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domingo, 26 de julho de 2020

Cassiano Ricardo 6

A rua

Bem sei que, muitas vezes,
o único remédio
é adiar tudo. É adiar a sede, a fome, a viagem,
a dívida, o divertimento,
o pedido de emprego, ou a própria alegria.
A esperança é também uma forma
de contínuo adiamento.
Sei que é preciso prestigiar a esperança,
numa sala de espera.
Mas sei também que espera significa luta e não, apenas,
esperança sentada.
Não abdicação diante da vida.

A esperança
nunca é a forma burguesa, sentada e tranquila da espera.

Nunca é a figura de mulher
do quadro antigo.
Sentada, dando milho aos pombos.


"Um Dia Depois do Outro", Cassiano Ricardo

(Cassiano Ricardo nasceu no dia 26 de Julho de 1895. Morreu em 1974.)

sexta-feira, 26 de julho de 2019

Cassiano Ricardo 5

A orquídea

A orquídea parece
uma flor viva, uma
boca, e nos assusta.
Flor aracnídea.

Vagamente humana,
boca, embora feita
de inocentes pétalas,
já supõe perfídia.

Já supõe palavra
embora muda.
Já supõe insídia.

Que estará dizendo
o lábio quase humano
da orquídea?


"Um Dia Depois do Outro", Cassiano Ricardo

(Cassiano Ricardo nasceu no dia 26 de Julho de 1895. Morreu em 1974.)

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Cassiano Ricardo 4

Relógio

Diante de coisa tão doída
conservemo-nos serenos.

Cada minuto de vida
nunca é mais, é sempre menos.

Ser é apenas uma face
do não ser, e não do ser.

Desde o instante em que se nasce
já se começa a morrer.


"Um Dia Depois do Outro", Cassiano Ricardo

(Cassiano Ricardo nasceu no dia 26 de Julho de 1895. Morreu no dia 14 de Janeiro de 1974.)

quinta-feira, 26 de julho de 2018

Cassiano Ricardo 3

Serenata sintética

Lua
morta.

Rua
torta.

Tua
porta.

"Um Dia Depois do Outro", Cassiano Ricardo

(Cassiano Ricardo nasceu no dia 26 de Julho de 1895. Morreu em 1974.)