No Líbano nom hai cedros do Líbano
No Líbano nom hai cedros do Líbano.
Hai-nos nalguns versículos
da Bíblia. Hai-nos nos parques
de inúmeras cidades de Ocidente.
Mas no Líbano, nom. Ao menos
na cordilheira homónima. Talvez
os esgotassem os agentes
de Hiram, rei de Tiro,
que se comprometeu
a enviar materiais a Salomon
para a construçom do Templo.
E em jangadas, até Jope,
polo mar forom os madeiros
transportados polos fenícios.
E Salomom encarregou aos seus servos
de transportá-los dali a Jerusalém.
E Hiram, rei de Tiro, enviou
a Salomom um arquitecto, Huran-Abi,
cujo pai era natural de Tiro
e a sua mai umha mulher da tribo
de Dan; e já servira ao Rei David.
Obedecendo ordens, lenhadores
fenícios derrubarom
cedros a eito; mas
nom creio que o rei Hiram fosse
tam insensato que arruinasse
a sua riqueza forestal.
[...]
"Reticências", Carvalho Calero
(Carvalho Calero nasceu no dia 30 de Outubro de 1910. Morreu no dia 25 de Março de 1990.)
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segunda-feira, 25 de março de 2019
Carvalho Calero 6
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terça-feira, 30 de outubro de 2018
Carvalho Calero 5
Na China
nacem vinte e seis nenos por minuto.
Radiaçons de amarelo,
em ondas incessantes,
estenderám-se pola pele do mundo,
seja esta prata, cobre ou ónix;
metais, enfim, ou pedras
menos fortes que o ouro
como padrom de câmbio. A quantidade
impom a qualidade
num tempo em que o poder de massa é decisivo.
Agora nom é o raro
o bom. O raro é vergonhoso.
E prata, cobre ou ónix
serám em breve formas patológicas
de cor da pele. Consulte o dermatólogo
quem nom assimilasse o ouro padrom.
Toda pele minimamente sá
tem que ter recolhido
as radiaçons do Oriente,
provenientes da China, onde, segundo
seguras estatísticas,
nacem vinte e seis nenos por minuto.
Muitos milhons de poros irradiando
cromossomas ou gens,
esporos ou eflúvios
auríferos, avondam
para que se produza a necessária
mutaçom na epiderme discrepante,
e a feliz unidade se reduzam
as nom rendíveis, e perturbadoras
divergentes pigmentaçons da pele.
Os insensíveis às obriças ondas,
serám corpo a extinguir no lazareto.
Pele amarela, oblíquos olhos, liso
cabelo negro em toda a parte triunfarám.
Exércitos inúmeros
de engraçados meninhos
e de maes jeitosíssimas
da cor do sol, invadirám o mundo,
e imporám a sua graça
sobre toda a epiderme,
mediante a mestiçagem,
o enxerto, a cirurgia,
o estofado, o verniz. De um jeito ou outro
(se nom nas transacçons
mercantis), na genética,
o padrom ouro triunfará afinal.
"Reticências", Carvalho Calero
(Carvalho Calero nasceu no dia 30 de Outubro de 1910. Morreu em 1990.)
nacem vinte e seis nenos por minuto.
Radiaçons de amarelo,
em ondas incessantes,
estenderám-se pola pele do mundo,
seja esta prata, cobre ou ónix;
metais, enfim, ou pedras
menos fortes que o ouro
como padrom de câmbio. A quantidade
impom a qualidade
num tempo em que o poder de massa é decisivo.
Agora nom é o raro
o bom. O raro é vergonhoso.
E prata, cobre ou ónix
serám em breve formas patológicas
de cor da pele. Consulte o dermatólogo
quem nom assimilasse o ouro padrom.
Toda pele minimamente sá
tem que ter recolhido
as radiaçons do Oriente,
provenientes da China, onde, segundo
seguras estatísticas,
nacem vinte e seis nenos por minuto.
Muitos milhons de poros irradiando
cromossomas ou gens,
esporos ou eflúvios
auríferos, avondam
para que se produza a necessária
mutaçom na epiderme discrepante,
e a feliz unidade se reduzam
as nom rendíveis, e perturbadoras
divergentes pigmentaçons da pele.
Os insensíveis às obriças ondas,
serám corpo a extinguir no lazareto.
Pele amarela, oblíquos olhos, liso
cabelo negro em toda a parte triunfarám.
Exércitos inúmeros
de engraçados meninhos
e de maes jeitosíssimas
da cor do sol, invadirám o mundo,
e imporám a sua graça
sobre toda a epiderme,
mediante a mestiçagem,
o enxerto, a cirurgia,
o estofado, o verniz. De um jeito ou outro
(se nom nas transacçons
mercantis), na genética,
o padrom ouro triunfará afinal.
"Reticências", Carvalho Calero
(Carvalho Calero nasceu no dia 30 de Outubro de 1910. Morreu em 1990.)
segunda-feira, 30 de outubro de 2017
Carvalho Calero 4
[E agora som um velho patrom que...]
