sábado, 24 de junho de 2017

Vicentina de Carvalho

Sorvi sequiosa a taça do prazer,
só lhe sentindo o bem que me sabia,
sem a preocupação de conhecer
o mal que ela, esgotada, me traria.

Desprezando o futuro, quis viver
o presente, que alegre me sorria,
sem nunca imaginar e sem prever
quanto custa um momento de alegria.

Logo, porém, o travo da amargura
mudou-me o riso em lágrima dorida,
pois a felicidade não perdura.

Só então percebi, arrependida,
quanto, por um instante de ventura,
hei de ficar pagando toda a vida.

Vicentina de Carvalho

(Vicentina de Carvalho nasceu no dia 24 de Junho de 1890. Morreu em 1954.)

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Quando o Zecão de Fafe bateu no boxeur do Porto

Foto Hernâni Von Doellinger

Guardo gratíssimas recordações de São Clemente de Silvares. No Ademar, tasco praticamente gourmet e tão caro quanto excelente, com a ramadinha à porta e lá dentro o vinho a refrescar no poço, eu costumava encontrar o Zé Cão, que tinha trabalhado com o meu pai na Fábrica do Ferro e era o homem mais alto do mundo. Pelo menos era o homem mais alto de Fafe e arredores, e não há mundo melhor do que aquele. O Zé Cão, sentado, os joelhos batiam-lhe nos queixos. Era altíssimo, pele e osso, vagaroso, comovido, desengonçado, gentil, decilitrado, só, pobre, criança em corpo descomunal, com uns sapatões de palhaço e sempre agarrado à caneca de verde tinto, que naquelas mãozonas mingava até parecer uma xícara de casinha de brincar. Mãos hirsutas, nodosas e honestas. O Zé Cão era um homem com zê grande...
O Valença, uma das glórias do futebol local, gostava de se meter com o Zé Cão. Na verdade, o Valença gostava de se meter com toda a gente, mas o que aqui interessa é o Zé Cão. E o Valença, quando o apanhava a jeito, obrigava o Zé Cão a contar vezes sem conta as suas vindas ao Porto, ao Royal e ao Derby, para aliviar o tesão a preço combinado, e daquela ocasião em que ele teve de se haver com um "boxevista", um "boxevista" a sério - a piada a espremer era mesmo fazer o Zé Cão dizer "boxevista" -, na parte de cima da Ponte de Luís I, exactamente por causa do putedo. E o Zé Cão ganhou. O Zé Cão fazia os gestos como foi, a mando do Valença, disparava ganchos e uppercuts, cruzados e directos, era um campeão sem sair do seu canto, a lutar por merecer mais um quartilho que uma alma caridosa lhe pagasse...
O Zé Cão de São Clemente, o nosso gigante bom... E acabo de pensar que nem é nada Zé Cão: para os devidos e legais efeitos, passa doravante a ser Zecão, de Zeca grande, tão grande como o seu imenso coração.

P.S. - Recupero aqui a segunda parte do texto "Roubaram o sino da igreja", que escrevi e publiquei no dia 8 de Abril de 2012. Fiz meia dúzia de alterações.

Caminho 338

Foto Hernâni Von Doellinger

Xaquín Lorenzo

A voz enredos ten na Galiza dous valores: úsase xeralmente pra indicar algo de pouca importancia e sen transcendencia; cando se fala de froita, por exempro, os nosos labregos acostuman a decer: "ises son enredos de rapaces".
En sentido máis restrinxido, un enredo é un xoguete, é decer, un artiluxio co que os nenos satisfán a sua necesidade de ocupar o tempo imitando no posible ás persoas maiores. O mesmo significado ten asimesmo a palabra brinquedo (de brincar = saltar, xogar). A anterior fórmase de enredar, do mesmo valor que brincar. Chámanse tamén os xoguetes ixolas, de onde ixoleiro = mañoso.
O xoguete non ten fronteiras xeográficas nen cronolóxicas; en tódolos pobos e en tódalas épocas móstrasenos a existencia dista industria infantil.
A única diferencia que se pode establecer antre uns enredos e outros como fundamental é a que existe antre o campo e a cidade.

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"Enredos", Xaquín Lorenzo

(Xaquín Lorenzo nasceu no dia 23 de Junho de 1907. Morreu em 1989.)

A ver navios 129

Foto Hernâni Von Doellinger

Nilo Aparecida Pinto

Das dores que o tempo aguça,
a mais triste eu desconfio
ser a da mãe que soluça
junto de um berço vazio...

Nilo Aparecida Pinto

(Nilo Aparecida Pinto nasceu no dia 23 de Junho de 1915. Morreu em 1974.)

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Fafe apresenta 2.ª Feira de Teatro de Bonecos


Segunda edição da Feira de Teatro de Bonecos e Formas Animadas, em Fafe, dias 28, 29 e 30 de Junho (quarta, quinta e sexta da próxima semana). Bonecos, marionetas, fantoches e formas animadas - memórias refrescadas dos velhos robertos das nossas feiras e praças. Mais de trinta espectáculos nas mãos de mais de vinte companhias de teatro de diversos países. Outra informação, aqui.