| Foto Hernâni Von Doellinger |
quinta-feira, 2 de maio de 2019
Luís Amado Carballo 6
Versos do meu silenzo
Ollos na noite pensantes
os das estrelas lonxanas,
que ennovelados nas tebras
tráenme a tua lembranza.
Antr' o agarimo da lua
salouca o meu corazón
que añora a surrisa tua.
Por camiños de luceiros
enfondados na distancia,
a tua voz sinfoniza
os ecos da miña alma.
Estou a pensar en tí
e nas miñas mans saudosas
ate o mesmo delor rí.
Baixo a pregaria oxival
do zarco mar dos teus ollos,
afóganse as miñas verbas
que van pousar no teu colo.
Tan outo cal un luceiro,
porei o meu corazón
pra que alume o teu vieiro.
"Proel", Luís Amado Carballo
(Luís Amado Carballo nasceu no dia 2 de Maio de 1901. Morreu em 1927.)
Ollos na noite pensantes
os das estrelas lonxanas,
que ennovelados nas tebras
tráenme a tua lembranza.
Antr' o agarimo da lua
salouca o meu corazón
que añora a surrisa tua.
Por camiños de luceiros
enfondados na distancia,
a tua voz sinfoniza
os ecos da miña alma.
Estou a pensar en tí
e nas miñas mans saudosas
ate o mesmo delor rí.
Baixo a pregaria oxival
do zarco mar dos teus ollos,
afóganse as miñas verbas
que van pousar no teu colo.
Tan outo cal un luceiro,
porei o meu corazón
pra que alume o teu vieiro.
"Proel", Luís Amado Carballo
(Luís Amado Carballo nasceu no dia 2 de Maio de 1901. Morreu em 1927.)
quarta-feira, 1 de maio de 2019
Apertos de um 1.º de Maio
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Fui ver o Dia dos Trabalhadores ao Porto. Porque, para quem não tem mais nada que fazer e é teso, o Porto é um sítio porreiro para se ver Dias dos Trabalhadores e não é preciso comprar bilhete. No Porto há muito desemprego e uma praça e uma avenida destinadas ao 25 de Abril, às greves gerais, ao Dia dos Trabalhadores, aos camones, aos carteiristas e aos vadios em geral, as quais, praça e avenida, são emprestadas pelo Pinto da Costa quando o Futebol Clube se esquece de ser campeão - o que é raro... e altamente suspeito.
O Dia dos Trabalhadores correu muito bem. Primeirodemaiou-se ali com grande pertinácia e depois acabou. Acabou, mas eu, que sou de lágrima fácil, estava com uma vontade de mijar que já não era só vontade, era uma emergência nacional, e desatei a correr como um tolinho para o WC sob as escadinhas da Rua 31 de Janeiro com a Estação de São Bento e com a polícia de choque atrás de mim como se eu levasse um engenho explosivo na braguilha. Não levava. Estava apenas à rasca. À rasquíssima. E a retrete estava de portas fechadas. Por causa do feriado.
Que se segue: eu bem não queria, mas tive de ir, com uma mão à frente e outra atrás, às casas de banho da estação propriamente dita. Às tais, às míticas, às suspeitíssimas. O que se passou lá dentro não interessa, apenas faço questão de garantir que saí daqueles apertos com a honra invicta. A polícia, entretanto, desinteressou-me de mim e passou a perseguir um casal de lavradores do Marco de Canaveses que tinha vindo a uma consulta de otorrinolaringologia, ela com a infelizmência de um xaile vermelho às costas e ele com um saco de plástico na mão, sotaque da terra e "cara de marroquino". O relógio exterior de São Bento batia as quinze e quinze. A polícia também. Após a sova da ordem, as autoridades verteram nos autos que o perigoso saco continha um cartucho com 250 gramas de sementes de pepino compradas sem guia de remessa na Casa Hortícola do velho Bolhão, um toquinho de chouriço de colorau, meia sêmea, um taparuer com uma cebola da monda rachada em quatro e metida em sal grosso e vinagre tinto, uma garrafa de cerveja quase vazia de vinho e um canivete belga com seis centímetros de lâmina. Os dois indivíduos, um do sexo masculino e o outro não, entre os sessenta e os setenta anos, foram detidos por posse de arma branca. Os peritos em minas e armadilhas fizeram explodir o resto.
P.S. - Contava-se que havia um padre, famoso pregador, que fazia sempre o mesmo sermão. Só mudava o nome do santo. Ora bem: o grosso do texto acima foi escrito para uma greve geral, adapto-o hoje mais uma vez ao 1.º de Maio e palpita-me que não vou ficar por aqui...
Otto Lara Resende 3
Sou exatamente o menino que aos nove anos foi declamar um verso de Antero de Quental e se perdeu.
"Otto Lara Resende: A Poeira da Glória", Otto Lara Resende
(Otto Lara Resende nasceu no dia 1 de Maio de 1922. Morreu em 1992.)
"Otto Lara Resende: A Poeira da Glória", Otto Lara Resende
(Otto Lara Resende nasceu no dia 1 de Maio de 1922. Morreu em 1992.)
José de Alencar 7
Emília tinha quatorze anos quando a vi pela primeira vez.
Era uma menina muito feia, mas da fealdade núbil que promete a donzela esplendores de beleza.
Há meninas que se fazem mulheres como as rosas: passam de botão a flor: desabrocham. Outras saem das faixas como os colibris da gema: enquanto não emplumam são monstrinhos; depois tornam-se maravilhas ou primores.
Era Emília um colibri implume; por conseguinte um monstrinho.
Seu crescimento fora muito rápido; tinha já altura de mulher em talhe de criança. Daí uma excessiva magreza: quanta seiva acumulava aquele organismo era consumida no desenvolvimento precoce da estatura.
Ninguém caracterizava com mais propriedade esse defeito de Emília do que a menina Júlia, sua prima. Quando as duas se agastavam, o que era frequente, Júlia a chamava de esguicho de gente.
"Diva", José de Alencar
(José de Alencar nasceu no dia 1 de Maio de 1829. Morreu em 1877.)
Era uma menina muito feia, mas da fealdade núbil que promete a donzela esplendores de beleza.
Há meninas que se fazem mulheres como as rosas: passam de botão a flor: desabrocham. Outras saem das faixas como os colibris da gema: enquanto não emplumam são monstrinhos; depois tornam-se maravilhas ou primores.
Era Emília um colibri implume; por conseguinte um monstrinho.
Seu crescimento fora muito rápido; tinha já altura de mulher em talhe de criança. Daí uma excessiva magreza: quanta seiva acumulava aquele organismo era consumida no desenvolvimento precoce da estatura.
Ninguém caracterizava com mais propriedade esse defeito de Emília do que a menina Júlia, sua prima. Quando as duas se agastavam, o que era frequente, Júlia a chamava de esguicho de gente.
"Diva", José de Alencar
(José de Alencar nasceu no dia 1 de Maio de 1829. Morreu em 1877.)
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