sábado, 9 de abril de 2016

Manuel Lueiro Rey 2

Deixo a porta aberta

Doime todo,
e nambargantes vivo
porque é vivir perciso.

Cando conto e reconto,
sen presa, pouco a pouco,
coarenta anos mortos
cuasi cegando a vida,
vermes de cousas podres
angurian o meu peito.

Mais a miña campana de espranza
sona e resona na intima tristura,
e non se vence.

I a reserva das forzas que ainda teño,
fogo alcendido que ninguén espalla,
non se vence.

I o tempo do meu tempo que reclamo
coma unha deuda do tempo roubado,
non se vence.

Doime todo,
e nambargantes vivo
porque é vivir perciso.

Xa sei que ainda se moven,
os antergos sicarios nas tenebras,
i antre as ponlas dos arbres
tremen sombras que queiman a semente.

Mais o millo que se ergue ceibe ó vento
coma colleita de homes que agardaron,
non se vence.

Nin o sol que alumará nun dia perto,
non se vence.

Doime todo,
e nembargantes vivo
porque é vivir perciso.

E vou deixando sempre a porta aberta.


Manuel Lueiro Rey

(Manuel Lueiro Rey nasceu no dia 9 de Abril de 1916. Morreu em 1990.)
 

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Caminho 86

                                                                                                                Foto Hernâni Von Doellinger

Basílio da Gama 3

Na idade em que eu, brincando entre os pastores,
andava pela mão e mal andava,
uma ninfa comigo então brincava,
da mesma idade e bela como as flores.


Eu, com vê-la, sentia mil ardores;
ela punha-se a olhar e não falava.
Qualquer de nós podia ver que amava,
mas quem sabia então que eram amores?


Mudar de sítio à ninfa já convinha:
foi-se a outra ribeira; e eu só, naquela
fiquei sentindo a dor que na alma tinha.


Eu, cada vez mais firme; ela mais bela.
Não se lembra ela já de que foi minha;
eu ainda me lembro que sou dela!...


Basílio da Gama 

(Basílio da Gama nasceu no dia 8 de Abril de 1741. Morreu em 1795.) 

quinta-feira, 7 de abril de 2016

A felicidade é questão de um gajo se habituar

                                                                                                                 Foto Hernâni Von Doellinger

A este propósito, ou a propósito nenhum, segue o texto que escrevi e publiquei aqui pela primeira vez no dia 30 de Novembro de 2013, então sob o título "Um Natal mais ou menos":

Dá-me para isto ultimamente: pergunto aos meus amigos - "Andas feliz? És feliz?", e não é por causa da crise ou da merda da política ou dos bandalhos que estão no Governo. Nada disso - quero que essa corja de Lisboa se foda, refoda e contrafoda. Aos meus amigos pergunto acerca do coração, dos afectos, do casamento, do divórcio, da mulher, da namorada, da mulher e das namoradas (há quem acumule), dos filhos, dos netos, dos irmãos, dos pais, dos sogros, da saúde, da fé, da filosofia, da poesia, de Deus, dos sonhos, da vida. Falo de bondade, de amor, de compaixão, de vinho. "És feliz? Andas feliz?", é o que pergunto, exactamente da mesma maneira que pergunto em casa, à mesa, se a comidinha está a saber bem.
A vida para ter algum jeito também deve saber bem, não é? Pelo menos é o que eu acho, pratico e digo aos meus amigos, dinheiro à parte e emprego também, que só fazem falta a quem tem. A nós, não - o País já deu baixa de nós, de mim e dos meus amigos. Estamos muito bem assim com isto que nos deixaram em comum: somos tesos encartados, desempregados por conta própria, cidadãos fora de prazo, viva Portugal! Os meus amigos interessam-me muito e por isso é que são sem aspas e sem Facebook. Somos amigos cara a cara, de abraço de carne e osso. Os meus amigos sabem que eu cozinho e são meia dúzia deles. Às vezes frequentam-me a mesa. Percebem o que eu quero dizer quando lhes pergunto, imodesto, se as fanecas eram mesmo assim e nem mais nem menos e se os rojões estão prontos para as olimpíadas. Percebem e respondem com grande selectividade (a selectividade e as retroescavadoras com luzinhas são cá coisas do forno interno). Eram e estão, as fanecas e os rojões, respondem na ponta da língua, sem precisarem de mentir. Mas se lhes pergunto directamente - "És feliz?", os meus amigos limitam-se a balbuciar um "Mais ou menos" que até parece da minha família.
Vou mandar passar aos meus amigos os competentes atestados de Bombas, esses sublimados militantes do vai-se andando. Eu rasgo o cartão, desarrisco-me.

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                                                     Foto Hernâni Von Doellinger

Almada Negreiros 4

Aconteceu-me 

Eu vinha de comprar fósforos
e uns olhos de mulher feita
olhos de menos idade que a sua
não deixavam acender-me o cigarro.
Eu era eureka para aqueles olhos.
Entre mim e ela passava gente como se não passasse
e ela não podia ficar parada
nem eu vê-la sumir-se.
Retive a sua silhueta
para não perder-me daqueles olhos que me levavam espetado.
E eu tenho visto olhos!
Mas nenhuns que me vissem
nenhuns para quem eu fosse um achado existir
para quem eu lhes acertasse lá na sua ideia
olhos como agulhas de despertar
como íman de atrair-me vivo
olhos para mim!
Quando havia mais luz
a luz tornava-me quase real o seu corpo
e apagavam-se-me os seus olhos
o mistério suspenso por um cabelo
pelo hábito deste real injusto
tinha de pôr mais distância entre ela e mim
para acender outra vez aqueles olhos
que talvez não fossem como eu os vi
e ainda que o não fossem, que importa?
Vi o mistério!
Obrigado a ti mulher que não conheço.

Almada Negreiros 

(Almada Negreiros nasceu no dia 7 de Abril de 1893. Morreu em 1970.)

Caminho 85

                                                                                                               Foto Hernâni Von Doellinger