segunda-feira, 6 de abril de 2020

Sabença, senhor abade!

Foto FOTO VICTOR (suponho)

No tempo em que havia padres em Portugal, Fafe tinha um senhor abade. Uma vez por semana, o nosso senhor abade descia a minha rua de terra e tílias para ir dizer missa na capela de ricos da Casa do Santo Velho, e a minha mãe mandava-me ir ter com ele para lhe pedir sabença. Eu interrompia os deveres da escola primária e ia a correr, todo contente. Fazia fila atrás dos outros miúdos todos e, quando chegava a minha vez, lá dizia, com o respeito que me fora ensinado, "Sabença, senhor abade!", beijando a mão branca que me era estendida. O senhor abade fazia-me uma pequena festa na cabeça, com a mão que tinha de vago, e respondia-me "Deus te abençoe, meu filho", que era o que eu queria ouvir. O senhor abade seguia o seu caminho e eu tornava a casa num sino. Acreditam que aquilo é das coisas mais felizes da minha infância?
O senhor abade cheirava bem, a tabaco e perfume. Andava sempre de batina e, no Inverno, usava uma capa negra que parecia de filme de espadachins. Com o correr dos anos, o senhor abade subiu a senhor arcipreste, pendurou a sotaina e começou a sair à rua de fato preto e cabeção de gola alta, passou a cumprimentar-me de mãozada e fizeram-no senhor cónego. Cónego Leite de Araújo. Era um homem elegante, distinto, culto, bom e pobre. E tinha um sorriso. Era um ser humano com defeitos e extraordinário. E foi meu amigo. Não sei se Fafe tem a contabilidade em dia com a sua memória.
No tempo em que havia padres em Portugal, o senhor abade de Fafe tinha consigo ao serviço da paróquia, para além do padre Adélio que ensaiava o orfeão, dois jovens coadjutores, palavra que eu não sabia dizer mas que me fazia rir, porque imaginava que, com um título assim, aqueles dois eram padres de acender e apagar. Tanto quanto sei agora, apagaram-se quase todos os que por lá passaram. Apagaram-se como padres, quer-se dizer. Tiveram muitos filhos, foram muito felizes e casaram, geralmente por esta ordem. Em todo o caso, a esses já eu não beijava a mão, mas pedia sabença. Tínhamos isso combinado. E eu ganhava o "Deus te abençoe" que me dava tanto jeito.

No tempo em que havia padres em Portugal, não havia Paula Bobone, graças a Deus. Por isso o beija-mão era uma coisa, por assim dizer, pouco higiénica. Porque o beijo era mesmo beijo e não a mariquice do beijo de faz de conta, a "simulação de beijo" recomendada pela etiqueta da treta. Eu pedia sabença com beija-mão também ao meu avô e à minha avó da Bomba e ao meu avô e à minha avó de Basto, gente de trabalho que tinha as mãos como calhava quando eu lá esparramava o reverencial ósculo. Sim, seria talvez pouco higiénico, mas era verdadeiro. E ainda cá estou.
Durante toda a minha vida pedi sabença. Ao meu pai, à minha mãe, ao meu padrinho, à minha madrinha, aos meus tios e às minhas tias. Até às tias chegadas à família por casamento, que no princípio achavam aquilo um bocado estranho, mas que depois se habituaram e creio que gostam. Aos poucos fui desfazendo a corruptela, passei pela "sabênção" até chegar ao que peço há anos: "a sua bênção". É verdade, continuo a pedir a bênção à minha mãe e aos meus tios e tias, alguns apenas um pouco mais velhos do que eu. E não é só por respeito ou porque me ensinaram em pequenino. Eu acredito nas bênçãos. Por falar nisso: sabença, senhor abade!

P.S. - Publicado originalmente no dia 26 de Outubro de 2011, pouco depois de abrir o Tarrenego! A foto, que é a novidade: éramos os seminaristas de Fafe naquele ano não sei qual. Não me lembrava do retrato, que me chegou às mãos aqui atrasado através do meu cunhado Álvaro, o homem que faz as melhores punhetas de bacalhau do mundo. Soube então que foi o senhor abade, senhor arcipreste ou senhor cónego, consoante a época, quem nos juntou e levou ao fotógrafo para a posteridade. Também não sei o que foi feito daquela juventude sem sorriso. Já agora: na fotografia, eu sou o.

Na minha rua passa o mar 75

Foto Hernâni Von Doellinger

O denunciante

Denunciado por ter tossido em casa, foi detido pela polícia, presente ao juiz e metido em prisão preventiva. O vizinho delator morreu de caganeira naquele mesmo dia.

Interlúdio fotográfico 235

Foto Hernâni Von Doellinger

A vida é breve, a morte semifusa

Sabem: quando se acorda com aquela canção, aquela música na cabeça que nos embala o dia inteiro? Isso. Acordei com Adeste fideles na cabeça. Acordei e olhei para o rádio-relógio-despertador da mesinha-de-cabeceira - quatro da manhã. O habitualmente circunspecto rádio-relógio-despertador riu-se de mim, que eu bem vi. Fui à cozinha beber um copo de água e conferir o calendário - 6 de Abril de 2020. O calendário riu-se de mim, tenho provas. Foda-se! Já nem o Natal é quando um homem quiser...

The Way 793

Foto Hernâni Von Doellinger

Avilés de Taramancos 5

Ladaíña e conforto

Ai Endovel, deus maior
e deus da roda florida:
arreda os ollos da besta,
dá-me a vida!

Ai Breogán, rei unxido
da vella pátria querida:
arreda as fauces da besta,
dá-me a vida!

Ai Ith, capitán maior
e rei da espada brunida:
arreda as uñas da besta,
dá-me a vida!

Ai Odiseu, pai maior,
patrón na nau mais belida:
tira as gadoupas da besta,
dá-me a vida!

Pepa de Pastora, avoa
pola terra enaltecida:
arreda a besta famenta,
dá-me a vida!


"Última Fuxida a Harar",  Avilés de Taramancos

(Avilés de Taramancos nasceu no dia 6 de Abril de 1935. Morreu em 1992.)