E agora som um velho patrom que
se senta ao sol no banco de um passeio.
A minha vida fica atrás. Foi minha?
Quem fum outrora?
Fum eu - este que agora som - aquele
que estes mesmos carreiros transitava
um tempo perseguindo a borboleta
ilusória do amor, e neste mesmo
banco torrava o coraçom, ao sol
do rosto de umha forma feminina,
já nom sei qual, ao meu carom sentada?
A minha boca que articula agora
um monológico silêncio é
aquela que sabia dialogar
consoante a gramática perdida?
Nem apego me fica ao que onte fum,
nem ao que onte regia o meu falar
e o concertava com o falar seu.
Nacim já velho neste banco ao sol,
e aquel que outrora fum morreu em mim,
e sinto-o como um outro
que nom herdei, pois nada tenho del.
Mocidade nom tivem; som um velho
de poucos anos, que nacim assi.
Apócrifa é a história
com que alguns me encadeiam
às alegres tristezas de um passado
de harmonioso furor primaveral.
Sentado neste banco, tam só espero
que de mim mesmo brote o sono. Aquela
moça que se detém perante mim
- talvez onte ao meu lado se sentava -,
estorva-me hoje, e a seguir convido-a
a sua via, pois furta-me o sol.
"Reticências...", Carvalho Calero
(Carvalho Calero nasceu no dia 30 de Outubro de 1910. Morreu em 1990.)
E agora som um velho patrom que
se senta ao sol no banco de um passeio.
A minha vida fica atrás. Foi minha?
Quem fum outrora?
Fum eu - este que agora som - aquele
que estes mesmos carreiros transitava
um tempo perseguindo a borboleta
ilusória do amor, e neste mesmo
banco torrava o coraçom, ao sol
do rosto de umha forma feminina,
já nom sei qual, ao meu carom sentada?
A minha boca que articula agora
um monológico silêncio é
aquela que sabia dialogar
consoante a gramática perdida?
Nem apego me fica ao que onte fum,
nem ao que onte regia o meu falar
e o concertava com o falar seu.
Nacim já velho neste banco ao sol,
e aquel que outrora fum morreu em mim,
e sinto-o como um outro
que nom herdei, pois nada tenho del.
Mocidade nom tivem; som um velho
de poucos anos, que nacim assi.
Apócrifa é a história
com que alguns me encadeiam
às alegres tristezas de um passado
de harmonioso furor primaveral.
Sentado neste banco, tam só espero
que de mim mesmo brote o sono. Aquela
moça que se detém perante mim
- talvez onte ao meu lado se sentava -,
estorva-me hoje, e a seguir convido-a
a sua via, pois furta-me o sol.
"Reticências...", Carvalho Calero
(Carvalho Calero nasceu no dia 30 de Outubro de 1910. Morreu em 1990.)
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quinta-feira, 30 de outubro de 2014
Carvalho Calero
A maior parte desta poesia é hipocrisia
A maior parte desta poesia
é hipocrisia.
Nom quer nada dizer e nada di.
Se algo quiger dizer, algo diria.
Quer somente fingir que nom fingia
oferecendo enganos para ti,
que finges crer que é verdade
a mensagem que te envia,
e finges que tés saudade
da saudade que exprimia
alguém que nom a sentia,
mas que se enganava assi,
cúmplice da tua porfia
de enganar a ti e a si.
A ti fingindo entender.
A si fingindo saber
o que queria dizer,
ainda que nom o sabes;
pretendendo ter as chaves
para abrir
o que nunca se fechou,
porque nunca tivo portas,
e aquelas palavras mortas
ajuntavam-se ao achou,
nom por santa inspiraçom,
nem por subconsciente graça:
por rotineira trapaça
e vazia pretensom.
Assi, é feita desta arte,
com notória hipocrisia,
a maior parte
desta poesia.
"Reticências", Carvalho Calero
(Ricardo Carvalho Calero nasceu no dia 30 de Outubro de 1910. Morreu em 1990.)
A maior parte desta poesia
é hipocrisia.
Nom quer nada dizer e nada di.
Se algo quiger dizer, algo diria.
Quer somente fingir que nom fingia
oferecendo enganos para ti,
que finges crer que é verdade
a mensagem que te envia,
e finges que tés saudade
da saudade que exprimia
alguém que nom a sentia,
mas que se enganava assi,
cúmplice da tua porfia
de enganar a ti e a si.
A ti fingindo entender.
A si fingindo saber
o que queria dizer,
ainda que nom o sabes;
pretendendo ter as chaves
para abrir
o que nunca se fechou,
porque nunca tivo portas,
e aquelas palavras mortas
ajuntavam-se ao achou,
nom por santa inspiraçom,
nem por subconsciente graça:
por rotineira trapaça
e vazia pretensom.
Assi, é feita desta arte,
com notória hipocrisia,
a maior parte
desta poesia.
"Reticências", Carvalho Calero
(Ricardo Carvalho Calero nasceu no dia 30 de Outubro de 1910. Morreu em 1990.)
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quinta-feira, 28 de março de 2013
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