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sábado, 11 de agosto de 2018

Tomás António Gonzaga 5

Lira XIX

Enquanto pasta alegre o manso gado,
Minha bela Marília, nos sentemos
À sombra deste cedro levantado.

Um pouco meditemos
Na regular beleza,
Que em tudo quanto vive, nos descobre
A sábia natureza.

Atende, como aquela vaca preta
O novilhinho seu dos mais separa,
E o lambe, enquanto chupa a lisa teta.
Atende mais, ó cara,
Como a ruiva cadela
Suporta que lhe morda o filho o corpo,
E salte em cima dela.

Repara, como cheia de ternura
Entre as asas ao filho essa ave aquenta,
Como aquela esgravata a terra dura,
E os seus assim sustenta;
Como se encoleriza,
E salta sem receio a todo o vulto,
Que junto deles pisa.

Que gosto não terá a esposa amante,
Quando der ao filhinho o peito brando,
E refletir então no seu semblante!
Quando, Marília, quando
Disser consigo: "É esta

De teu querido pai a mesma barba,
A mesma boca e testa."
[...]

"Marília de Dirceu", Tomás António Gonzaga

(Tomás António Gonzaga nasceu no dia 11 de Agosto de 1744. Morreu em 1810.)

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Tomás António Gonzaga 4

É gentil, é prendada a minha Alteia;
As graças, a modéstia de seu rosto
Inspiram no meu peito maior gosto
Que ver o próprio trigo quando ondeia.


Mas, vendo o lindo gesto de Dirceia,
A nova sujeição me vejo exposto;
Ah! que é mais engraçado, mais composto
Que a pura esfera, de mil astros cheia!


Prender as duas com grilhões estreitos
É uma ação, ó deuses, inconstante,
Indigna de sinceros, nobres peitos.


Cupido, se tens dó de um triste amante,
Ou forma de Lorino dois sujeitos,

Ou forma desses dois um só semblante.
 
"Marília de Dirceu", Tomás António Gonzaga

(Tomás António Gonzaga nasceu no dia 11 de Agosto de 1744. Morreu em 1810.)

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Tomás António Gonzaga 3

Quando o torcido buço derramava
Terror no aspecto ao português sisudo,
Quando, sem pó nem óleo, o pente agudo,
Duro, intonso, o cabelo em laço atava;

Quando contra os irmãos o braço armava
O forte Nuno, opondo escudo a escudo;
Quando a palavra, que prefere a tudo,
Com a barba arrancada, João firmava;

Quando a mulher à sombra do marido
Tremer se via; quando a lei prudente
Zelava o sexo do civil ruído;

Feliz então, então só inocente
Era de Luso o reino. Oh! bem perdido!
Ditosa condição, ditosa gente!


Tomás António Gonzaga

(Tomás António Gonzaga nasceu no dia 11 de Agosto de 1744. Morreu em 1810.)

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Tomás António Gonzaga 2

Com pesadas cadeias manietado,
Às vozes da razão ensurdecido,
Dos céus, de mim, dos homens esquecido,
Me vi de amor nas trevas sepultado.

Ali aliviava o meu cuidado
C’o dar de quando em quando algum gemido.
Ah! tempo! Que, somente refletido,
Me fazes entre as ditas desgraçado.

Assim vivia, quando a falsidade
De Laura me tornou num breve dia
Quanto a razão não pôde em longa idade:

Quebrei o vil grilhão que me oprimia!
Oh! feliz de quem goza a liberdade,
Bem que venha por mãos da aleivosia!


Tomás António Gonzaga

(Tomás António Gonzaga nasceu no dia 11 de Agosto de 1744. Morreu em 1810.)

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Tomás António Gonzaga

Obrei quanto o discurso me guiava,
Ouvi aos sábios quando errar temia;
Aos bons no gabinete o peito abria,
Na rua a todos como iguais tratava.

Julgando os crimes, nunca os votos dava,
Mais duro ou pio do que a lei pedia:
Mas devendo salvar ao justo, ria,
E devendo punir aos réu, chorava.

Não foram, Vila Rica, os meus projetos,
Meter em férreo cofre cópia d´ouro,
Que farte aos filhos e que chegue aos netos:

Outras são as fortunas que me agouro,
Ganhei saudades, adquiri afetos,
Vou fazer deste bens melhor tesouro.


Tomás António Gonzaga

(Tomás António Gonzaga nasceu no dia 11 de Agosto de 1744. Morreu em 1810.)