quarta-feira, 16 de março de 2016

Augusto Boal

- Você é marxista, Jane?!
- Deus meu livre! - Foi a resposta imediata.
- Então por que é que você diz essas coisas?! - Era Jay, entrando na conversa. - Isso que você está dizendo são lugares-comuns marxistas...
- Eu li Marx de cabo a rabo. Engels, Lênin, Mao, todos eles. Li tudo. E creio firmemente que eles têm razão: o capitalismo é uma das formas sociais mais cruéis e desumanizadoras que a humanidade já conheceu! Creio firmemente na luta de classes!
- Então, meu bem, você é marxista - disse Jelly, um pouco mais aparvalhado que o seu natural. - Teremos que prendê-la. Conduzi-la à delegacia mais próxima.
- Creio na luta de classes, creio que existem exploradores e explorados, mas estou decididamente ao lado dos exploradores! Sou capitalista!
- Ah, então está bem. Pra mim tanto faz…- resmungou Jelly, como sempre mais interessado em apalpar as coxas da jovem loira.


"A Deliciosa e Sangrenta Aventura Latina de Jane Spitfire", Augusto Boal 

(Augusto Boal nasceu no dia 16 de Março de 1931. Morreu em 2009.)

O meu Minho 20

                                                                                                                                              Foto Hernâni Von Doellinger

Lupe Cotrim Garaude

De pedra

- Eu sou de pedra, me dizias,
a defender tua distância.


E esquecias o musgo,
essa tua epiderme de ternura,
e o teu corpo de carinhos,
num horizonte de água e terra,
a te envolver na vida.


- Eu sou de pedra - insistias.
- Pesado. Denso. Inalterável.
De estofo eterno.
Apenas estou, não sofro;
se algum gesto me ferir,
eu sou duro;
quebrarei o gesto sem sentir.


E esquecias
que és pouso de borboletas,
alicerce de flores,
abraço de raízes,
vulnerável em tudo
do que em ti pertence
e minha mão possui, acaricia.


- Eu sou de pedra.
E esquecias, esquecias.


"Entre a Flor e o Tempo", Lupe Cotrim Garaude

(Lupe Cotrim Garaude nasceu no dia 16 de Março de 1933. Morreu em 1970.)

Lugares-comuns 318

                                                                                      Foto Hernâni Von Doellinger

Xosé Lesta Meis

Nunha pequena aldea que hai cerca da Cruña vivía unha familia que lle chamaban "a da rúa". Non sei por qué. Na aldea non había rúas , como as non hai en ningunha aldea. Sitios por alí que tiveran este nome tampouco sei de ningún. O caso é que para referir-se a calquera dos da familia, despois de nomeá-lo, encanabamos: "a da rúa", ou "o da rúa", según que fose muller ou home. Compoñía-se dun matrimonio e catro fillos. El chamaba-se Xaquín, ela Xuana. El era alto, delgado e ben feito. Inda que vello, vía-selle que no seu tempo fora bo mozo. Aínda me parece está-lo vendo comer na broa sentado á porta da casa, recollendo cunha man as frangullas que lle caían da outra. Despois de peneirá-las un pouquiño pra que se lle xuntaran, metí'-as na boca dun pulo. Ela era unha muller pequena pero feituca como un carto e moida súa casa. Nunca se vía máis que da casa ó curral ou á eira. Sempre, dendes das dez hastra as doce da mañán, andaba cun carabullode toxo na man, queimado polo bico. Debía de facé-lo lume con el.
Non recordo vé-la sentada nunca nin leriando con ninguén. As galiñas, o gato e o cocho conocía-na como unha persoa á outra que se visen arreo, entendía-na tamén. Podo xurá-lo. Ela falaba-lles o mesmo que á xente: con agarimo unhas veces e con carraxe outras; según estivera. Pero cáseque sempre con agarimo.
- Ide-vos d'aí - decía-lle ás galiñas cando a seguían pra que lles dera de comer - ; inda non é hora, inda non é hora. Peteirade por aí un pouco máis. Boh! Xa cho creo! Vou-vos estar dando sempre! Así, era a nai! Non teño cousas de máis présa! Agardade que agora!...
E metía-se na casa. As galiñas quedaban-se á porta un pouco. Despois encomezaban o seu coróoo cocococó! Pero nun istantiño calaban. Tiña-as afeitas a se conformaren co que lles dixera e iban-se arredando pouco a pouco, bicando aquí e alí, como ela decía-lles.

"Manecho o da Rúa", Xosé Lesta Meis 

(Xosé Lesta Meis nasceu no dia 16 de Março de 1887. Morreu em 1930.)

Caminho 71

                                                                                                                Foto Hernâni Von Doellinger

Camilo Castelo Branco 4

O tio Manuel era irmão de Joaquim. Tinha oficina de curtidor na Rua dos Pelames, no Porto, e era muito rico, e viúvo sem filhos, com cinquenta anos, sujos, sim, mas bem conservados. Tinha passado a festa do Natal de 1822 em Guimarães e levara à sobrinha um grilhão de ouro da sua viúva dentro de uma rosca de pão-de-ló. Gostou muito de a ver entretida com o presépio do Menino Jesus, cheia de devotos carinhos, ora beijando-lhe os pés, ora incensando o recinto do religioso espectáculo, guardando em todos estes actos umas atitudes misteriosas e uns silêncios respeitosos e dignos das primitivas cristandades nos subterrâneos da Roma pagã. Acompanhou o tio Manuel a sobrinha à missa do galo e embirrou com o fidalgo do Toural, que lhe atirou confeitos a ela, e a ele dois rebuçados velhos à cara que pareciam de chumbo. Todavia, notou a austera gravidade de Teresa, que nunca voltou o rosto para ver donde lhe atiravam os confeitos: Ao sair da igreja do Mosteiro de Santa Clara, um rancho de fidalgos, com os seus lacaios armados de lanternas, formaram alas para iluminarem e acompanharem as damas que saíam. Teresa, para não ser vista, saiu pela porta travessa, a dizer ao tio:
- Vamos por aqui por causa desses homens.
- São bons brejeiros! - concordou ele, e acrescentou de si para consigo: - Juízo até ali!
Em casa disse ao irmão que Teresa era uma jóia, e contou o caso dos confettis com a veemência de quem repete o caso de Lucrécia. O mano Joaquim, a abrir e a fechar a boca com três cruzes, resmoneou:
- A rapariga tem pancada na mola.


"A Viúva do Enforcado", Camilo Castelo Branco 

(Camilo Castelo Branco nasceu no dia 16 de Março de 1825. Morreu em 1890.)