá, um par de pombas brancas de um lenço. Mas nada. O ovo era número único e foi assim que ficou na História.

P.S. - No dia 19 de Novembro de 1493, Cristóvão Colombo desembarcou numa ilha chamada Borinquen, que ele vira pela primeira vez de véspera e que hoje é Porto Rico. Anos mais tarde Colombo construiu um centro comercial e duas torres de escritórios na zona de Benfica, em Lisboa.